Capítulo 35: O Corvo e o Caldeirão
Maegwin estremeceu quando o clangor recomeçou, o som lúgubre que significava tantas coisas... E nada de bom. Uma das outras garotas, uma pequena e bela jovem de pele clara que Maegwin avaliara à primeira vista como desistente, soltou a barra que todas empurravam para tapar os ouvidos. A pesada peça da cerca, que deveria manter o portão fechado, quase caiu, mas Maegwin e as outras duas garotas se mantiveram firmes.
— Pelo Rebanho de Bagba, Cifgha! — rosnou para a que soltara a barra. — Você está louca? Se isso tivesse caído, alguém poderia ter sido esmagado, ou pelo menos quebrado um pé!
— Desculpe, minha senhora! — disse a garota, com as bochechas coradas. — É que esse barulho alto... Me assusta!
A garota recuou para retomar seu lugar, e todas empurraram, tentando encaixar a enorme barra de carvalho no entalhe que manteria o cercado fechado. Dentro da cerca, uma densa manada de gado vermelho grunhia, tão inquieta quanto as jovens com o barulho incessante.
Com um arranhão e um baque, a barra caiu no lugar, e todas se viraram, ofegantes, para se apoiarem com as costas no portão.
— Misericordiosos sejam os deuses. — gemeu Maegwin. — Minha coluna está quebrando!
— Isto não está certo. — opinou Cifgha, olhando com pesar para os arranhões sangrentos em suas palmas. — É trabalho de homem!
O clamor metálico cessou, e por um instante o próprio silêncio pareceu cantar. A filha de Lluth suspirou e respirou fundo o ar gélido.
— Não, pequena Cifgha. — respondeu. — O que os homens estão fazendo agora é trabalho de homem, e o que sobrar para fazer é trabalho de mulher... A menos que queira carregar uma espada e uma lança.
— Cifgha? — disse uma das outras meninas, rindo. — Nem sequer mata uma aranha.
— Eu sempre chamo o Tuilleth para fazer isso. — disse Cifgha, orgulhosa de sua meticulosidade. — E ele sempre vem até mim.
Maegwin fez uma careta.
— Bem, é melhor nos acostumarmos a lidar com nossas próprias aranhas. Não haverá muitos homens por perto nos próximos dias, e os que restarem terão muito o que fazer.
— É diferente para você, Princesa. — disse Cifgha. — Você é grande e forte.
Maegwin encarou fixamente a jovem, contudo não respondeu.
— Você não acha que a luta vai durar o verão inteiro, acha? — perguntou outra menina, como se estivesse falando de uma tarefa tediosa.
Maegwin se virou para olhá-las, para seus rostos úmidos de suor e seus olhos já vagando, procurando algo mais interessante para conversar. Por um momento, quis gritar, assustá-las para que percebessem que aquilo não era um torneio, nem uma brincadeira, e sim algo mortalmente sério.
“No entanto, por que esfregar a verdade em seus rostos como lama?” pensou, cedendo. “Logo todos nós teremos mais do que precisamos.”
— Não sei se vai durar tanto tempo, Gwelan. — respondeu, balançando a cabeça. — Espero que não. Espero mesmo que não.
***
Enquanto descia dos piquetes em direção ao grande salão, os dois homens começaram a bater outra vez no enorme caldeirão de bronze que pendia de cabeça para baixo em sua estrutura de postes de carvalho diante das portas da frente do Taig. Ao passar por eles, o barulho dos homens batendo furiosamente no caldeirão com porretes de ponta de ferro era tão alto que teve de tapar os ouvidos com as mãos. Ela se perguntou uma vez mais como seu pai e seus conselheiros conseguiam pensar, quanto mais planejar uma estratégia de vida ou morte com aquele alvoroço terrível do lado de fora do salão. Mesmo assim, se o Caldeirão de Rhynn não fosse tocado, levaria dias para avisar cada uma das cidades periféricas, uma por uma, ainda mais aquelas que se agarravam às encostas do Grianspog. Dessa forma, as aldeias e mansões ao alcance do som do caldeirão enviariam cavaleiros para as que estavam além. O senhor do Taig tocava o caldeirão em tempos de perigo desde muito antes dos dias em que Hern, o Caçador, e Oinduth, sua poderosa lança, haviam transformado suas terras em um grande reino. Crianças que nunca o tinham ouvido soar ainda o reconheciam instantaneamente, tantas histórias sobre o Caldeirão de Rhynn eram contadas.
As altas janelas do Taig estavam fechadas hoje contra o vento frio e a neblina. Maegwin encontrou seu pai e seus conselheiros em séria discussão diante da lareira.
— Minha filha... — disse Lluth, levantando-se. Ele fez um esforço visível para lhe esboçar um sorriso.
— Peguei algumas mulheres e levei o resto do gado para o grande curral. — relatou Maegwin. — Não acho certo apertá-las todas juntas. As vacas estão sofrendo.
Lluth acenou com a mão, em sinal de desdém.
— É melhor perdermos algumas agora do que termos que tentar reuni-las se precisarmos recuar para as colinas às pressas.
No fundo do salão, a porta se abriu e os sentinelas bateram suas espadas contra seus escudos uma vez, como se quisessem ecoar o som penetrante da Convocação do Caldeirão.
— Agradeço, Maegwin! — disse o Rei, virando-se para cumprimentar o recém-chegado. — Eolair! — ergueu a voz enquanto o Conde avançava, ainda vestido com roupas manchadas de viagem. — Você retornou rapidamente dos curandeiros. Ótimo. Como estão seus homens?
O Conde de Nad Mullach aproximou-se, ajoelhou-se por um breve momento e depois voltou a se levantar frente ao gesto impaciente de Lluth.
— Cinco estão aptos para o combate; os dois feridos não parecem bem. Chamarei Skali pessoalmente para prestar contas dos outros quatro.
Por fim notou a filha de Lluth e sorriu com seu largo sorriso, mas sua testa permaneceu franzida em uma expressão cansada e preocupada.
— Minha senhora Maegwin. — disse, e tornou a se curvar, beijando sua mão de dedos longos, que, para sua vergonha, estava suja de terra da cerca do pasto.
— Ouvi falar do seu retorno, Conde. — disse a jovem. — Só gostaria que fosse em circunstâncias mais felizes.
— É uma pena terrível o que aconteceu com seus bravos mullachis, Eolair. — disse o Rei, voltando a se sentar com o velho Craobhan e seus outros homens de confiança. — Porém graças a Brynioch e Murhagh o Manco que você encontrou aquele grupo de reconhecimento. Se não fosse por isso, Skali e seus bastardos nortenhos teriam nos pegado de surpresa. Depois que a escaramuça com seus homens chegar aos ouvidos, tenho certeza de que adotará uma abordagem muito mais cautelosa... Pode até mudar de ideia completamente.
— Quem me dera fosse verdade, meu Rei. — disse Eolair, balançando a cabeça com tristeza.
O coração de Maegwin se enterneceu ao ver como ele suportava bravamente seu cansaço. Logo, amaldiçoou silenciosamente suas emoções infantis.
— Contudo... — continuou o Conde. — Temo que não seja assim. Para Skali lançar um ataque tão traiçoeiro tão longe de casa, deve estar confiante de que as probabilidades estão a seu favor.
— No entanto por quê, por quê? — protestou Lluth. — Estamos em paz com os rimmerios há anos!
— Creio, majestade, que isso tem pouco a ver com a situação. — Eolair foi respeitoso, embora não teve medo de corrigir seu Rei. — Se o velho Isgrimnur ainda governasse Elvritshalla, teria razão em se perguntar, contudo Skali é uma criatura de Elias. Corre o boato em Nabban de que Elias entrará em campo contra Josua a qualquer momento. Sabendo que recusamos o ultimato de Guthwulf, deve temer ter os hernystiros desimpedidos em suas costas quando atacar Naglimund.
— Todavia Gwythinn ainda está lá! — disse Maegwin, assustada.
— E com meia centena dos nossos melhores homens, para piorar. — resmungou o velho Craobhan ao lado da lareira.
Eolair se virou para lançar a Maegwin um olhar amável, do tipo condescendente, ela tinha certeza.
— Seu irmão sem dúvida está mais seguro atrás das grossas muralhas de pedra do castelo de Josua do que aqui em Hernysadharc. Além do mais, se souber da nossa situação e puder cavalgar até aqui, seus cinquenta homens estarão na retaguarda de Skali, para nossa vantagem.
O Rei Lluth esfregou os olhos como se quisesse enxugar o desânimo e a preocupação do último dia.
— Não sei, Eolair, não sei. Tenho um mau pressentimento sobre tudo isto. Não é preciso ser vidente para prever um ano de mau agouro, como tem sido este desde o primeiro instante.
— Ainda estou aqui, pai. — disse Maegwin, e aproximou-se para se ajoelhar ao seu lado. — Ficarei com você.
O Rei deu um tapinha na mão de sua filha.
Eolair sorriu e acenou com a cabeça em resposta às palavras da menina para o pai, mas sua mente estava em seus dois homens moribundos e na vasta força de rimmerios que descia a Marca Gelada em direção ao Inniscrich, uma grande onda de ferro afiado e senciente.
— Aqueles que ficarem talvez não nos agradeçam. — murmurou.
Lá fora, a voz estridente do caldeirão ecoava por Hernysadharc, bradando incessantemente para as colinas além: Cuidado... Cuidado... Cuidado...
***
O Barão Devasalles e seu pequeno contingente de nabbanos haviam, de alguma forma, conseguido transformar sua fileira de aposentos na fria ala leste de Naglimund em um pedacinho de seu lar meridional. Embora o clima atípico estivesse frio demais para permitir as janelas e portas escancaradas tão comuns na amena Nabban, eles cobriram as paredes de pedra com tapeçarias verde-brilhantes e azul-celeste e preencheram todas as superfícies disponíveis com velas e lamparinas a óleo, de modo que os cômodos fechados se iluminavam de forma abundante.
“É mais claro aqui ao meio-dia do que lá fora.” concluiu Isgrimnur. “Porém é como disse o velho Jarnauga, não conseguirão fazer tudo o mais desaparecer tão facilmente quanto fizeram com a escuridão invernal, nem de longe.”
As narinas do Duque se contraíram como as de um cavalo assustado. Devasalles havia espalhado potes de óleos perfumados por toda parte, alguns flutuando com pavios acesos como minhocas brancas, enchendo a câmara com os aromas intensos de especiarias da ilha.
“Será que é o cheiro do medo de todos que ele não gosta, ou o do bom e velho ferro?” Isgrimnur resmungou de desgosto e deslizou sua cadeira para perto da porta do corredor.
Devasalles havia se surpreendido ao encontrar o Duque e o Príncipe Josua à sua porta, sem aviso prévio e de forma inesperada, contudo logo os convidou a entrar, jogando para o lado alguns dos mantos multicoloridos que cobriam as cadeiras duras para que seus convidados pudessem se sentar.
— Desculpe incomodá-lo, Barão. — disse Josua, inclinando-se para a frente e apoiando os cotovelos nos joelhos. — No entanto eu desejava falar com você a sós antes de concluirmos o Raed esta noite.
— Claro, meu Príncipe, claro. — Devasalles assentiu, encorajando-o.
Isgrimnur, observando com desdém os cabelos brilhantes do homem e as bugigangas reluzentes que usava no pescoço e no pulso, perguntou-se como poderia ser o espadachim mortal que sua reputação dizia que era.
“Parece que poderia se enroscar em um dos próprios colares.”
Josua explicou apressadamente os eventos dos últimos dois dias, que eram o verdadeiro motivo pelo qual o Raed não havia continuado. Devasalles, que, como os demais lordes reunidos, duvidara, acabou por aceitar a alegação de doença do Príncipe, e ergueu a sobrancelha, embora não disse nada.
— Não posso falar de maneira franca; ainda não. — acrescentou Josua. — Na confusão, na mobilização das forças locais, nas idas e vindas, seria muito fácil para alguém de má-fé ou um dos espiões de Elias levar as notícias de nossos temores e planos ao Supremo Rei.
— Entretanto nossos temores são conhecidos por todos. — disse Devasalles. — E ainda não fizemos planos.
— Quando eu estiver pronto para falar sobre essas coisas com todos os lordes, já terei assegurado os portões... Todavia, veja bem, Barão, você ainda não sabe toda a história.
Com isso, o Príncipe passou a contar a Devasalles todas as últimas descobertas, sobre as três espadas e o poema profético no livro do sacerdote louco, e como essas coisas coincidiam com os sonhos de muitos.
— Mas se você vai contar a todos os seus súditos em breve, por que me contar agora? — perguntou Devasalles.
À porta, Isgrimnur bufou, também havia se perguntado a mesma coisa.
— Porque preciso do seu senhor Leobardis, e preciso agora! — disse Josua. — Preciso de Nabban!
Ele se levantou e começou a percorrer o cômodo, encarando as paredes como se estivesse estudando seus adornos, porém seu olhar estava fixo em um ponto a léguas além da pedra e do tecido.
— Desde o início, precisei da promessa do Duque, contudo agora preciso dela mais do que nunca. Elias entregou Rimmersgardia, para todos os efeitos práticos, a Skali e ao seu clã dos Corvos Kaldskryke. Com isto, colocou uma faca nas costas do Rei Lluth; os hernystiros poderão me enviar muito menos homens, pois serão obrigados a manter alguns para defender suas terras. Gwythinn, que há uma semana estava ansioso para estar com Elias, já está ávido para retornar e ajudar seu pai a defender Hernysadharc e seus confins.
Josua virou-se bruscamente para encarar Devasalles nos olhos. O rosto do Príncipe era uma máscara de orgulho frio, no entanto sua mão apertava a frente da camisa, algo que nem Isgrimnur nem o Barão deixaram de notar.
— Se o Duque Leobardis algum dia quiser ser mais do que um lacaio de Elias, precisará se aliar a mim agora.
— Entretanto por que você me conta isso? — perguntou Devasalles. Ele parecia genuinamente confuso. — Eu sei de tudo isso, e as outras coisas... As espadas, o livro e tudo mais... Não fazem diferença.
— Maldito seja, homem, fazem sim! — retrucou Josua, elevando a voz quase a um grito. — Sem Leobardis, e com Hernystir sob a ameaça do norte, meu irmão nos deixará tão encurralados quanto se estivéssemos pregados em um barril, e além do mais, estamos lidando com demônios, e quem pode saber que terrível vantagem isso significa? Fizemos uma pequena e frágil tentativa de conter essas forças, porém de que adiantará... Mesmo que tenhamos sucesso, contra todas as probabilidades, se todas as fortalezas tiverem sido derrubadas? Nem seu Duque nem ninguém mais responderá ao Rei Elias com nada além de ‘sim, mestre’, de agora em diante!
O Barão balançou a cabeça outra vez, e seus colares emitiram um suave tilintar.
— Estou confuso, meu senhor. Será que o senhor não sabe? Enviei uma mensagem ao Sancellan Mahistrevis em Nabban por meio do meu cavaleiro mais veloz anteontem à noite, dizendo a Leobardis que acredito que o senhor lutaria e que deveria enviar seus homens para o campo de batalha em seu apoio.
— O quê? — Isgrimnur saltou, seu espanto ecoando o do Príncipe.
Ambos estavam de pé, cambaleando sobre Devasalles, com expressões de homens surpreendidos pela noite.
— Por que não me contou? — exigiu Josua.
— Meu Príncipe, eu lhe contei. — balbuciou Devasalles. — Ou pelo menos, já que fui aconselhado a não o incomodar, enviei uma mensagem aos seus aposentos com meu selo. Acredito que tenha lido, certo?
— Bem-aventurados Jesuris e sua mãe! — Josua bateu com a mão esquerda aberta na coxa. — A culpa é toda minha, pois ela ainda está na minha mesa de cabeceira. Deornoth a trouxe para mim, contudo estava esperando um momento mais tranquilo. Acho que me esqueci. Mesmo assim, não há problema, e suas notícias são excelentes.
— Disse que Leobardis virá? — perguntou Isgrimnur, desconfiado. — Como tem tanta certeza? Você mesmo parecia ter algumas dúvidas.
— Duque Isgrimnur... — disse Devasalles com um tom gélido. — Estou certo que o senhor compreende que estou apenas cumprindo meu dever. Na verdade, o Duque Leobardis há muito simpatiza com o Príncipe Josua. Da mesma forma, ele teme que Elias esteja se tornando ousado demais. As tropas estão em alerta há semanas.
— Então por que o enviou? — perguntou Josua. — O que pensava descobrir que já não tivesse obtido de mim, por meio dos meus mensageiros?
— Não buscava nada de novo. — disse Devasalles. — Embora tenha havido muito mais revelações aqui do que qualquer um de nós esperava. Não, meu Duque enviou minha embaixada mais para causar uma boa impressão em certos outros em Nabban.
— Há resistência entre seus súditos? — perguntou Josua, com os olhos brilhando.
— Claro, no entanto não é incomum... Nem é a origem da minha missão. Era para minar a resistência vinda de uma fonte mais próxima.
Ali, apesar de a pequena câmara estar obviamente vazia, exceto pelos três, Devasalles lançou um olhar para todos os lados.
— São sua esposa e filho que mais resistem à sua aliança com você. — disse Devasalles por fim.
— Você se refere ao mais velho, Benigaris?
— Sim, caso contrário, ele ou um dos filhos mais novos de Leobardis estariam aqui em meu lugar. — o Barão deu de ombros. — Benigaris ve muito do que gosta no governo de Elias, e a Duquesa Nessalanta... — o emissário nabbano tornou a dar de ombros.
— Ela também favorece as chances do Supremo Rei. — Josua sorriu com amargura. — Nessalanta é uma mulher inteligente. Uma pena que agora será forçada, contra a sua vontade, a apoiar a escolha de aliados do marido. Pode muito bem estar certa em seus receios.
— Josua! — Isgrimnur ficou chocado.
— Estou apenas brincando, meu velho amigo. — disse o Príncipe, todavia sua expressão o desmentia. — Então o Duque irá para o campo de batalha, bom Devasalles?
— O mais breve possível, Príncipe Josua. Com a nata dos cavaleiros de Nabban em seu séquito.
— E uma boa quantidade de piqueiros e arqueiros também, espero. Bem, que a graça de Aedon esteja sobre todos nós, Barão.
Ele e Isgrimnur se despediram e saíram para o corredor escuro, deixando para trás as cores vibrantes do quarto do Barão como um sonho abandonado ao amanhecer.
— Sei de uma pessoa que ficará muito feliz com esta notícia, Isgrimnur.
O Duque ergueu uma sobrancelha, interrogativo.
— Minha sobrinha. Miriamele ficou muito chateada quando pensou que Leobardis talvez não viesse. Afinal, Nessalanta é sua tia. Ela certamente ficará feliz com esta notícia.
— Vamos contar a ela. — propôs Isgrimnur, pegando o cotovelo de Josua e guiando-o em direção ao pátio. — Pode estar com as outras damas da corte. Estou cansado de olhar para soldados barbudos. Posso ser um velho, entretanto ainda gosto de admirar uma ou duas damas de vez em quando.
— Que assim seja. — Josua sorriu, o primeiro sorriso espontâneo que Isgrimnur vira em vários dias. — Então iremos visitar sua esposa, e poderá lhe contar sobre seu amor inabalável pelas damas.
— Príncipe Josua... — disse o velho Duque com cautela. — Você nunca será velho ou tão importante que eu não possa lhe dar uns bons puxões de orelha, só para ver se consigo.
— Hoje não, tio. — Josua sorriu com desdém. — Preciso delas para entender o que Gutrun tem a lhe dizer.
***
O vento que soprava da água trazia o aroma de cipreste. Tiamak, enxugando gotas de suor da testa, agradeceu em silêncio Àquele Que Sempre Pisa na Areia pela brisa inesperada. Ao voltar de verificar sua linha de armadilhas, sentiu o ar carregado de tempestade descer sobre Wran... Um ar quente e furioso que vinha e não ia embora, como um crocodilo do pântano circulando um pequeno barco furado.
Mais uma vez, Tiamak enxugou a testa e pegou a tigela de chá de raiz amarela que estava em infusão na pedra de fogo. Enquanto tomava um gole, não sem alguma dor nos lábios rachados, ele se preocupava com o que deveria fazer.
Era a estranha mensagem de Morgenes que o perturbava. Por dias, suas palavras sinistras ecoaram em sua cabeça como pedrinhas em uma cabaça seca enquanto conduzia seu barco pelos caminhos sinuosos do Wran ou seguia para o mercado em Kwanitupul, a vila de comerciantes que se situava ao longo do riacho que saía do lago Eadne. Fazia a viagem de três dias de barco a remo até Kwanitupul uma vez a cada lua nova, aproveitando sua educação incomum nas barracas de mercado, ajudando os pequenos comerciantes wrananos a negociar com os comerciantes nabbanos e perdruinos que trabalhavam nas aldeias costeiras de Wran. A cansativa jornada até Kwanitupul era uma necessidade, mesmo que fosse apenas para ganhar algumas moedas e talvez um saco de arroz. O arroz usava para complementar a refeição daquele caranguejo ocasional que era muito estúpido ou muito convencido para evitar suas armadilhas. Não havia muitos caranguejos tão cooperativos, no entanto, e era por isso que a refeição habitual de Tiamak era peixe e raízes.
Enquanto se agachava em sua pequena cabana, empoleirada em uma figueira-de-bengala, revisando ansiosamente a mensagem de Morgenes pela centésima vez, lembrou-se das ruas movimentadas e íngremes de Ansis Pelippe, a capital de Perdruin, onde ele e o velho doutor se conheceram.
Por mais que o clamor e o espetáculo do vasto porto comercial, cem, não, muitas centenas de vezes maior que Kwanitupul... Um fato que seus conterrâneos wrananos jamais acreditariam, provincianos e caipiras que eram, eram os cheiros que Tiamak lembrava com mais intensidade, os milhões de aromas mutáveis: o cheiro úmido e salgado dos cais, temperado com o aroma dos barcos de pesca; as fogueiras nas ruas onde homens barbudos da ilha ofereciam espetos de carneiro borbulhante e tostado; o almíscar de cavalos suados e rangidos, cujos orgulhosos cavaleiros, mercadores e soldados galopavam cheios de ousadia pelo meio das ruas de paralelepípedos, deixando os pedestres se dispersarem à vontade; e, claro, os aromas rodopiantes de açafrão e erva-de-são-joão, de canela e mantinges, que circulavam pelo Distrito das Especiarias como solicitações exóticas e fugazes.
Só as lembranças o deixavam com tanta fome que quase queria chorar, mas Tiamak se conteve. Havia trabalho a ser feito, e não podia se deixar distrair por tais obsessões carnais. Morgenes precisava de sua ajuda, de alguma forma, e Tiamak tinha que estar pronto.
Na verdade, fora a comida que chamara a atenção de Morgenes, tantos anos atrás em Perdruin. O doutor, em uma espécie de busca por produtos farmacêuticos pelos distritos comerciais de Ansis Pelippe, esbarrou e quase derrubou o jovem wranano, tão atento estava o jovem Tiamak observando uma variedade de pães de marshmallow em uma mesa de padeiro. O doutor ficou entretido e intrigado com o rapaz do pântano tão longe de casa, cujas desculpas ao homem mais velho eram tão repletas de expressões idiomáticas nabbanas cuidadosamente aprendidas. Quando Morgenes soube que o menino estava na capital de Perdruin para estudar com os Irmãos Jesurianos e era o primeiro de sua aldeia a deixar o pantanoso Wran, comprou-lhe um grande pedaço de pão e uma xícara de leite. Daquele momento em diante, Morgenes tornou-se como um deus para o estupefato Tiamak.
***
A folha de pergaminho embaçada à sua frente, embora fosse uma cópia da mensagem original que se desfizera pelo manuseio, estava se tornando difícil de ler. Porém ele a encarara tantas vezes que já não importava. Chegou até a colocá-la de volta em seus códigos originais e a traduzi-la outra vez, apenas para garantir que não perdera nenhum detalhe sutil, contudo importante.
‘A era da Estrela do Conquistador está sobre nós...’ o doutor escrevera, ao avisar Tiamak que esta provavelmente seria sua última carta por um longo tempo. A ajuda de Tiamak seria necessária, Morgenes o assegurou, ‘...se certas coisas terríveis que, dizem, são insinuadas no infame livro perdido do sacerdote Nisses...’ devessem ser evitadas.
Na primeira vez que foi a Kwanitupul depois de receber a mensagem de Morgenes, trazida por um pardal, Tiamak perguntou a Middastri, um mercador perdruino com quem às vezes bebia uma jarra de cerveja, que coisas terríveis estavam acontecendo em Erchester, a cidade onde Morgenes morava em Erkynlandia. Middastri disse que ouvira falar de conflitos entre o Supremo Rei Elias e Lluth de Hernystir, e é claro que todos falavam há meses sobre a briga entre Elias e seu irmão, o Príncipe Josua, no entanto além disso, o mercador não conseguia se lembrar de nada de especial. Tiamak que, pela mensagem de Morgenes, temera um perigo maior e mais imediato, sentiu-se um pouco melhor. Ainda assim, a importância da mensagem do doutor o incomodava.
‘O infame livro perdido...’ Como Morgenes sabia do segredo? Tiamak não havia contado a ninguém; queria surpreender o doutor com este em uma visita que planejava fazer na primavera seguinte, sua primeira vez ao norte de Perdruin. Agora parecia que Morgenes já sabia algo sobre seu prêmio... Todavia por que não o disse? Por que, em vez disso, deveria insinuar, enigmar e sugerir, como um caranguejo cutucando com cuidado a cabeça do peixe para fora de uma das armadilhas de Tiamak?
O wranano pousou sua tigela de chá e atravessou o cômodo de teto baixo, mal se levantando de sua posição agachada com os joelhos dobrados. O vento quente e amargo começou a soprar um pouco mais forte, balançando a casa em seus altos pilares, levantando o telhado de palha com um sibilo serpentino. Procurou em seu baú de madeira o objeto embrulhado em folhas, cuidadosamente escondido sob a pilha de pergaminhos que era sua própria reescrita de Os Remédios Soberanos dos Curandeiros de Wran, o que Tiamak gostava de considerar sua ‘grande obra’. Encontrando-o por fim, tirou e o desembrulhou, não pela primeira vez nas últimas duas semanas.
Ao vê-lo ao lado de sua transcrição da mensagem de Morgenes, ficou impressionado com o contraste. As palavras de Morgenes foram copiadas de forma meticulosa com tinta preta de raiz em pergaminho barato, batido tão fino que a chama de uma vela, a um palmo de distância, poderia inflamá-lo. O outro, o prêmio, foi escrito em uma folha de pele ou couro bem esticada. As palavras marrom-avermelhadas percorriam a página de forma desordenada, como se o escritor estivesse a cavalo ou sentado à mesa durante um tremor de terra.
Este último era a joia da coleção de Tiamak... Aliás, se estivesse certo sobre o que era, seria a joia da coroação da coleção de qualquer pessoa. Ele o encontrara em uma grande pilha de outros pergaminhos usados que um comerciante em Kwanitupul estava vendendo para prática de escrita. O comerciante não sabia a quem o lote de papéis havia pertencido, apenas que o recebera como parte de um lote aleatório de utensílios domésticos em Nabban. Temendo que sua boa sorte pudesse evaporar, Tiamak reprimiu o impulso de questionar mais e comprou-o ali mesmo... Junto com um feixe de outros pergaminhos, por uma reluzente peça de quinis de Nabban.
Olhou fixamente para aquilo outra vez... Embora já tivesse lido aquilo mais vezes do que a mensagem de Morgenes, se é que era possível... E especialmente para o topo do pergaminho, não tanto rasgado, mas roído, cuja desfiguração terminava com as letras ‘ARDENVYRD’.
Não seria o famoso volume desaparecido de Nisses... Alguns até o chamavam de imaginário... Intitulado Du Svardenvyrd? Como Morgenes sabia? Tiamak não havia contado a ninguém sobre sua descoberta fortuita.
Abaixo do título, as runas nórdicas, borradas em alguns lugares, descamando em pó cor de ferrugem em outros, eram, no entanto, bastante legíveis, escritas no arcaico nabbano de cinco séculos atrás.
Trazido do Jardim Rochoso de Nuanni
O Homem que, embora Cego, pode Ver
Descobre a Lâmina que entrega a Rosa
Ao pé da grande Árvore Rimmeria.
Encontre o Chamado cuja voz suave
Pronuncia o nome do Portador do Chamado
Em um Navio no Mar Mais Raso...
Quando Lâmina, Chamado e Homem
Chegarem à Mão Direita do Príncipe
Então o Prisioneiro voltará a ser Livre...
Abaixo do estranho poema, um único nome estava impresso em runas grandes e desajeitadas: NISSES.
Apesar de Tiamak manter o olhar fixo, a inspiração ainda permanecia distante, para sua angústia. Por fim, suspirando, enrolou o antigo pergaminho de volta em sua capa de folhas conservantes e o guardou em seu baú de madeira.
O que, então, Morgenes queria que fizesse? Levá-lo ao próprio doutor em Hayholt? Ou deveria, em vez disso, enviar a mensagem a outro sábio, como a bruxa Geloë, o gordo Ookequk lá em Yiqanuc, ou o sujeito em Nabban? Talvez o plano mais sábio fosse apenas esperar pelas próximas palavras do Doutor Morgenes, em vez de partir imprudentemente sem entender a totalidade do que estava acontecendo. Afinal, pelo que Middastri lhe contara, o que quer que Morgenes temesse devia estar muito distante; sem dúvida havia tempo para esperar até saber o que o doutor queria.
“Tempo e paciência...” aconselhou a si mesmo. “Tempo e paciência...”
Lá fora da janela, os ramos do cipreste gemiam, sofrendo sob o peso do vento.
***
A porta do quarto se abriu de repente. Sangfugol e Vorzheva saltaram, com ar de culpabilidade, como se tivessem sido pegos em alguma impropriedade, embora cada um estive de lado diferente do cômodo. Enquanto olhavam para cima, com os olhos arregalados, o alaúde do menestrel, que estava encostado na cadeira, inclinou-se e caiu a seus pés. Ele o pegou às pressas e o apertou contra o peito como se fosse uma criança ferida.
— Maldita seja, Vorzheva, o que você fez? — Josua exigiu.
O Duque Isgrimnur estava logo atrás na porta, com uma expressão preocupada.
— Acalme-se, Josua! — insistiu, puxando o gibão cinza do Príncipe.
— Quando eu souber a verdade desta... Desta mulher. — cuspiu Josua. — Até lá, fique fora disso, meu velho amigo.
A cor retornara às bochechas de Vorzheva.
— O que está dizendo? — perguntou ela. — Você bate nas portas como um touro e grita perguntas. Ao que se refere?
— Não tente me enganar. Acabei de falar com o porteiro; tenho certeza de que ele gostaria que eu nunca o tivesse encontrado, de tão irritado que estou. Fui informado que Miriamele saiu ontem de manhã com a minha permissão... Que não era permissão alguma de minha parte, e sim o meu selo anexado a um documento falso!
— E por que grita comigo? — perguntou a dama com arrogância.
Sangfugol começou a se aproximar sorrateiramente da porta do quarto, ainda segurando seu instrumento ferido contra o peito.
— Sabe muito bem o motivo. — rosnou Josua, o rubor por fim começando a desaparecer de suas feições pálidas. — E fique onde está, harpista, pois não terminei com você. Vejo que tem sido muito confiável para minha senhora.
— Às suas ordens, Príncipe Josua. — disse Sangfugol hesitante. — Para aliviar sua solidão. Mas da Princesa Miriamele, juro que nada sei!
Josua avançou para o quarto, fechando a pesada porta atrás de si sem olhar para trás. Isgrimnur, ágil apesar da idade e do porte físico, desviou-se da porta.
— Boa Vorzheva, não me trate como se fosse um dos garotos da carroça com quem cresceu. Tudo o que ouvi de você é como a pobre Princesa tem estado triste, a pobre Princesa sente falta da família. Agora Miriamele saiu pelos portões com algum vilão, e algum outro confederado usou meu anel de selo para lhe dar passagem segura! Não sou tolo!
A mulher de cabelos escuros retribuiu o olhar por um instante, então seu lábio começou a tremer. Lágrimas de raiva brotaram em seus olhos enquanto se sentava de volta, as longas saias farfalhando.
— Muito bem, Príncipe Josua. — disse. — Corte-me a cabeça se quiser. Ajudei a pobre moça a ir para sua família em Nabban. Se não fosse tão cruel, teria a enviado você mesmo, com homens armados para escoltá-la. Em vez disso, tudo o que a garota tem como companhia é um monge bondoso. — sua mão tirou um lenço do decote do vestido e enxugou os olhos. — Mesmo assim, Miriamele estará mais feliz assim do que presa aqui como um pássaro numa gaiola.
— Pelas Lágrimas de Elysia! — praguejou Josua, jogando a mão para o ar. — Sua tola! Miriamele só queria fingir ser uma emissária... Pensou em encontrar glória trazendo seus parentes nabbanos para esta luta ao meu lado.
— Talvez não seja justo dizer ‘glória’, Josua. — advertiu Isgrimnur. — Acredito que a Princesa realmente quisesse ajudar.
— E o que há de errado nisso? — perguntou Vorzheva, desafiadora. — Você precisa da ajuda de Nabban, não precisa? Ou será que é orgulhoso demais?
— Deus me ajude, os nabbanos já estão conosco! Entendeu? Faz apenas uma hora que vi o Barão Devasalles. Todavia agora a filha do Supremo Rei está vagando sem rumo pelas terras, com todas as tropas do pai prestes a entrar em campo e seus espiões por toda parte como moscas.
Josua gesticulou frustrado, depois se deixou cair na cadeira, com as longas pernas esticadas à sua frente.
— É demais para mim, Isgrimnur. — confessou, cansado. — E ainda se pergunta por que não me declaro rival pelo trono de Elias? Não consigo nem manter uma jovem em segurança sob o meu teto.
O Duque esboçou um triste sorriso.
— Se bem me lembro, o pai dela tampouco teve muita sorte em mantê-la por perto.
— Mesmo assim... — o Príncipe levou a mão à testa para massageá-la. — Jesuris, minha cabeça está latejando só de pensar nisso.
— Ora, Josua. — disse o Duque, lançando um olhar para os outros, advertindo-os para que mantivessem silêncio. — Nem tudo está perdido. Só precisamos enviar um grupo de bons homens para vasculhar os arbustos em busca de Miriamele e deste monge, este... Cedric ou seja lá qual for seu nome...
— Cadrach! — disse Josua, sem emoção.
— Sim, então, Cadrach. Bem, uma jovem e um frade santo não conseguem se mover tão rápido a pé. Apenas colocaremos alguns homens a cavalo e iremos atrás deles.
— A menos que a Senhora Vorzheva também tenha escondido cavalos para eles. — disse Josua, amargamente. Logo se endireitou. — Não escondeu, não é?
Vorzheva não conseguia encará-lo.
— Misericordioso Aedon! — praguejou Josua. — Esse é o truque final! Vou mandá-la de volta para seu pai bárbaro em um saco, como uma gata selvagem!
— Príncipe Josua? — foi a voz do harpista que soou. Como não obteve resposta, pigarreou e tentou outra vez. — Meu Príncipe?
— O quê? — disse Josua, irritado. — Sim, pode ir. Conversarei com você mais tarde. Vá.
— Não, senhor... Quer dizer, o senhor disse que o nome do monge era... Cadrach?
— Sim, foi o que o porteiro disse. Os dois conversaram um pouco. Ora, o senhor o conhece ou sabe os lugares por onde ronda?
— Bem, não, Príncipe Josua, mas acho que o rapaz Simon o encontrou. E me contou muitas de suas aventuras, e o nome me soa bastante familiar. Oh, senhor, se for o mesmo homem, a Princesa pode estar em perigo.
— O que quer dizer? — Josua inclinou-se para a frente.
— O Cadrach de quem Simon me falou era um patife e um batedor de carteiras, senhor. E também se disfarçava de monge, mas não era um homem de Aedon, disso tenho certeza.
— Não pode ser! — disse Vorzheva. O kohl ao redor de seus olhos havia escorrido para suas bochechas. — Eu conheci esse homem, e ele me citou o Livro de Aedon. Irmão Cadrach é um homem bom e gentil.
— Até um demônio pode citar o Livro. — disse Isgrimnur, balançando a cabeça tristemente.
O Príncipe se levantou de um salto e foi em direção à porta.
— Precisamos enviar os homens o quanto antes, Isgrimnur. — disse ele, então parou e se virou, pegando Vorzheva pelo braço. — Venha, senhora. — disse bruscamente. — Você não vai desfazer o mal que fez, porém pode ao menos vir e nos contar tudo o que sabe, onde escondeu os cavalos e tudo mais.
Ele a ajudou a se levantar.
— Não posso sair! — disse ela, chocada. — Veja, estive chorando! Meu rosto está horrível.
— Pelo mal que me fez, e talvez à minha tola sobrinha também, é uma punição pequena o suficiente. Venha!
Josua a apressou para fora do quarto, seguido por Isgrimnur. Suas vozes discutindo ecoaram pelo corredor de pedra.
Sangfugol, que ficou para trás, dedicou um triste olhar para seu alaúde. Havia uma longa rachadura percorrendo toda a extensão do seu corpo curvo de freixo, e uma das cordas pendia solta em uma espiral inútil.
— Esta noite terá pouca embora amarga música. — falou.
***
Ainda faltava uma hora para o amanhecer quando Lluth se aproximou de sua cama. Ela não conseguira dormir a noite toda, tensa por dentro de preocupação por ele, contudo quando ele se inclinou para tocar seu braço, fingiu dormir, querendo poupá-lo da única coisa da qual ainda podia poupá-lo: o conhecimento de seu próprio grande medo.
— Maegwin. — pronunciou Lluth, com doçura.
Seus olhos se fecharam; lutou contra o impulso de estender a mão e abraçá-lo com força. Com armadura completa, exceto pelo capacete, como ela sabia pelo som de seus passos e pelo cheiro de óleo de polimento, ele poderia ter dificuldade em se endireitar se o puxasse para perto. Mesmo a despedida podia suportar, por mais amarga que fosse. O pensamento de vê-lo demonstrando seu cansaço e sua idade justo naquela noite, era algo que não conseguia suportar.
— É você, pai? — enfim respondeu.
— Sou.
— E irá agora?
— Preciso ir. O sol vai nascer logo, e esperamos chegar à beira do bosque no meio da manhã.
A jovem se sentou. O fogo havia se apagado, e mesmo com os olhos abertos, não conseguia ver muita coisa. Através das paredes, podia ouvir o som débil de sua madrasta, Inahwen, soluçando. Maegwin sentiu uma pontada de raiva diante de tal demonstração de tristeza.
— Que o Escudo de Brynioch os proteja, pai. — rogou, estendendo uma mão cega para encontrar seu rosto na escuridão. — Queria ser um filho, para lutar ao seu lado.
Ela sentiu os seus lábios se curvarem sob seus dedos.
— Ah, Maegwin, você sempre foi feroz. Não tem dever suficiente aqui? Não será fácil ser a senhora do Taig enquanto eu estiver fora.
— Você se esquece da sua esposa.
Lluth sorriu de novo na escuridão.
— Não me esqueço. Você é forte, Maegwin, mais forte do que ela. Terá de lhe emprestar um pouco da sua força.
— Ela geralmente consegue o que quer.
A voz do Rei era gentil, porém segurou o pulso de sua filha com firmeza.
— Não, filha. Junto com Gwythinn, vocês três são as pessoas que mais amo no mundo. Ajude-a.
Maegwin detestava chorar. Puxou a mão da mão do pai e esfregou os olhos com força.
— Eu vou. — respondeu. — Me perdoe.
— Não precisa se desculpar. — respondeu Lluth, então pegou a mão dela mais uma vez e a apertou. — Adeus, filha, até que eu volte. Há corvos cruéis em nossos campos, e temos trabalho a fazer para espantá-los.
Maegwin se levantou da cama e o abraçou com força. Um instante depois, a porta se abriu e fechou, e ouviu seus passos subindo lentamente o corredor, o tilintar das esporas como uma música triste.
Mais tarde, quando chorou, estava com os cobertores sobre a cabeça para que ninguém ouvisse.
***
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