Capítulo 02: O primeiro amor de alguém com transtorno de comunicação é semelhante ao gosto de pão mofado
E assim, de volta ao presente.
Após concluir seu pagamento sem problemas, Zagan se sentiu bem até retornar ao seu castelo. No entanto, depois de não saber como falar com ela e se preocupar incessantemente por meia hora, a primeira coisa que a garota disse em voz alta foi.
— Como... Você vai... Me matar?
Com uma voz que soava como um sino, pronunciou essas palavras... E ele não teve tempo de se deter na lembrança persistente.
As algemas em suas mãos e pés foram removidas, todavia a coleira que selava sua mana ainda estava presa em seu pescoço.
Zagan queria removê-la também, mas mesmo para ele não era algo que pudesse ser desatado tão facilmente. Parecia que o anfitrião do leilão também não sabia como removê-la, e não havia nada parecido com uma chave.
Talvez fosse uma relíquia do comprador original, o Arquidemônio Marchosias. A única opção era dedicar um tempo investigando a coleira.
Não transparecia em sua expressão facial, porém a garota apelou para Zagan em um tom deprimido.
— Se eu souber como vou morrer, acho que consigo reunir minha coragem... Ao menos um pouco.
Seu rosto inexpressivo não parecia ser resultado de tensão, e sim de uma clara resignação.
Zagan então elevou a voz, atrapalhado.
— Espere, espere, espere! Não pretendo te matar. Aliás, seria problemático se você não estivesse viva! — para tentar tranquilizá-la respondeu dessa forma, contudo por algum motivo sua expressão pareceu ficar ainda mais sombria.
— Em outras palavras, não vai me permitir encontrar paz na morte... É isto o que quer dizer?
A garota olhava para as correntes penduradas no teto, bem como para o esqueleto preso lá em cima, quando falou.
Um suor frio escorreu por sua bochecha.
É um equívoco. Era trabalhoso arrumar tudo quando estou usando feitiçaria aqui, então acabei deixando como estava! Este castelo foi a morada de outro feiticeiro antes.
A fortuna usada para dar o lance vencedor por esta garota também foi algo que esse feiticeiro deixou para trás. Estritamente falando, não era algo que Zagan tivesse em estoque.
Entretanto, para o bem ou para o mal, o antigo dono era um feiticeiro estereotipado, e dentro do castelo havia instrumentos de tortura, aparelhos de feitiçaria e até esqueletos espalhados por toda parte. Os ossos pendurados no teto também não eram do agrado de Zagan, embora mesmo que o dissesse em voz alta, era pouco provável que pudesse convencê-la.
Embora ela estivesse praticamente morrendo de medo, Zagan falou como se quisesse amenizar a situação.
— Fique tranquila. Não tenho intenção de usar essas coisas perturbadoras em você. Também não pretendo atormentá-la. Não há nada... Para você ter medo.
Não conseguiu falar aquilo com uma voz tão suave, mas considerando que era Zagan, achou que tinha conseguido transmitir o que queria dizer...
Se tinha a convencido ou não, era outra história.
E talvez como esperado, a garota inclinou a cabeça para o lado, confusa.
— Hã...? Então, por que... Me comprou?
— Bem, sobre isso...
Era uma dúvida óbvia.
Porém, por causa da personalidade de Zagan, não havia como dizer que foi porque se apaixonou à primeira vista.
O que exatamente devo fazer em momentos como este? Eu deveria ter perguntado ao Barbatos...
Zagan o deixou para trás no local do leilão, porém por algum motivo ele não o seguiu.
Barbatos não parecia ter muita experiência com mulheres, contudo ainda assim, era pelo menos capaz o suficiente para proclamar “mulheres de sua escolha”. No mínimo, devia saber mais sobre como lidar com mulheres do que Zagan, ou pelo menos era o que presumia.
Zagan soltou um gemido como se estivesse encurralado, e as seguintes palavras saíram de sua boca
— Você não precisa saber.
O que diabos estou dizendo? Ele gritou internamente.
No entanto, para sua surpresa, a expressão da garota não mudou. Parecia um pouco abatida, mas de forma superficial.
Essa calma não é... Um pouco estranha? Talvez apenas não demonstre muita emoção, embora antes disso, teve a impressão de que a garota havia desistido de tudo.
Depois de ser capturada, ele ouviu dizer que nada havia sido feito com o corpo dela, mas o que havia acontecido com ela...?
— Você... — Zagan tentou começar uma conversa, porém então percebeu que sequer sabia seu o nome.
O que significa que também não sabe nada sobre mim, né?
E finalmente, sentiu que tinha encontrado o fio da meada para começar uma conversa.
— Meu nome é Zagan. Como pode ver, sou um feiticeiro, contudo torturar pessoas não é algo que faço ou aprecio.
— Sim.
— E então, o que acha de...
Mesmo querendo apenas perguntar o seu nome, Zagan não conseguiu dizer mais nada.
Seu idiota...! Só estou perguntando o nome dela! Por que fico tão nervoso só por estar consciente que é uma garota!
Zagan já possuía muito poder como feiticeiro. E apesar disso, buscava coragem como se estivesse desafiando uma morte certa sem nenhuma chance de vitória.
Coragem era uma palavra desconhecida para ele.
Entretanto, se não se impusesse, não conseguiria progredir em nada ali.
— Qual é o seu...
E quando abriu a boca, a garota elevou a voz com um...
— Ah. Desculpe... Por demorar em dizer. Meu nome é... Nephelia.
Uma sensação calorosa percorreu o peito de Zagan como uma brisa refrescante.
Parecia que ela era capaz de adivinhar o que Zagan estava tentando dizer. Aquilo o fez pensar que ela era uma garota fantástica e atenciosa.
— Nephelia... Hein? — ele sentiu como se pudesse ouvir o eco se repetir muitas vezes.
Nas lendas, a palavra Nefilim significava “aquele que caiu do céu”. Evocava esse tipo de imagem mental. Já a considerava uma palavra mística e bela, e o seu nome era muito semelhante.
Assim como sua aparência, é um nome encantador.
Apenas saber o nome fez Zagan se sentir nas nuvens, fazendo-o compreender amargamente o significado por trás das palavras “o amor leva o homem à ruína”.
Seu estado já era o que se poderia ser descrito como eufórico. Se alguém permanecesse em um estado mental tão anormal, por mais excepcional que fosse, era provável que acabasse ruindo.
Espere, Nephelia é seu primeiro nome ou sobrenome?
Forçando a expressão que havia suavizado, Zagan interrompeu com a pergunta.
— Nephelia... O quê, exatamente?
— Só Nephelia. Não tenho sobrenome. Se for difícil de pronunciar, pode me chamar de Nephy.
— Tem certeza?
— Sim?
O nome Nephelia tinha um som bonito, contudo seu apelido Nephy também era adorável.
Zagan, sem querer, elevou a voz, e a garota, Nephy, inclinou a cabeça para o lado.
Na verdade, não ter sobrenome é igual a mim... Quando se deu conta do que acontecia ao seu redor, Zagan estava assaltando estradas para juntar lixo.
Esqueça o nome de família, sequer conhecia o rosto dos seus pais. O nome Zagan era gíria das favelas da cidade, e era algo que o acompanhava desde a infância, quando passou a ser visto como uma espécie de demônio.
Pensando bem, aquela foi a época mais prazerosa da minha vida. Eu conversava com meus companheiros assaltantes e com o povo da cidade. E mesmo apanhando muito, era de alguma forma gratificante.
Ele cometeu crimes hediondos, no entanto ainda estava em um lugar onde o sol brilhava. E, naturalmente, também conseguia conversar com garotas. Se havia um momento ensolarado nas memórias de Zagan, era aquele período.
Percebendo que Nephy o encarava confusa, Zagan balançou a cabeça.
— Para uma elfa, hmm, isso é comum? Quero dizer, não ter um sobrenome.
— Não. É porque sou uma criança amaldiçoada.
— Uma criança amaldiçoada...?
Tendo ouvido um termo bastante estranho, Zagan franziu a testa.
Nephy então fechou a boca como se tivesse cometido um deslize.
— Hmm... Por que você está perguntando sobre uma coisa dessas?
— Sem motivo, só estou um pouco curioso...
Zagan hesitou em dizer que não queria saber apenas o seu nome e o significado de criança amaldiçoada, e sim tudo a seu respeito também. E depois que Nephy assentiu como se tivesse entendido, por algum motivo ela puxou a barra da saia para cima.
Suas coxas alvas ficaram expostas, e Zagan conseguiu até vislumbrar a delicada renda de seu short.
— Por favor, fique à vontade. Sou virgem.
Zagan percebeu que seu rosto estava ficando vermelho.
— V-Você entende o que está dizendo?
— Oh...? Me disseram que uma virgem tem mais mana. Você não estava falando sobre se meu valor como material experimental foi prejudicado?
— Não me entenda mal. Não tenho nenhuma intenção de usá-la em experimentos ou torturá-la.
Nephy fez uma cara de ainda mais confusa do que antes.
— Então, por que me comprou?
— ...
Zagan franziu a testa e permaneceu em silêncio.
— Você não precisa saber.
Então, repetiu as mesmas palavras de antes.
Ou melhor, não conseguia respondê-la. Não importava quem fosse ou como tivessem ouvido falar, se lhes dissessem que Zagan comprou uma escrava em um leilão clandestino depois de se apaixonar à primeira vista, pensariam que era só um grande pervertido. Se Nephy o olhasse com aqueles olhos, Zagan não conseguiria se recuperar. Ainda que os feiticeiros tivessem juventude prolongada, era perfeitamente possível considerar a morte por choque.
Dito isso, se eu não responder, Nephy também ficará ansiosa, não é?
Então, o que deveria fazer? Teria sido melhor mandá-la de volta para casa por aquele dia...?
Não, em primeiro lugar, teria para onde voltar? Mais cedo, se chamou de criança amaldiçoada. Falou com uma expressão sombria no rosto, e não achava que conseguiria perguntar a ela por mais detalhes. O próprio Zagan também não tinha para onde voltar, e sentia a mesma presença vinda dela.
Claro, se ela quisesse voltar para seu local de nascimento, queria ajudá-la, embora não parecia um ambiente propício para fazer tal pergunta precipitadamente.
Nesse caso, já que Zagan a comprou, significaria que, superficialmente, eles acabariam morando juntos ali, mas...
Espere, morando juntos? Ele, que agora era incapaz de dizer qualquer coisa direito, deveria morar sob o mesmo teto que aquela garota adorável? Zagan foi acometido por uma leve onda de tontura.
Em que situação absurda ele havia se metido?
Era verdade que estava feliz com a ideia, no entanto por algum motivo sentia que tinha feito algo que não devia.
Calma. Sou um feiticeiro. Um feiticeiro poderoso não se abala.
Não era como se fossem dormir na mesma cama. Primeiro, precisavam pensar no que era necessário para viver... Juntos.
Zagan se levantou do trono e parou diante de Nephy.
— Nephy.
— Sim.
Ele tentou chamá-la pelo nome, e uma estranha sensação de constrangimento o invadiu.
Mesmo assim, não hesitou e Zagan se dirigiu a ela.
— Escute, Nephy. Você é algo que eu comprei e, portanto, me pertence.
— Sim.
— Então, por ora, concederei a você um quarto. Pode escolher o que quiser.
— Em outras palavras, está me dizendo para escolher o lugar onde vou morrer?
— Eu não disse antes que não ia te matar?
Tendo enfim elevado a voz em sinal de pesar, Nephy baixou os olhos como se estivesse perturbada.
— Não entendo... O significado disso. Como vai me usar... De um jeito que eu não morra?
Certamente, desde que fora capturada por humanos, fora atormentada por pensamentos sobre seu destino final. Por causa disso, talvez já não acreditasse mais em esperança.
Na verdade, Zagan também conhecia esses sentimentos.
Foi na época em que praticava roubos nas estradas, enquanto buscava restos de comida no lixo das favelas.
Naquela época, o que mesmo eu queria ouvir...?
Ainda naquela época, não sabia a resposta para essa pergunta. Apesar disso, Zagan estendeu a mão até o cabelo de Nephy.
Sentiu seus cabelos brancos como a neve com a palma da mão. Sabia que o corpo de Nephy se contraía e tremia.
E assim, sem hesitar, Zagan murmurou.
— Eu te comprei... Porque preciso de você. Então não fique só falando sobre morrer desse jeito.
Nephy arregalou os olhos e olhou para o rosto de Zagan.
Estava surpresa.
Essa foi a primeira vez que viu algo parecido com uma expressão no seu rosto.
— Precisa... De... Mim?
Era de certa forma constrangedor, porém Zagan sentiu que precisava deixar esse fato claro para ela.
— Sim, preciso. É por essa razão que, de agora em diante, você viverá por minha causa.
— Sim.
Como sempre, a expressão de Nephy não se alterou nem um pouco, contudo também não demonstrou nenhum sinal de duvidar das palavras de Zagan.
Talvez não acreditasse em tudo o que Zagan dizia. Ainda assim, não pronunciou mais nenhuma palavra sobre lamentar sua morte.
Este foi o início de uma longa convivência entre dois indivíduos desajeitados.
***
— Bem, sobre o quarto que irá usar...
Ele estava pensando em qual seria um bom lugar.
Nephy foi capturada como escrava. Com certeza havia passado por emoções dolorosas.
Em vez de algum lugar subterrâneo ou qualquer lugar escuro, um quarto com uma bela vista seria melhor.
Nesse caso, a torre no topo do castelo era a mais apropriada. Quando se tratava da vista, aquele era o melhor lugar de todos. E enquanto a guiava até lá, de repente percebeu algo.
— Nephy, você se sente confortável em lugares altos?
Pela primeira vez, sentiu que havia feito uma pergunta de forma bastante natural.
E sem fazer qualquer expressão, Nephy fez um aceno.
— Sim. Pendure-me pelas mãos ou pelo pescoço, o que preferir.
— Quem falou em tortura, hein?
— Minhas... Desculpas. Quando te ouvi falar em lugares altos, nada mais me veio à mente.
Enquanto Nephy o encarava sem expressão, Zagan levou a mão à cabeça.
Tenha um pouco mais de esperança em morar aqui...
Se fosse assim, talvez um quarto em um lugar alto fosse um problema. Não achava que fosse possível, entretanto o perigo de Nephy se jogar da sacada lhe passou pela cabeça.
Mesmo assim, eles continuaram subindo a escada em espiral e seguiram em direção ao último andar.
Parecia que a luz lá fora já havia diminuído.
Zagan estalou os dedos e as velas enfileiradas na parede se acenderam de uma vez.
— Por aqui.
— Sim... Ah.
Enquanto Zagan começava a subir a escada, Nephy soltou um pequeno grito ao cambalear.
A chama bruxuleante das velas era uma fonte de luz pouco confiável. Os degraus eram escuros e, com os saltos finos dos sapatos de Nephy, parecia ter dificuldade para andar.
De repente, Zagan pegou sua mão e a amparou.
— Minhas... Desculpas...
O rosto da garota que dissera aquilo estava tão perto que parecia que seu nariz ia tocar o dela.
Um leve aroma doce fez cócegas no nariz de Zagan.
Ele olhou dentro dos seus olhos azuis, emoldurados por cílios brancos.
Estava completamente encantado e, ao mesmo tempo, sentia uma enorme vergonha. E, como se tentasse disfarçar, Zagan bufou com um “hmph”.
— T-Tenha cuidado. Preste atenção por onde anda.
— S-Sim...
E acabou falando num tom áspero. Parecia que Nephy estava hesitante.
E assim, enquanto continuavam a subir a escada em espiral, Zagan notou a sensação delicada em sua mão.
Hm? Será que... Estou segurando a mão da Nephy? Ele segurou a sua mão quando a ajudou a se apoiar. E depois, acabou apenas segurando-a despreocupadamente.
Zagan não achava que fosse a primeira vez que segurava a mão de uma garota, mas tentar se lembrar de outra ocasião em sua memória se mostrou difícil... No fim, talvez fosse mesmo a primeira vez.
Sua mão branca era delicada, macia e quente. Na palma da sua mão, sentiu uma palpitação. Talvez fosse só a sua própria.
Inesperadamente, Nephy continuou olhando para aquela mão em silêncio.
Zagan sentiu uma timidez inexplicável que o deixou enjoado, embora também não queria soltar a mão dela. Alternando entre um ritmo acelerado e um lento, Zagan alcançou o topo do castelo.
Por fim, após subir três andares, a porta do último andar surgiu à vista.
Estava um pouco preocupado com a dificuldade que ela teria ao subir e descer se transformasse aquele no quarto de Nephy, porém por enquanto colocou a mão contra a porta.
— Este é um quarto que não costuma ser usado. Pode estar... Um pouco sujo, contudo...
Dito isso, a pergunta fundamental: “Será que eu já entrei neste quarto antes?” veio à mente de Zagan.
Fazia cerca de dez anos que morava ali, no entanto era seu costume se isolar nos arquivos, então era um proprietário que não conhecia todo o interior do próprio castelo.
E então, se arrependeu de não ter verificado essa dúvida com antecedência.
Nesta sala onde soprava uma brisa refrescante, a lâmina de uma guilhotina fazia um som ao balançar no ar.
Além disso, havia esqueletos abandonados há muitos anos e frascos contendo substâncias misteriosas espalhados por toda parte. Com a ajuda da luz tênue das velas, era o lugar mais assustador e sinistro que poderia imaginar.
— Não vamos usar este lugar. — ele imediatamente começou a fechar a porta, mas era um pouco tarde demais.
Afinal, as pessoas sentiam o maior desespero ao verem suas mais tênues esperanças frustradas.
Logo após dizer que precisava dela, instrumentos de tortura foram revelados a sua frente, e a luz nos olhos de Nephy desapareceu.
A garota abriu os braços como se estivesse jogando tudo fora.
— Por favor... Faça como quiser, Mestre.
— Você está enganada, ouviu? Isto é, bem... Ah, sim! É uma armadilha preparada para inimigos que invadiriam pelos céus.
Ouvido a si mesmo, até Zagan achou a desculpa bastante esfarrapada.
— Porém, bem, como posso dizer? É uma armadilha inútil, e coisas desse tipo só atrapalhariam. Então, vou me livrar delas.
Dizendo essas palavras, Zagan lançou um feitiço de relâmpago na sala com a lâmina da guilhotina pendurada e fechou a porta mais uma vez.
Logo em seguida, o som de uma explosão ecoou.
A onda de choque vazou pela fresta da porta, fazendo os cabelos brancos como a neve de Nephy esvoaçarem de leve. E enquanto Zagan estava fascinado com aquilo, a porta desabou com um baque para dentro do quarto.
Parecia que até as dobradiças tinham se desintegrado.
E assim, todos os vestígios de objetos repulsivos desapareceram completa e absolutamente do quarto...
Bem, o teto estava preto de queimado, e era questionável se ainda serviria como moradia. Até as velas tinham sido levadas pelo vento.
E, nesse instante, um suor frio escorreu pela bochecha de Zagan.
E-Eu pretendia remover a fonte de seus medos.
E quando se virou para olhar para Nephy, terrivelmente assustada, percebeu que ela havia ficado ainda mais pálida. Por fim, seus lábios trêmulos se abriram.
— Essa é a primeira vez... Que vejo uma feitiçaria tão devastadora...
Bom, acho que seria muito assustador se uma feitiçaria ofensiva fosse liberada assim de repente, não é? Além de que, apesar de ter sido contido, tinha força destrutiva suficiente para reduzir um feiticeiro comum a cinzas três vezes. Talvez não houvesse nenhuma pessoa comum que não ficasse abalada ao testemunhá-la.
Isso está errado. Tudo porque Barbatos é a única pessoa com quem tive conversas normais, eu...
Zagan foi e resolveu o problema usando o bom senso compartilhado entre os feiticeiros.
Pensando que não havia nada que pudesse ser feito, Zagan virou as costas para o quarto.
— Hmm. Este lugar não presta. É muito sombrio.”
— Isto... É o que você chamaria de sombrio? — a garota inclinou a cabeça para o lado como um passarinho, e Zagan não conseguiu responder.
Nephy então deu um passo para dentro do quarto.
Enquanto caminhava, cinzas flutuavam no ar. A janela não tinha vidro e, em vez de um quarto, devia ser mais apropriado chamá-lo de gaiola de pássaros ou algo do tipo. Embora não fosse muito extremo, não era o tipo de lugar onde uma garota deveria pisar.
Ainda assim, Nephy não pareceu se importar com isso e continuou caminhando em direção ao terraço.
Eu deveria... Colocar uma barreira para impedi-la de cair da borda, certo?
Ele não acreditava que Nephy se jogaria do terraço, contudo Zagan lançou sua magia por precaução. Na pior das hipóteses, era possível que apenas desabasse.
E para estar preparado para esse evento improvável, Zagan se alinhou ao lado de Nephy.
O terraço tinha um corrimão feito de tijolos de pedra, então achou que não seria estranho se este rachasse e desmoronasse em pedaços.
Colocando as mãos sobre o corrimão, Nephy olhou para o céu.
Agora era noite, e as nuvens haviam se dissipado um pouco. Uma fina linha de luar descia como um fio.
Olhando para cima, Nephy estendeu as duas mãos em direção ao céu. Apesar de ser um gesto tão casual, Zagan sentiu como se fosse algum tipo de ritual sagrado.
— Você... Gosta da lua?
— Não sei. — Nephy balançou a cabeça como se estivesse preocupada ao responder à pergunta de Zagan.
— Então, qual o significado desse gesto?
— Não sei.
E agora só estava dizendo que não sabia.
No entanto, os olhos de Nephy, enquanto contemplava a lua, pareciam carregados de uma nostalgia comovente. E, sem nenhum motivo aparente, Zagan a imitou e estendeu as mãos.
— Não consigo segurar nada, né?
— Acho que sim.
Zagan sentiu uma enorme vergonha ao ouvir a resposta dela com tanta seriedade.
Por que será que, em momentos como esse, não conseguia pensar em nada sensato para dizer?
Então, Nephy murmurou.
— Tudo bem... Eu... Ficar com este quarto?
Era a primeira vez que Nephy falava por conta própria.
Entretanto, Zagan se virou para olhar para o quarto horrível.
Os objetos perigosos certamente haviam desaparecido, mas também não havia mais nada, nem mesmo uma janela de vidro. Não parecia um espaço habitável.
Se usar feitiçaria para restaurá-lo, até a guilhotina voltará...
A limpeza e a decoração teriam que ser feitas com esforço constante.
— Talvez um quarto mais apropriado fosse...
E, ao começar a dizer isso, lembrou-se de que todos os quartos eram muito parecidos.
Ainda que não houvesse instrumentos de tortura, havia aparatos de feitiçaria sinistros espalhados por ali. No fim das contas, nenhum deles era um quarto adequado para uma garota normal.
E, incomodado com esse fato, Zagan falou mais uma vez.
— Você está bem com um lugar como esse?
— Sim. Afinal, este é o quarto que o senhor preparou para mim, Mestre.
Tudo o que fez foi lançar uma magia ofensiva para reduzir tudo no quarto a cinzas. Zagan não achava que aquilo pudesse ser descrito como ter preparado o quarto...
Porém, como não conseguia evitar inclinar a cabeça para o lado, pensando se algum outro quarto seria melhor, Zagan acenou com a cabeça.
— Muito bem. Então use este lugar como achar melhor.
De repente, ele acabou falando de forma exagerada mais uma vez, contudo Nephy curvou a cabeça com um aceno e disse o seguinte.
— Muito obrigada, Mestre.
E, por algum motivo, essa única frase atravessou o peito de Zagan.
Nephy então inclinou a cabeça para o lado.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, é que faz muito tempo... Que ninguém me diz isso.
Havia momentos em que deixava pessoas perdidas no castelo irem embora sem matá-las, no entanto Zagan não era uma boa pessoa por natureza.
Na maioria dos casos, elas fugiam a toda velocidade e não ofereciam uma única palavra de gratidão.
Todavia, Nephy não pareceu achar aquilo curioso e assentiu como se estivesse totalmente convencida.
— Também sinto que... Faz muito tempo que não digo isso.
— Entendo... — Zagan se perguntou se chegaria o dia em que também agradeceria a alguém.
Abrir seu coração para os outros ainda era algo distante, entretanto estava sinceramente feliz por ela enfim estar ouvindo o que ele tinha a dizer.
E assim, o primeiro dia deles juntos terminou pacificamente.
***
Na manhã seguinte.
Como o quarto que Zagan concedeu a Nephy no último andar do castelo ainda não podia ser usado, os dois dormiram na sala do trono.
Na verdade, não consegui pregar o olho.
Zagan também não conseguiu dormir nada no dia anterior. Achou que conseguiria pegar no sono em pouco tempo, mas só de pensar em Nephy bem ao seu lado, não conseguia parar de se revirar. Não que tivesse coragem de fazer alguma coisa, porém, mesmo assim, só de pensar em como poderia acabar sendo odiado se o fizesse, fez com que abandonasse qualquer ideia.
Por outro lado, Nephy provavelmente estava bem cansada.
Depois de se enrolar no tapete, ela adormeceu em seguida.
Embora esse também era um dos motivos pelos quais Zagan não conseguia dormir. Com uma figura tão indefesa exposta a sua frente, era impossível não pensar nela.
No meio da noite, Nephy parecia estar com frio e, em vez de um cobertor, Zagan a cobriu com seu manto. No entanto, essa talvez tenha sido uma má decisão da sua parte. Por algum motivo, pensar naquela linda garota usando seu manto fez o seu coração disparar em seu peito.
E enquanto se preocupava sem parar, quando se deu conta, o sol da manhã já havia surgido.
Seu estômago então soltou um som forte e patético.
— Acho que vou comer alguma coisa.
Depois que Zagan desceu ao depósito no porão, carregou duas porções da carne seca e de leite que havia armazenado lá embaixo. Não sabia quando Nephy acordaria, entretanto queria estar preparado para que ela pudesse tomar café da manhã imediatamente.
Quando retornou à sala do trono, Nephy já estava bem acordada e o esperando, sentada de joelhos. O manto com o qual a havia coberto estava cuidadosamente dobrado ao lado. Por algum motivo, agora parecia um desperdício colocá-lo de volta.
— Então você acordou.
— Sim. Bom dia, Mestre.
Zagan, quase sem querer, esboçou um sorriso.
Então ela vai me cumprimentar direito.
E embora tentasse responder, o pensamento... Hm? Depois de um bom dia, o que era para responder mesmo? o deixou perplexo.
Será que bastava apenas dizer bom dia de volta? Ou deveria dizer olá? “Bom dia para você” parecia insuficiente, pelo menos era o que pensava.
Ao refletir sobre, quantos anos haviam se passado desde que recebera uma saudação tão formal?
E enquanto Zagan se contorcia em agonia, Nephy o encarava com um olhar atônito.
Vendo aquilo, pigarreou com uma tosse.
— Trouxe uma refeição para você. Coma. — depois de dizer isso, Zagan sentiu uma certa repulsa por si mesmo.
Então eu não consigo nem a cumprimentar direito...? Quando se tornou uma pessoa tão desesperada?
Pensando bem, sentiu que talvez fosse uma pessoa desajustada desde o início.
Ainda enquanto olhava para Zagan com curiosidade, enquanto este sofria, Nephy aceitou obedientemente a carne seca e a xícara de leite.
— Muito obrigada, Mestre.
— Hmm.
Enquanto Zagan se sentia abatido por sua própria falta de coragem, Nephy o observou com um olhar tímido.
— Mestre.
— O quê?
— O que... Eu deveria estar fazendo?
— Hmm, vejamos...
Apesar de uma noite inteira ter passado, seguia não tendo ideia do que deveria pedir para Nephy fazer.
Devo pedir para que limpe alguma coisa? Porém, ainda ontem, dar uma olhada em um único cômodo foi um desastre.
Dentro deste castelo havia quase cinquenta cômodos bagunçados como aquele e, mais importante, Zagan nunca havia limpado nenhum deles. Não era um trabalho que pudesse ser feito por uma pessoa só, e de alguma forma sentia que, se desse a ordem, essa garota cumpriria a tarefa até o fim.
Em primeiro lugar, Zagan não se importava com estética e, apesar de não ter interesse nisso, não queria obrigá-la a fazer nada que a levasse à morte.
Contudo, nesse caso, o que poderia fazê-la fazer?
Ela talvez fique ansiosa se não tiver nada para fazer, não é...?
Essa garota tinha a ideia de que seria um sacrifício ou uma cobaia de laboratório. Então, se o homem que a comprou apenas lhe dissesse para ficar parada, ele não achava que ela ficaria satisfeita e pensaria: “Ah, é bom não ter que fazer nada”.
Enquanto resmungava, Zagan não conseguiu encontrar uma resposta, então colocou sua xícara de leite no chão e começou a mastigar a carne seca.
Nephy então fez uma careta como se tivesse achado aquilo inesperado.
— Mestre, o senhor também está comendo a mesma coisa?
— Sim...? Tem algo de estranho?
— Não, hm...
Parecia que ela queria dizer algo, no entanto o olhar de Nephy vagava como se tivesse dificuldade em encontrar as palavras.
— Fale. Você não vai me irritar.
Enquanto Zagan se amaldiçoava por não conseguir se expressar de uma maneira um pouco mais amigável, conseguiu dizer isso.
Nephy manteve sua expressão impassível e abriu a boca como se tivesse dificuldade para falar.
— Me sinto... Privilegiada por ter recebido uma refeição. Entretanto, Mestre, acho estranho que o senhor esteja comendo as mesmas coisas...
À sua maneira, se esforçou para expressar suas dúvidas.
Zagan então cruzou os braços e considerou o que ouviu. O que exatamente Nephy achava tão estranho? A única coisa diante de seus olhos era uma xícara suja cheia de leite e carne seca de sabe-se lá quanto tempo atrás.
Hm? Agora que pensei, havia um grupo comendo coisas parecidas na cidade ontem também.
Sim. Se bem se lembrava, eram os escravos em Kianoides.
Vê-los no meio da rua era bastante lamentável, todavia, pensando bem, Zagan estava comendo algo semelhante.
E, após concordar com a cabeça, Zagan abriu a boca para falar.
— Será que... É porque esta refeição é muito modesta?
— Hmm, sim... Acredito que seja comida adequada para um escravo como eu.
Em outras palavras, em vez de uma refeição, era gororoba.
Mas, em vez de se ofender, Zagan estava genuinamente lamentando. Ou melhor...
Será que ela... Está preocupada comigo? Não, talvez tenha me enganado um pouco.
Não era como se fosse abrir o coração de repente depois de ontem e hoje.
Não era o caso, porém era como se ela não pudesse ficar parada assistindo, não importava quem fosse. Era quase como se estivesse dizendo: “Essa pessoa não vai morrer se eu não fizer nada a respeito?”
Zagan roeu por um tempo e então olhou para a carne seca e murcha.
Aaah, é verdade. Essa comida está num nível em que nem dá para chamar de refeição.
Desde os tempos em que era um salteador de estradas, esse era o único tipo de comida que tinha, então nunca pensou muito a respeito. Estava no ponto em que, contanto que não morresse de fome, não importava o que fosse.
Além da carne seca, também comia pão endurecido, mas esse mofava muito rápido e ficava intragável. Já havia tentado comê-lo à força, porém tudo que conseguiu foi sentir dor de estômago e lembranças trágicas.
Pensando em como não cheguei a lugar nenhum desde ontem me levou a lembrar do gosto do pão, hein?
Ele já tinha ouvido dizer que o primeiro amor tinha gosto de limão, contudo na realidade era mais uma sensação azeda que parecia dilacerar seu estômago.
Se tivesse que nomear uma coisa que de fato achava deliciosa, seria bebida alcoólica. A bebida que Barbatos trouxe enquanto falava como um idiota era deliciosa, no entanto naquela época o prato principal também era carne seca.
Quando se tratava de álcool, Zagan não sabia o que era melhor comprar, então no fim sua vida de carne seca e leite apenas seguiu inalterada.
— O que... Uma pessoa normal come, fico imaginando...
Enquanto murmurava distraído essas palavras, Nephy abriu a boca como se tivesse tomado uma decisão.
— Hmm, Mestre.
— O que foi?
Depois de respirar fundo, Nephy disse o seguinte.
— Embora possa parecer impertinente da minha parte, devo... Cozinhar algo para você?
Zagan se levantou num pulo.
Em seguida, segurou a mão de Nephy, que recuou assustada.
— Você sabe cozinhar?
— Só aprendi observando, então não posso garantir o sabor, mas...
Que habilidade a dela.
Comida caseira... E não é tudo, estava sendo feita pela garota por quem se apaixonara. Para Zagan, aquilo nunca tinha sido uma opção.
Agora que penso, entre os três grandes desejos do homem, um deles é o apetite por comida...
Tudo o que fazia era pesquisar feitiçaria, então nunca pensou em satisfazer esse tipo de desejo.
O contorno de seus olhos ficou úmido.
Seria aquela sensação se transformando em lágrimas? Foi uma revelação chocante para Zagan que tal coisa ainda existisse dentro de si.
Em seguida, virou o leite de um só gole.
— Phew, escute, Nephy. Decidi o que vai fazer.
— Sim. O que é?
— Ir às compras!
Dentro daquele castelo, não havia ingredientes além de carne seca e leite velho. Até Zagan sabia que era impossível fazer algo delicioso só com isso.
— Ah, sim. — Nephy respondeu como se estivesse surpresa, olhando fixamente para Zagan o tempo todo. Então, ela aplaudiu levemente. Talvez tenha só pensado que precisava reagir de alguma forma, todavia foi uma cena bastante constrangedora.
***
A maior cidade nas proximidades era sem dúvida Kianoides, entretanto havia várias outras pequenas vilas e assentamentos perto do castelo abandonado.
Zagan estava indo em direção a uma delas, mas ao sair do castelo, logo percebeu que havia um problema.
Pensando bem, gastei toda a minha fortuna com a Nephy, hein?
Estava sem dúvida sem um tostão no bolso.
Naquele momento, estava perturbado pela voz em seu coração, então não havia pensado em nada do que aconteceria depois.
Como Kianoides era uma cidade comercial, possuía estradas bem conservadas que se estendiam para vários lugares. Cidades pontilhavam essas estradas, e era comum usar carruagens para viajar entre elas. Se alguém caminhasse pela estrada, conseguiria pelo menos pegar uma diligência em pouco tempo.
Porém, Zagan enfim percebeu que não tinha dinheiro para embarcar em uma carruagem dessas.
— Não vai entrar? — o cocheiro, um jovem teriantropo com rosto de gato, inclinou a cabeça para o lado, e Zagan balançou a cabeça em resposta.
— Aaah, parece que esqueci algo. Podem ir sem mim.
— É mesmo?
O barulho das rodas da carruagem ecoou enquanto ela partia.
Enquanto Zagan se despedia da carruagem em vão, Nephy inclinou a cabeça para o lado atrás dele.
— Vamos voltar para o castelo?
— Não, não há necessidade.
— É mesmo...?
Mesmo que voltasse para o castelo, não havia mais uma única moeda de cobre. Talvez fosse possível vender alguns daqueles instrumentos de tortura, contudo também custaria muito caro chamar um mercador capaz de avaliá-los e fazer a transação.
Na verdade, Nephy também precisava de algo para vestir.
Desde a noite anterior, essa garota estava usando o mesmo vestido branco. Além disso, como o castelo estava imundo, havia se sujado.
Para fazer algo a respeito, era necessário conseguir dinheiro.
E como se estivesse minimizando a situação, Zagan murmurou com uma expressão solene.
— Faz bastante tempo que não saio a esta hora. Não faz mal dar uma caminhada de vez em quando.
— Sim.
Dando uma desculpa esfarrapada, Zagan começou a caminhar na direção em que a carruagem seguia, e Nephy o seguiu.
Ao lançar um olhar rápido para trás, notou que Nephy estava levantando a barra da saia e acelerando o passo. Havia o fato de que o tamanho de seus passos era diferente, no entanto imaginou que a dificuldade se devia principalmente ao fato de ter dificuldade para andar com aquele vestido e aqueles sapatos. Então, Zagan mantendo isto em mente, caminhou em um ritmo mais tranquilo.
Enquanto caminhava, Zagan começou a se preocupar. Seria uma boa ideia atacar a carruagem de antes e pegar todo o dinheiro e as mercadorias? Ultimamente não vinha fazendo esse tipo de coisa, entretanto quando era mais novo era sua principal forma de se sustentar.
Todavia, na noite passada acabou assustando Nephy com sua feitiçaria ofensiva.
Aliás, o que aquela garota pensaria enquanto assistia a um homem roubar inocentes? No fim das contas, acho que roubar não é bom.
Mas, nesse caso, como ganharia dinheiro?
Enfim, enquanto Zagan pensava que, já que Nephy sabia cozinhar, deveria vender seu castelo e abrir um restaurante na cidade... Um grito veio mais adiante na estrada.
Nephy engoliu em seco.
— Mestre.
— Hmm? Ah, deve ser um assalto. Bandidos aparecem por aqui de vez em quando.
Ao longe, homens carregando machados atacavam uma carruagem.
Havia cerca de uma dúzia de homens armados. Era um bando de bandidos inofensivos para homens e animais.
Não eram feiticeiros, apenas pessoas comuns. Nenhum deles recebeu treinamento como os Cavaleiros Angelicais, e também não usavam armaduras complicadas como as dos Arcanjos. Eram apenas pessoas comuns que estavam causando tumulto, empunhando ferramentas cortantes fáceis de manejar.
Essa era praticamente toda a percepção que Zagan tinha a seu respeito.
Os passageiros estavam sendo puxados para fora da carruagem, e os bandidos estavam roubando todo o dinheiro e as mercadorias. Parecia que pretendiam levar uma jovem junto, pois a estavam arrastando para outra carruagem. O mais provável é que pretendiam vendê-la como escrava ou usá-la como brinquedo. Em qualquer caso, o destino daquela mulher estava selado.
Zagan, pelo menos, achou a garota sequestrada lamentável, porém ele mesmo já havia feito coisas semelhantes antes. Não achou que fosse uma cena tão deplorável assim.
Enquanto observava a cena como se não lhe dissesse respeito, por fim percebeu que Nephy estava tremendo no lugar.
— O que foi?
— N-Nada...
A pessoa em questão fingiu estar calma, embora seu rosto estivesse pálido e seus lábios tremessem. Na verdade, parecia que não conseguia desviar o olhar da cena que se desenrolava à sua frente.
Zagan ficou surpreso.
Será que Nephy também havia sido sequestrada assim? Não era como se Nephy tivesse sido capturada por traficantes de escravos desde o início. Ela deveria estar vivendo uma vida pacífica em algum lugar antes disso. Essa cena pode estar lhe trazendo à tona uma lembrança dolorosa.
Zagan então apontou o dedo para os bandidos.
— Nephy, de uma boa olhada. Aquelas coisas são um lixo.
— Sim — sua voz soava um tanto abatida.
Ele não sabia o que a estava desanimando, contudo Zagan concentrou sua mana no dedo que havia estendido.
Logo em seguida, uma única linha de relâmpago disparou como uma flecha.
— Kyaaa. — Nephy cobriu o rosto enquanto soltava um adorável gritinho.
Atingidos pelos raios ramificados, vários dos bandidos desapareceram no ar.
A boca de Nephy se abria e fechava sem emitir som.
Com aquele ataque repentino, os bandidos também se enrijeceram, como se não entendessem o que havia acontecido.
Não tenho intenção de dizer que vou protegê-la ou algo tão atrevido.
Claro, a feitiçaria ofensiva pode tê-la assustado, no entanto, quaisquer que fossem as circunstâncias, ter medo de meros bandidos era inaceitável. Aqueles seres eram como ervas daninhas ou pedrinhas, então não havia nada neles para se temer.
Foi por esse motivo que lhe mostrou que os bandidos não passavam de pequenos insetos.
De qualquer forma, parecia que os bandidos ao menos entenderam que um inimigo havia aparecido.
— N-Não entrem em pânico! Mesmo que seja um feiticeiro, não é como se pudesse ficar lançando feitiços sem parar! Avancem antes que possa conjurar o próximo feitiço!
Ouvindo a voz do que parecia ser seu líder, os bandidos avançaram com suas armas em punho.
— Mestre.
— Fique atrás de mim. — após dar seu aviso para Nephy depois que sua voz trêmula escapou de seus lábios, Zagan deu um passo à frente.
O bandido mais próximo de Zagan era um homem grande, cerca de duas cabeças mais alto que ele. Seus braços eram repletos de músculos que talvez fossem mais grossos que a cintura de Nephy.
Aquele homem veio golpeando com o machado na mão. Até uma grande árvore poderia acabar sendo partida ao meio com aquilo, já que era um golpe brutal. Algo como a cabeça de Zagan seria esmagada como um ovo, e a arma estava vindo direto para o seu crânio.
— R-Ridículo... Urgh?
No entanto, quem deixou escapar uma voz chocada foi o homem grande.
Zagan pegou o machado com as mãos nuas. Não só isso, como mesmo quando o homem pressionou para baixo, o machado não se moveu um centímetro.
— Desafiar um feiticeiro com força bruta é realmente ridículo, não é?
Falando em feiticeiros, para a maioria das pessoas, eles provavelmente tinham a impressão de ser um indivíduo pouco atlético que se isolava em um laboratório sombrio, cercado por uma grande quantidade de livros.
Entretanto, com o poder da feitiçaria, podiam invocar raios, manipular o fogo e criar escudos invisíveis. Enquanto fossem mortais, esse poder onipotente seria usado primeiro para se proteger.
Os feiticeiros tinham uma pele tão resistente que uma lâmina comum não causaria um único ferimento, pés tão rápidos que podiam até alcançar um cavalo veloz, braços capazes de rasgar com facilidade ferro com as próprias mãos e um coração que não se cansava mesmo depois de lutar por um dia e uma noite inteiros.
Conforme os feiticeiros envelheciam, adquiriam habilidades cada vez mais sobre-humanas que pareciam saídas direto das lendas. Ainda que fosse um Cavaleiro Angelical que dedicasse incontáveis horas ao treinamento, o corpo de uma pessoa comum não poderia cruzar espadas com aqueles monstros.
Essa era a existência conhecida como feiticeiros.
Zagan concentrou sua força na mão em uma tentativa de contra-atacar. Um estalo percorreu o machado de aço, e os olhos do homem se arregalaram.
— I-Impossível... — com um estrondo, o machado se estilhaçou como vidro, e a voz confusa do homem escapou.
O homem caiu de joelhos, abatido, e Zagan deu uma leve batida em sua testa com o dedo, como se estivesse espantando uma mosca.
— FUGYAH! — soltando um grunhido, o homem foi arremessado de volta para a carruagem. Um bandido azarado que estava por perto acabou preso embaixo dele.
— Eeek, o chefe!
Parecia que o bandido azarado era o líder. Com o chefe esmagado, os outros bandidos se esconderam na sombra da carruagem, alguns até correndo para o mato ao redor.
— Geh, so-socorro... Senhor Feiticeiro! Nos ajude!
Embora fosse uma voz implorando por ajuda, não eram palavras dirigidas a Zagan.
Não estava claro onde esteve escondido antes, mas um homem de repente se colocou no caminho de Zagan, aparentemente tranquilo.
Um feiticeiro.
Parecia que esses bandidos haviam contratado um feiticeiro.
— Hmmm... Um feiticeiro que salva pessoas? Que estranho. — enquanto o feiticeiro acariciava o queixo, perplexo, ergueu a outra mão. — Porém, isto também é um contrato. Não sei quem você é, mas garanto que se arrependerá de ter aparecido diante de mim.
No instante em que um pequeno círculo mágico pareceu se formar na palma da mão daquele homem, chamas irromperam.
Eram tão quentes que davam para sufocar. A grama ao redor queimou, e até mesmo os bandidos que estavam escondidos ali foram cobertos pelas chamas enquanto soltavam gritos.
Observando com atenção os movimentos do feiticeiro e das chamas, Zagan murmurou para si mesmo.
— Entendo... Usando as chamas como meio, está desenhando outro círculo mágico, hein?
As chamas não estavam apenas se espalhando sem uma trajetória definida. Elas se moviam como se estivessem desenhando um círculo com o feiticeiro no centro. Aquilo não era um ataque, e sim uma forma de contenção empregada enquanto formava um círculo mágico.
Envolvendo a carruagem e Zagan, um enorme círculo mágico se estendeu. Parecia que ele considerava Zagan um adversário formidável e pretendia usar feitiçaria em grande escala.
Bem, também não tenho nenhum motivo para ficar sentado esperando.
Uma língua de chamas se fechou diante de seus olhos. Nephy engolia em seco atrás, contudo era Zagan quem estava na sua frente.
Zagan balançou o braço para o lado como se fosse apenas irritante.
As chamas desapareceram como se dissolvessem, e até mesmo os arbustos em e a carruagem em chamas foram extintos. Tudo o que restava era a luz do círculo mágico a seus pés.
Ainda assim, o feiticeiro estendeu o braço e gritou.
— Você é muito bom. No entanto está um passo atrasado! Vire cinzas!
O círculo mágico brilhou, e então...
Nada aconteceu.
— O quê...?
O círculo mágico seguia brilhando.
Todavia, não pertencia mais ao feiticeiro.
Zagan soltou um suspiro ostensivo.
— Depois de criar um círculo mágico tão grande, não vai usar nem um pingo de feitiçaria?
Quando Zagan se livrou das chamas, ele saqueou a hegemonia do círculo mágico do outro feiticeiro.
Foi o mesmo que Barbatos fez quando se teletransportou para a barreira de Zagan outro dia.
— Lixo... Se refere a tolos como você.
Depois de erguer o dedo indicador, Zagan o abaixou e desenhou uma linha vertical.
Uma luz magnífica irrompeu do círculo mágico.
— Gah!
Incessantes lanças de luz choveram do céu.
Era um único raio convergente. Não era nada sofisticado, todavia quando Zagan o disparou, tinha poder destrutivo suficiente para pulverizar a muralha de um castelo.
Quanto ao feiticeiro que recebeu o raio de frente, foi apagado sem deixar um único vestígio.
Só que o mais aterrador no seu feito era o fato de a carruagem e seus passageiros ao redor não terem sofrido nenhum dano.
O feiticeiro criou um único incêndio e até arrastou seus aliados para dentro, enquanto Zagan apagou apenas seu alvo. A diferença de habilidade ficou evidente ali.
Zagan então se aproximou da carruagem em um ritmo tranquilo. Ainda havia bandidos lá.
— O que foi? Venham me pegar. Se vocês estão dispostos a roubar, então também não se importam de serem roubados, certo?
— E-Eeek, o que acha que está fazendo contra pessoas indefesas?
“Não quero ouvir essa merda de vocês” teria sido uma resposta apropriada naquele momento.
O líder dos bandidos finalmente escapou de baixo do grandalhão e recuou, segurando o traseiro.
— Quem sabe? Não é só porque vocês são um estorvo? Também estão fazendo a exata mesma coisa, não é?
— HIGYAAAAAAAAAH! — soltando um grito, o bandido desapareceu enquanto arregalava os olhos de medo...
Zagan achou que havia um cheiro desagradável no ar, e descobriu que o bandido havia se cagado nas calças.
Os outros bandidos também se renderam e jogaram suas armas no chão ao verem o estado do líder.
Certificando-se de que não havia mais ninguém para enfrentá-lo, Zagan se virou para encarar Nephy.
Ele pretendia abrir um caminho seguro, mas Nephy estava paralisada, com os olhos arregalados.
Hm? Será que cometi algum erro? Zagan começou a suar frio, porém pigarreou e tentou explicar tentando manter a compostura ao elucidar os fatos como os via.
— Está me ouvindo, Nephy? Como viu, bandidos são apenas lixo, inofensivos tanto para homens quanto para animais. Eles não têm a menor chance de lhe causar dano, e se forem um incômodo, depois de serem um pouquinho ameaçados, tornam-se dóceis.
— Contudo eles atacaram uma carruagem, então são mesmo inofensivos...?
— Erk...
Ter Nephy lhe apontando o óbvio foi doloroso, especialmente porque ainda tinha aquela expressão vazia no rosto.
Essa garota... Quando está atordoada, consegue responder com rispidez, hein...?
Zagan ficou surpreso, apesar de perceber esse detalhe também foi uma descoberta feliz aos seus olhos.
No entanto, ao verem os dois, alguém cuspiu palavras como se não aguentasse mais. E como se explodisse, uma voz estrondosa irrompeu.
— Isto foi incrível, Sr. Feiticeiro!
Junto com essa voz, os passageiros se reuniram ao redor de Zagan.
— Ei, você é aquele passageiro que não embarcou antes, certo?
— Obrigado, você nos salvou.
— Há pessoas boas até entre os feiticeiros, hein?
Sendo cercado assim por todos os lados e elogiado, os olhos de Zagan se perderam em meio à multidão em volta.
Esta não era a primeira vez que ele chutava bandidos. Também já havia salvado pessoas por acaso antes, entretanto esta era a primeira vez que ouvia palavras de gratidão.
E quem estava sendo espremido no círculo não era apenas Zagan.
— Ei, você é a acompanhante do Sr. Feiticeiro?
— Que criança linda.
— Ele é um bom mestre, hein?
— Hm...
Nephy também estava sendo empurrada.
E Zagan se convenceu da causa.
Talvez seja porque Nephy está comigo, não é? Com certeza, se estivesse sozinho, eles teriam fugido com medo, como sempre.
Não sabia dizer o que mudava apenas com a presença de Nephy, todavia parecia que ela era o principal fator que provocava sentimentos além do medo.
Até momentos atrás, Zagan estava considerando pegar todo o dinheiro e ouro dos passageiros, embora agora estava com uma sensação complexa e desconfortável.
E então, o cocheiro tirou uma pequena bolsa.
— Ei, senhor. Se não for incômodo, poderia nos acompanhar como escolta? Claro, vou te pagar pela ajuda... Mas não tenho muito dinheiro.
— C-Claro, parece ótimo.
Com a pequena bolsa enfiada em sua mão, Zagan a aceitou sem questionar. Pelo peso, percebeu que havia dezenas de moedas de ouro dentro.
Antes, aquela quantia teria sido troco para ele, mas agora estava muito grato. Era o suficiente para comprar ingredientes e roupas para Nephy.
O que está acontecendo? Ouro aparece tão fácil assim? Em outras palavras, parecia que se apenas saísse por aí eliminando vilões como bem entendesse, o dinheiro simplesmente apareceria.
Assim que começou a nutrir essa pequena esperança, teve uma revelação surpreendente. Aos olhos de uma pessoa comum, ele era o primeiro em qualquer lista de vilões.
Esse pensamento o fez achar que suas pernas iriam ceder, e enquanto Zagan se contorcia de dor, ele e Nephy foram empurrados para dentro da carruagem.
Ao se sentarem um ao lado do outro, os dois trocaram olhares.
— Mestre.
— O quê?
— Por que... Você salvou essas pessoas?
— Hã? Ah... entendi. Acabei salvando-as, né?
Tudo o que Zagan queria era mostrar a Nephy que não havia motivo para ter medo de bandidos, não tinha noção de que estava salvando os passageiros da carruagem ou algo do tipo.
Porém não seria essa uma boa chance de atrair a sua atenção? Motivos ocultos começaram a surgir dentro da mente de Zagan.
Sim, apenas precisava proferir algumas palavras motivadoras que fizessem Nephy abrir seu coração.
Enquanto rezava para que Barbatos lhe desse um conselho para aquele momento, Zagan respondeu como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Tudo o que fiz foi ensinar àqueles idiotas arrogantes qual é o seu lugar.
Por que eu sempre estrago tudo? Seria o seu amor-próprio atrapalhando? Não havia como dizer palavras doces como se estivesse protegendo Nephy, ou que não poderia abandonar os fracos ou algo assim.
E, contudo, a única coisa que saiu de sua boca foi um blefe que não valia mais do que merda de cachorro. Depois de jogar sua tão esperada chance no lixo, Zagan voltou a mergulhar em sua angústia.
Foi por isso que não percebeu que, ao contrário do esperado, Nephy o olhava com olhos cheios de interesse.
***
— Até mais, amigo. Pode vir comigo de novo quando quiser. Aliás, se for, pode subir até de graça.
Depois de conseguir uma carona na carruagem, Zagan acabou indo para Kianoides. Quando a carruagem parou, o cocheiro com cara de gato disse isso antes de partir.
Como de costume, a cidade estava barulhenta. Olhando para um lado, uma dama nobre fazia compras. Olhando para o outro, um bandido imundo vendia narcóticos. Embora fosse uma cidade caótica, tinha a vantagem de que tudo estava à disposição.
Então, para onde devemos ir?
Por enquanto, seu objetivo era reunir ingredientes, contudo o castelo não tinha nenhum dos itens de primeira necessidade de Nephy.
Para começar, do que ela precisa no dia a dia? Zagan desconhecia completamente esse ponto.
Depois de limpar a garganta com uma tosse, voltou sua atenção para Nephy.
— Escute, Nephy. Quase tudo está disponível nesta cidade. Pode escolher o que quiser.
— Mesmo que me dessem trapos, eu ficaria satisfeita.
Ao ouvir essa resposta, que não continha nenhum indício de sonhos ou esperança, Zagan sentiu vontade de chorar.
Vejamos... Mesmo amanhã, acho que essa garota não vai querer nada de repente.
No entanto, nesse caso, o que deveria comprar para ela?
Enquanto se angustiava com esses pensamentos, Zagan voltou sua atenção para as pessoas que caminhavam pela cidade.
Não era como se não houvesse nobres usando vestidos deslumbrantes, no entanto a maioria vestia roupas que permitiam relativa facilidade de movimento. Quanto aos sapatos, a maioria usava botas, sandálias ou algo semelhante, que facilitavam a locomoção.
O vestido longo, cujas bainhas pareciam ter que ser levantadas, e os sapatos de salto fino que Nephy usava pareciam difíceis de usar. Especialmente para uma ida às compras.
— Hmm. Por enquanto, vamos comprar algumas roupas?
— Roupas... Como essa?
— Sim. Essa roupa... É difícil de usar, não é?
Ontem Nephy cambaleou ao subir as escadas e hoje, ao caminhar, teve que levantar as bainhas da saia.
Piscando como se não pudesse acreditar no que estava sendo dito, apesar da surpresa não demonstrou nenhum sinal de desagrado com a situação.
Enquanto caminhava, lamentando não ter ao menos perguntado ao cocheiro onde vendiam roupas femininas, depois de um tempo, os dois conseguiram encontrar uma loja que parecia adequada.
Aparentemente, eles se especializavam em roupas para viajantes, todavia tinham conjuntos completos de equipamentos femininos expostos em suportes de madeira. Pareciam ter pelo menos algumas roupas casuais.
Assim que Zagan abriu a porta da loja, o interior foi tomado por um repentino em silêncio.
Parecia que estavam em alerta ao verem as vestes de um feiticeiro.
Uma jovem vendedora aproximou-se em seguida. Era uma aviana com asas verdes nas costas e vestia com elegância as roupas expostas na loja. Em seu peito bem torneado, havia uma plaquinha com o nome “Manuela”.
A vendedora, Manuela, dirigiu-se a Zagan com um sorriso forçado.
— B-Bem-vindo. Que tipo de roupa o senhor deseja?
Era uma atmosfera francamente hostil, mas Zagan se sentiu grato por a atendente ter vindo até ele. Então apontou para Nephy, que estava atrás.
— Gostaria que escolhesse uma roupa apropriada para esta garota.
Manuela olhou para Nephy e ficou boquiaberta.
— Nossa, que criança linda...
Parecia que até pessoas do mesmo sexo se sentiam assim. Apesar de não se tratar de si, por algum motivo, Zagan se sentiu orgulhoso.
Porém, a expressão de Manuela se fechou no instante seguinte. E seu olhar se voltou para a coleira.
Como pensei, devo tirar essa coleira, não é?
Se ela recebesse olhares tão estranhos só por estar em uma loja, não conseguiria andar na rua. Zagan não se importava com o que lhe disseram sobre a possibilidade de fuga caso tirasse a coleira.
Sua real intenção era salvar Nephy. Claro, tinha um motivo oculto, já que estava apaixonado por ela, contudo não havia significado algum, mesmo que a coleira significasse que lhe pertencia. Com ela, com toda certeza, sempre o olharia como um feiticeiro, da mesma maneira, com aquele rosto assustado.
Nephy foi conduzida pela balconista para o interior da loja e desapareceu.
Zagan não sabia bem onde olhar, então, por enquanto, saiu da entrada e ficou encostado em uma parede.
E, no momento que o fez, Manuela retornou.
— Que tal esse estilo?
— Hm... Hã, o quê?
Olhando para Nephy enquanto ela saía do interior da loja, Zagan arregalou os olhos.
Sobre o corpo nu, Nephy usava apenas cintos de couro enrolados em volta do corpo.
Tinha mais ou menos a forma de uma roupa, ou assim parecia. Seus mamilos e virilha estavam perfeitamente escondidos. No entanto, todo o resto estava à mostra, e seus seios fartos não estavam sendo escondidos de forma alguma.
Ele achou que até a coleira parecia se integrar ao conjunto de uma maneira um tanto artística, todavia não era como se tivesse feito esse tipo de pedido. Se houvesse algum atendente ou cliente homem por perto, teria que sair arrancando seus olhos.
Nephy estava vermelha da cabeça aos pés, até as pontas de suas orelhas brancas, e se contorcia tentando esconder o corpo.
Era uma reação que não tinha visto nem mesmo quando ela calmamente levantou a saia na noite anterior.
Até mesmo alguém que quisesse morrer não suportaria a vergonha. Nesse sentido, ao menos tinha alguma vontade de viver, e isso deixou Zagan um pouco feliz, porém agora não era hora para isso.
Cabelos brancos escondiam o corpo trêmulo da garota.
— H-Hmm, por favor... Não olhe...
Enquanto Zagan voltava a si com a voz vacilante de Nephy, por algum motivo, Manuela estufou o peito, orgulhosa.
— E aí? Acho que é a combinação perfeita, se me permite dizer.
— Como é perfeito? Só disse para escolher roupas apropriadas, então como acabou desse jeito?
— Hã...? Eu queria combinar com o seu gosto...
O que exatamente estava pensando dele?
Bem, sou um feiticeiro maligno andando por aí com uma garota bonitinha de coleira, afinal...
O título de feiticeiro era quase um sinônimo de maldade. Pensando agora, a reação da atendente pareceu razoável.
Não, ainda que seja o caso, esse tipo de roupa segue estando fora de questão.
Coçando a cabeça, Zagan se pronunciou.
— Quero roupas casuais, para o dia a dia.
— Eeeh... Mesmo tendo um material tão bom para trabalhar?
Enquanto a vendedora fazia uma nítida expressão de insatisfação, levou Nephy para o fundo da loja outra vez.
— Espere, deixe o que está segurando aí para trás.
Incorrigivelmente, Manuela estava segurando uma peça de roupa lasciva que parecia ser roupa íntima.
Ao perceber aquilo, até Nephy começou a lacrimejar.
Depois de Zagan lançar um olhar fulminante, como era de se esperar, a vendedora levantou as duas mãos e desistiu.
— C-Certo. Estou só brincando, tá bom?
Não parecia nenhuma brincadeira, e Zagan a encarou com desconfiança. Depois que a vendedora largou a peça de roupa, Nephy colocou as mãos no peito como se estivesse aliviada do fundo do coração.
Logo depois de trocar de roupa pela segunda vez, Nephy voltou.
— E aí, como ficou?
— Hoo... — desta vez, Zagan soltou um suspiro sincero de admiração. Ela usava um vestido azul brilhante com um avental por cima, decorado com renda vistosa, e botas que pareciam confortáveis para caminhar protegiam seus pés.
Eram roupas de criada, contudo ele honestamente achou sua aparência adorável.
Manuela então começou a explicar de um jeito meio desanimado.
— É um uniforme de criada ortodoxo, no entanto o vestido e o avental são de seda, então pode até ser usado como uniforme de dama de companhia. As botas também têm propriedades curativas, então reduzem a fadiga de qualquer trabalho feito em pé.
Não pareciam ruins e também pareciam bastante funcionais.
Olhando para elas mais uma vez, Zagan achou que eram peças de boa qualidade.
— E então, Nephy?
— Se é algo que o senhor está me dando, Mestre, então irei usá-las.
— Olha, se continuar dizendo esse tipo de coisa, vou te fazer usar aquelas roupas de antes de novo.
Os olhos da atendente ao lado brilharam de forma duvidosa, e puxou as roupas feitas de cintos de couro mais uma vez.
Nisso, Nephy se apressou em balançar a cabeça, confusa. Zagan sentiu que era a primeira vez que via uma reação sua tão engraçada.
— A-Acho que esta está boa, Mestre!
— Entendo. Então esta serve.
Manuela estalou a língua. Ela era uma atendente com péssimos modos.
Depois de pagar a conta, a atendente sussurrou algo no ouvido de Nephy.
(Ainda bem que seu mestre gosta tanto de você.)
Zagan não conseguiu ouvir nada do que foi dito, todavia os olhos de Nephy se arregalaram de repente.
E depois, após hesitar um instante, assentiu com uma expressão séria.
— Sim.
Seu semblante parecia de alguma forma feliz.
Saindo da loja, Zagan então perguntou a respeito.
— O que a atendente te disse?
— Oh... Que tenho um bom Mestre.
— Sério?
Provavelmente era só da boca para fora, mas não conseguia entender o significado de se dar ao trabalho de dizer aquilo.
Ao lado de Zagan, que agora inclinava a cabeça, Nephy escovava com delicadeza suas roupas novas, como se estivesse satisfeita com elas.
(Será que... Estou sendo valorizada...?) Aquela voz trêmula, que não sabia se podia realmente acreditar nisso, não chegou aos ouvidos de ninguém, desaparecendo ao vento.
***
Certo, para onde vamos agora?
Depois de trocar de roupa, Nephy parecia conseguir andar com muito mais facilidade. Agora não deveria haver nenhum problema em passear por aí.
Enquanto pensava, Zagan sentiu algo o puxando para trás. Ao se virar, viu que Nephy segurava um tanto sem jeito a barra de seu robe.
A pessoa em questão parecia alheia ao gesto e inclinou a cabeça para o lado, sem expressão.
Entendo... Depois de ser provocada pela atendente, pode ter ficado com medo.
Comparar a sua figura sombria de ontem com a sua aparência encantadora de hoje fez Zagan se sentir feliz.
Ele seguiu caminhando mais devagar, tomando cuidado para não soltar a mão dela, mas também tentando garantir que Nephy não percebesse o que estava fazendo. E enquanto caminhavam, ouviram o som estrondoso de metal batendo.
Olhando para a origem do ruído, parecia haver uma ferraria por perto. Ao lado de espadas e armaduras usadas por Cavaleiros Angelicais e soldados, havia uma montanha de bugigangas de metal empilhadas.
E dentro dessa montanha, também havia coleiras de escravos.
— Vamos entrar naquela loja.
— Sim.
Enquanto Zagan caminhava em direção à ferraria, Nephy o seguiu.
O interior parecia uma oficina antiga qualquer. As paredes estavam repletas de mercadorias enfileiradas em prateleiras, e mais ao fundo, vários homens trabalhavam com metal aquecido.
Ao chamar os homens, um deles se levantou de um salto, obviamente assustado.
Porém, essa reação era natural quando um feiticeiro chamava de repente.
Com uma expressão de puro terror, o homem se virou para Zagan.
— P-Posso ajudar?
— Olha, tem uma coisa sobre a qual gostaria da sua opinião. Quem se aproximou era um anão. Não tinha barba, e por isso era difícil determinar sua idade. Parecia ser um jovem, contudo também poderia ser de meia-idade.
Os anões eram ágeis com as mãos e dizia-se que se orgulhavam de sua habilidade com ornamentos e engenhocas delicadas.
Zagan então colocou Nephy na sua frente.
— Quero que de uma olhada na coleira desta garota... Sabe como removê-la?
O corpo de Nephy estremeceu com um espasmo.
E então, olhou para Zagan como se não pudesse acreditar.
Hm? Agora que penso nisso, comentei com Nephy que tiraria a sua coleira? Ele sentiu como se nunca tivesse dito nada.
Ainda que não pudesse ser removida de imediato, se soubesse que estava determinado a fazê-lo, talvez ficasse mais tranquila, então Zagan ficou desanimado com o baixo nível de suas habilidades de conversação.
Nervosa, Nephy abriu a boca para falar.
— Hmm, Mestre...
— Se você continuar usando essa coleira, será propriedade de Marchosias para sempre, certo? Não precisa dessa coisa.
Tendo se referido a Nephy como um objeto mais uma vez, Zagan cobriu o rosto.
E, no entanto, as bochechas de Nephy ficaram levemente tingidas enquanto assentia.
— Sim.
— Bom.
Ele não sabia o que havia de bom nisso, contudo Zagan precisou de todo o seu esforço apenas para proferir essa resposta.
Depois de sua troca, o ferreiro anão elevou a voz, preocupado.
— Remover isso aqui, certo? Quer dizer esta coleira?
— Sim.
— Por favor, poupe-me das piadas. Isto não é um aparato de feitiçaria? Nossas mãos não conseguem lidar com algo assim.
O ombro de Nephy caiu levemente, entretanto Zagan já estava ciente desse fato.
— Quero saber sobre a estrutura. É algo que pode ser removido quebrando a fechadura?
Após ouvir a pergunta, o ferreiro observou a coleira com mais atenção.
Por fim, apontou para a fechadura que prendia a coleira. A massa de metal conectada à fechadura tinha seis hastes saindo dela e parecia estar prendendo a coleira.
— Por favor, de uma olhada nesta fechadura. Esta coleira é estruturada de forma que fique fixa neste ponto. Assim que a fechadura for removida, irá se despedaçar. Bem, esse deveria ser o caso em uma coleira normal. — ao acrescentar “normal”, devia estar querendo dizer que não sabia que tipo de mecanismo era aquele que envolvia feitiçaria. Zagan respondeu com um gemido.
— Precisamente porque a feitiçaria é um poder que visa subverter as noções naturais, é feita para se parecer com o original. Para uma coleira com essa estrutura, a fechadura não deve ser apenas um enfeite, certo?
— Além do mais, é um pouco difícil te dizer, mas... — o ferreiro fez uma careta, como se estivesse hesitante em falar. Parecia que não queria que Nephy ouvisse. E depois de se afastarem, sussurrou baixinho no ouvido de Zagan.
(É provável que haja uma armadilha nisso.)
(Uma armadilha?)
(Sim. Se não for removida com os procedimentos adequados, um mecanismo será ativado... No pior dos casos, há uma probabilidade de que algo horrível aconteça com o pescoço daquela mocinha...)
Zagan nem queria pensar no que esse algo horrível implicaria.
Talvez fosse por esse motivo que o ferreiro também estava sendo um tanto evasivo em suas respostas.
Como suspeitei, seria perigoso removê-la à força...
Se fosse necessário apenas destruir a coleira, o poder de Zagan seria mais do que suficiente.
Todavia, havia decidido ser cauteloso, já que a coleira fora deixada por um Arquidemônio, e parecia que tinha tomado a decisão correta.
— Acho que a melhor opção seria usar a chave original para abri-la.
— Bem, aposto que sim.
Zagan já estava ciente, porém nem mesmo os anfitriões do leilão a tinham.
Quanto às pistas, bom, não é como se eu não tivesse nenhuma...
Contudo, era verdade que não havia nenhuma carta que pudesse realmente jogar por agora.
Por enquanto, Zagan descobriu tudo o que queria saber e então tirou algumas moedas de prata do bolso. Era o troco de quando comprou as roupas de Nephy.
— Agradeço. Aceite.
— Não, eu não fiz nada que justificasse ser pago. Além do mais, não tem como eu aceitar dinheiro nenhum de você.
— Hã...? O que quer dizer?
Com um sorriso amargo, o ferreiro anão disse o seguinte.
— Afinal... Fui salvo por você antes.
Zagan não se lembrava de tê-lo feito, então inclinou a cabeça para o lado.
— Já faz... Cerca de um ano. Quando nossa carruagem foi atacada, você salvou a mim e à minha filha. Na época, ficamos apavorados e fugimos, no entanto você nos ignorou sem se irritar. Por favor, de alguma forma, nos perdoe por nossa falta de modos.
Parecia que, entre os vagabundos que Zagan havia rejeitado por considerá-los um estorvo, havia um feiticeiro ou algo do tipo que atacou. E, como resultado, esse homem e sua filha acabaram sendo salvos por suas ações.
Não tinha nenhuma intenção específica de exigir gratidão, entretanto estava grato por não ter de pagar naquele momento. Tendo resolvido, guardou as moedas de prata que havia tirado no bolso.
— Bem, nesse caso, vou guardar isso. E pode esquecer esse assunto trivial. Também não me lembro de ter feito nada. — ao dizer aquilo, parecia que estava tentando disfarçar o fato de não ter entregado nenhuma moeda, todavia o ferreiro soltou uma risada estranha.
— Não vou esquecer, sabia? Se precisar de mais alguma coisa, por favor, apareça a qualquer hora.
Depois disso, Zagan e Nephy saíram da loja.
O que está acontecendo hoje? As pessoas ao seu redor eram amigáveis demais, a ponto de ser assustador. Será que trazer Nephy junto mudou as coisas drasticamente?
Zagan parecia não perceber a verdade.
Parecia não saber que ele, que sempre fazia uma cara como se tudo no mundo merecesse sua ira, agora estava com uma expressão terna.
***
Depois de passarem na ferraria, quando terminaram de fazer todas as compras de que precisavam, o sol estava começando a se pôr.
Não era tão tarde assim, mas também não seria razoável voltar ao castelo e fazer Nephy cozinhar. Então, os dois seguiram para um pequeno restaurante.
Talvez por causa do horário incomum, não havia muitos clientes. Incluindo Zagan e Nephy, havia apenas cerca de dez pessoas. O assoalho de madeira rangia enquanto os funcionários da loja caminhavam, e as vigas chegavam até o teto. As lâmpadas penduradas nas vigas iluminavam as mesas.
Zagan não entendia nada do que estava escrito no cardápio. Afinal, o próprio nome de qualquer tipo de culinária lhe era estranho. Mesmo assim, por enquanto, tentou pedir algum item que devia ser carne, algo como uma salada e um pouco de pão.
Não tinha o hábito de comer vegetais, porém não precisava imaginar o que aconteceria com a figura de Nephy se ela só comesse carne.
Enquanto esperava pela comida, Zagan notou Nephy o observando, como se tivesse algo a dizer.
— O que foi?
— Não, hum... — ela hesitou em falar, e parecendo tomar uma decisão, Nephy tocou sua gola.
— Mestre, o senhor... Pretende tirar esta coleira?
— Hm? Oh, agora que comentou, nunca falei sobre antes, né? Bem, sim, pretendo.
Como havia dito de forma indireta, não pareceu conseguir a convencer.
Sentindo-se um tanto constrangido por ela ter perguntado aquilo diretamente, Zagan respondeu de forma seca. “Claro que sim!” ou outras palavras que a tranquilizassem apenas não lhe ocorriam.
Nephy abriu a boca várias vezes, como se estivesse em conflito, no entanto não conseguia encontrar as palavras certas.
Todavia, como se estivesse interessada, a garota com aparência de criada enfim falou.
— Você não se preocupa... Que se a coleira for removida, eu fuja?
Nephy era uma elfa. Além de que tinha cabelos brancos como a neve, os quais diziam possuir quantidades imensas de mana. Se a coleira fosse removida, era provável que seria capaz de usar feitiçaria.
A própria coleira era uma prova de que estava ligada a Zagan, embora este tentasse remover a coleira.
Bem, não tem como eu não me preocupar com essa possibilidade, né?
Claro, até Zagan havia pensado nesse cenário. Havia gasto uma quantia exorbitante de dinheiro, um milhão de moedas de ouro, para comprá-la. Não havia como apenas perdê-la depois de tudo isto. Como homem e como feiticeiro, seria uma enorme perda de prestígio.
Também achava que, na realidade, acabaria assim mesmo. Afinal, ao contrário de Zagan, Nephy não tinha nenhum afeto pela sua pessoa.
Ainda que fosse esse o caso, se por exemplo ela escapasse...
Mesmo assim, quero tirar a coleira.
Zagan não tinha a menor intenção de expressar esses sentimentos em palavras.
Por isso, no fim, tudo o que saiu de sua boca foram as seguintes palavras...
— Hmph... De qualquer forma, não é algo que possa ser removido por agora. Não se apegue a esperanças vãs.
Ele estava completamente desesperado.
Sério, dizer “Mesmo assim, quero tirar a coleira” era realmente impossível para ele?
Provavelmente porque quero ficar ao lado dela. Devia ser por essa razão que disse para que não esperasse nada.
De qualquer forma, usar a palavra “vãs” era um exagero. Não havia algum grimorio do tipo “Como Manter uma Conversa com uma Garota” por aí? Nessa ocasião, Zagan desejou em seu coração que alguém lhe contasse sobre algo desse tipo, ainda que fosse falso.
E, no entanto, Nephy assentiu de uma maneira de alguma forma satisfeita.
— Sim.
Zagan sentiu como se tivesse dito algo cruel para sua amada e, mais uma vez, ficou perplexo.
Apesar do ocorrido, o tempo que passou se contorcendo de angústia desta vez terminou rapidamente.
A refeição foi trazida a eles em pouco tempo.
Era um cardápio que nunca tinha visto antes, mas era algo com que sonhara há muito tempo. Nem conseguia se lembrar da última vez que usara uma faca e um garfo, porém ao menos se lembrava de como usá-los.
Enquanto Zagan começava a cortar a carne, Nephy permaneceu imóvel, olhando distraída para a comida.
— O que foi? Você não sabe usar uma colher e um garfo?
Se não estivesse equivocado, lembrava de já ter ouvido dizer que nos países do norte usavam pedaços de madeira chamados “hashis” para comer.
Talvez os elfos que viviam no extremo norte também não usassem facas e garfos.
Era o que Zagan estava pensando enquanto perguntava, contudo Nephy balançou a cabeça negando.
— Não, não é isso...
— Então coma. Não tem como você não estar com fome, né? — ele repetiu a frase de um jeito que parecia estar a ignorando, no entanto Nephy parecia ter se acostumado com sua forma de falar. Ela apenas fez uma expressão curiosa e não estava com medo dessa vez. Na verdade, era algo que ele deveria ter percebido antes.
Como feiticeiro, Zagan era capaz de usar magia para diminuir sua fome, entretanto a mana de Nephy estava selada pela coleira. Além do mais, não parecia ter muita força física. Para começar, sequer tinha comido nada desde a manhã, além da carne seca e do leite, que nem podiam ser considerados uma refeição.
Como se confirmasse o que Zagan tinha dito, o estômago de Nephy roncou adoravelmente.
Suas orelhas pontudas ficaram levemente coradas com o ocorrido.
— Hmm, tudo bem se eu também comer?
— O quê...? Tem algum motivo para não comer?
Na verdade, será que essa escolha para o cardápio é frugal demais? Todavia, a reação dela desta vez pareceu diferente da que tivera pela manhã.
E então, Zagan de repente se lembrou das suas circunstâncias.
— Será que esta é a primeira vez que você come algo assim?
Nephy assentiu em resposta.
Ah, entendo... Nephy também passou... Por algo assim...
Zagan sentiu que finalmente compreendia por que se apaixonara por Nephy à primeira vista.
Era igual a ele.
Ela era igual a Zagan quando este não tinha poder, nenhum lugar a que pertencer e se desesperava com a dureza do mundo.
Foi por esse motivo que Zagan conseguiu lhe dar a seguinte resposta como se não fosse nada.
— Então não se preocupe mais. Também sou parecido nesse sentido. Não tem problema se você comer o que parecer bom. Aqui, neste lugar, não há ninguém para quem precise se conter.
— Mesmo assim, eu...
— Chega, coma logo. É uma lojinha pequena, mas é muito melhor do que a carne seca de hoje de manhã. — dizendo essas palavras, Zagan levou uma fatia de carne à boca, embora na verdade não conseguiu sentir o gosto.
Ela não está se sentindo mal por causa das conversas sobre a coleira, está? Aliás, como a convido para uma refeição normalmente? Enquanto essas perguntas e ansiedades giravam em sua mente, Zagan não conseguia sentir o gosto de nada.
Nephy levou a mãozinha fechada à boca. Os cantos dos seus olhos também estavam caídos, e talvez fosse imaginação de Zagan, porém essas ações pareciam indicar que estava rindo.
Depois disso, Nephy juntou as duas mãos e pegou o garfo.
— Obrigada pela refeição.
A primeira coisa que pegou com a mão foi um pequeno tomate. Tentou espetá-lo com o garfo, só que não deu muito certo e o tomate escorregou.
A expressão de Nephy não pareceu mudar em nada, contudo as pontas de suas orelhas pontudas estavam levemente tingidas de vermelho. Parecia que estava envergonhada à sua maneira.
— ...
Talvez por ter notado o olhar de Zagan, o corpo de Nephy se contraiu enquanto tremia, e desta vez pegou uma colher. Depois de recolher com cuidado o tomate, por fim o levou aos seus lábios rosados.
— Hã...?
Girando-o sobre a língua, Nephy fez uma careta curiosa.
Certamente era porque não sentia gosto de nada.
Não tem gosto se você apenas lamber... Morda! Zagan não estava confiante o suficiente para lhe dar o conselho gentil que desejava. E, acima de tudo, a própria Nephy ficaria envergonhada se ele tentasse.
Enquanto a observava e a incentivava em seu coração, Nephy enfim cravou os dentes no tomate.
Com o som de algo suculento sendo esmagado, os olhos de Nephy se arregalaram.
— C-Como está...?
Incapaz de responder, depois de mover a boca em silêncio por um instante, Nephy acenou. Com esse movimento, seus cabelos brancos como a neve deslizaram pelo seu peito.
— Eu acho... Delicioso.
Dito isso, talvez achando suas palavras insuficientes, ela balançou a cabeça.
— É a primeira vez... Que como... Isso.
Agora que pensava a respeito, quando Nephy disse que cozinharia, também disse que “aprendeu observando”. Talvez não estivesse em um ambiente onde pudesse comer uma comida decente.
Um ambiente assim era lamentável, contudo, ao contrário, o rosto de Zagan pareceu relaxar devido à afinidade que sentia.
— Gostou?
— Não... Sei bem. — respondendo à pergunta, pegou outro tomate com a colher. — Pensei... Que seria algum tipo de doce. No entanto... Comer algo tão suculento assim... É a primeira vez para mim.
Bem, acho que o tomatinho de fato parece um docinho.
Zagan também já tinha roubado um tomate de uma loja pensando que era doce e se decepcionado com o gosto azedo ao prová-lo. Logo depois, foi pego e ainda apanhou.
Entendo. É uma garota, afinal, então suponho que goste de doces.
Zagan sentiu que essa foi a primeira vez que descobriu o que poderia ser chamado dos gostos de Nephy. Ele pensou em pedir algum tipo de sobremesa doce mais tarde.
Enquanto pensava nessas coisas, Zagan também estendeu o garfo em direção a um tomate.
— Urgh...
Todavia, assim como com Nephy, o garfo escapou.
Tentou duas, três vezes, mas, como esperado, não conseguiu espetá-lo direito. Zagan também não tinha o costume de usar garfo, então sua dificuldade fazia sentido.
Assim que se resignou e pensou em usar a colher... Nephy pegou o tomate com a colher. Em seguida, apresentou a colher a Zagan.
— Por favor.
— O que... É... Isso...?
Os olhos de Zagan se arregalaram.
Ela... Vai me dar de comer...? Zagan tentou se lembrar por que a cena parecia tão familiar. Tinha certeza de já ter visto aquilo antes.
Um homem e uma mulher que pareciam próximos usavam uma colher para alimentar um ao outro com um doce... Embora, neste caso, fosse um tomate.
Naquele momento, um sentimento de ódio cresceu dentro dele, um sentimento que nem conseguia explicar direito, porém sabia que não nutria nenhum sentimento específico em relação à ação em si. Ainda assim, pensar que chegaria o dia em que se depararia na mesma situação.
Sua expressão estava calma, contudo as pontas das orelhas de Nephy estavam vermelhas. Depois de observá-la por mais um tempo, notou que suas bochechas também começaram a corar de leve.
Espere, essa não é a colher que Nephy colocou na boca? Estava dizendo que podia colocá-la na própria boca?
Zagan aproximou a boca da colher, a tensão quase o dominando. Finalmente, o tomate caiu em sua língua.
Ao mordê-lo, gotas com um gosto ácido escorreram.
— Tem um gosto bom, né?
— Sim.
Depois de vê-lo comer, Nephy o interpelou em voz baixa, como se estivesse sussurrando.
— Mestre, o senhor não vai me dar nenhuma ordem?
— S-Sim.
Antes, sequer sabia o que dizer. Ainda que pensasse em lhe dar alguma função, não tinha ideia do que fazê-la fazer.
Mantendo a mesma expressão, Nephy assentiu como se estivesse confirmando algo.
— Mestre, poderia me perdoar... Por pensar que quero lhe ser útil?
Esse foi o primeiro momento em que Nephy expressou seu desejo em palavras por vontade própria.
Contudo, o fato de tê-lo expressado de forma tão misteriosa não dava a impressão de que estava tentando bajulá-lo.
Certamente, estava numa posição em que hesitava até mesmo em nutrir qualquer tipo de aspiração.
E, no entanto, não se trata dela... Está perguntando sobre mim, de verdade? Pela primeira vez, Zagan conseguiu responder honestamente.
— Permitirei. Nephy, pode fazer o que desejar.
No fim, só conseguiu falar num tom arrogante.
Apesar da forma como soou, Nephy assentiu com uma expressão séria.
— Sim. Darei o meu máximo.
Foi uma resposta bastante formal, todavia Zagan ficou satisfeito por ela estar demonstrando sua própria vontade.
— M-Muito bem. Nesse caso, deixarei com você.
Enquanto estendia o garfo para outro tomate, numa tentativa de disfarçar o constrangimento, acabou espetando-o.
Zagan estava prestes a levá-lo à boca, mas interrompeu seus pensamentos e o colocou diante de Nephy.
— Hã...? — como se não entendesse o significado de suas ações, Nephy inclinou a cabeça para o lado.
Ela mesma não tinha acabado de fazer isso?
Talvez, por acaso, tivesse feito sem perceber? Apesar disso, parecia bastante envergonhada.
Ainda assim, tudo aquilo era bastante constrangedor para Zagan. Manter tal postura por muito tempo era difícil, mesmo usando o poder da feitiçaria.
— Você gostou, não é? Então pode ficar.
Depois que ele disse isso, Nephy enfim pareceu perceber que lhe estava retribuindo o que havia feito.
Não apenas suas orelhas, como até mesmo suas bochechas ficaram tingidas de vermelho enquanto seu tímido rosto abria a boca.
Com os lábios rosados entreabertos, ele vislumbrou seus dentes perolados e brilhantes, e a língua que se estendia dali lhe parecia estranhamente sedutora. Enquanto ela soltava um gemido, como se estivesse ofegante, o tomate caiu nas profundezas além de seus lábios.
Ao retirar o garfo, algumas gotas escorreram, percorrendo sua mandíbula.
Como se não conseguisse suportar a vergonha, Nephy cobriu o rosto.
De alguma forma, parecia que estava provocando-a, porém em vez de sentir remorso, Zagan queria ver mais vê-la de suas reações.
— E aí, gostou?
Ao tentar perguntar, Nephy olhou por entre os dedos com uma expressão excessivamente séria e assentiu.
— Está... Delicioso.
— Que bom, né?
Zagan não conseguia se livrar da sensação de que a havia magoado de alguma forma. E aquela pequena troca de palavras foi observada por todas as pessoas dentro da loja. Ao finalmente perceberem que estavam sendo observados, os dois acabaram saindo da loja sem jeito.
Depois de tudo, a dupla desastrada se acalmou com a percepção mútua de que eram mestre e serva por enquanto.
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