Primeira Temporada — Capítulo 16: Aracnofobia
Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Dezesseis: Aracnofobia
JONATHAN SIMS
Depoimento de Carlos Vittery referente à sua aracnofobia e suas manifestações. Depoimento original prestado em 9 de abril de 2015. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.
Início do depoimento.
JONATHAN SIMS (Depoimento)
Eu odeio aranhas. Eu sei, eu sei, todo mundo odeia aranhas. Sempre que há uma lista dos maiores medos, elas estão lá em cima, e franquias inteiras de terror foram construídas com base na premissa de que as pessoas odeiam aranhas. Mas não como eu. Não assim. Não é a visão de uma aranha que me incomoda, nem as patas, nem os olhos, nem mesmo as teias que deixam para trás com apenas o cadáver drenado de suas vítimas insetos dentro. É a presença de uma aranha. A consciência de que está ali, em algum lugar próximo, esperando para rastejar em você, e todo o aviso que recebe é aquele leve arrepio das patas enquanto sobe em você.
Não estou me explicando muito bem. Deixe-me tentar reformular: posso assistir a inúmeros filmes sobre elas. Documentário ou terror, não importa. Posso ler livros a respeito. Posso passar o dia inteiro olhando fotos em close de seus rostos estranhos de aranha, e mal sinto um arrepio. Porém tive que me mudar da minha última casa depois de descobrir quantas aranhas faziam do meu jardim um lar. Um dia, saí com a intenção de fumar um cigarro, me sentei nos móveis de jardim enferrujados que já estavam lá e olhei para cima. Lá estava... Esticada entre dois grandes galhos, silhuetada contra o céu. Objetivamente falando, a coisa era minúscula, não devia ter mais de um centímetro e meio de uma pata à outra, contudo lá em cima, suspensa bem acima de mim, seu corpo preto contra o céu cinza-ardósia, me encheu de um pavor nauseante. Dei um pulo e comecei a voltar para dentro, no entanto enquanto o fazia, meus olhos tomados pelo frenesi percorreram o resto do jardim, e onde quer que parassem, via mais aranhas à espreita, mais teias. Havia dezenas que conseguia ver, o que significava que devia haver centenas mais que não conseguia.
Não havia como continuar morando lá depois daquilo. Como poderia dormir sabendo quantas criaturas rastejantes e horríveis se moviam, se contorciam e teciam sua imundície a apenas uma parede de distância? Não sou tolo; sei que todos os jardins têm aranhas. Cada um deles está repleto delas, aninhadas em qualquer fresta ou esconderijo que encontrem. Todavia agora eu sabia. Tinha as visto em suas multidões esguias e não conseguia esquecer quantas estavam ali. E não conseguia parar de pensar em quando o inverno chegaria e como tentariam encontrar um jeito de entrar no calor da minha casa. Então tive que me mudar.
Alugar um imóvel em Londres é uma tarefa árdua, o que pode ser um problema se procura o lugar perfeito para morar. Entretanto se só precisa se mudar para um lugar o mais longe possível de um jardim e não se importar muito, a solução é bem rápida. Encontrei um lugar na Boothby Road, em Archway. Enquanto a vizinha Elthorne Road era repleta de casas e jardins... Sem dúvida infestados de aranhas, meu prédio era cercado por calçadas e vagas de estacionamento de concreto, e a única vegetação eram algumas jardineiras que os outros moradores cultivavam. O lugar era antigo, mas estava limpo o suficiente para que não precisasse me preocupar com teias escondidas, e os cômodos, embora pequenos, eram abertos o suficiente para que pudesse ficar de olho em todos os cantos. Estava morando no segundo andar, então qualquer intruso de oito patas teria que subir bastante para chegar lá; apesar de que tenho plena consciência da distância que uma aranha consegue lançar sua teia quando quer chegar a algum lugar. O prédio também aceitava animais de estimação, então adotei um gato. Ouvi de um amigo que tinha um casal deles que os gatos têm o hábito de pegar aranhas e comê-las... Lenta e tortuosamente. Aquilo me pareceu ótimo, então investi em um gato malhado mais velho, de um abrigo local, chamado Major Tom.
Sei que tudo isso é muita informação supérflua, porém precisa entender até onde fui; o quão pouco tolero uma aranha vivendo na minha presença, para compreender o quão antinatural era, o que aconteceu comigo. O que ainda está acontecendo comigo.
Vi uma aranha há uns três meses. Nada incomum. Certamente não tão incomum quanto gostaria... Mesmo com todas as minhas precauções, elas ainda conseguem entrar na minha casa uma vez por mês, mais ou menos. Meu procedimento normal é sair correndo do cômodo em seguida e deixar o Major Tom lá dentro para lidar com ela, voltando depois de algumas horas. Em todos os casos anteriores funcionou bem... Acredito que o Major Tom comeu a maioria, e aquelas aranhas que fugiram de volta para as sombras, bem, consigo me convencer de que também sofreram esse destino. Pode ser que meu companheiro felino cinza nunca tenha na verdade comido nenhuma, contudo era um placebo tão bom que tal pensamento não me preocupava tanto quanto poderia.
Lembro-me de que naquele mês havia algumas. Nosso prédio havia adquirido uma espécie de infestação de algum tipo de inseto que não reconheci... Pequenos vermes prateados, quase como larvas, no entanto um pouco mais compridos, e presumo que eles forneciam uma boa refeição para os monstrinhos de oito patas.
Esta aranha era diferente. Senti isso no momento em que pus os olhos nela, parada no meio da parede da cozinha, exibindo-se ousadamente, como se quisesse ser o mais visível possível. Senti aquele medo familiar e avassalador, como se o chão tivesse sumido e mil patas minúsculas estivessem rastejando por cada centímetro da minha pele. Todavia havia algo mais ali. Estava consciente desta aranha de uma maneira que nunca havia estado de outras que a precederam. Não era a maior, talvez uns dois centímetros e meio de largura, entretanto seu abdômen estava grotescamente inchado. Conseguia sentir cada um de seus olhos negros como o vazio focados em mim, ver cada pelo em seu corpo gordo e bulboso e sentir o cheiro do veneno que sabia que pingava de suas presas. Odeio aranhas, como já disse, mas teria jurado que esta me odiava também.
Nada disso foi suficiente para me fazer pensar duas vezes antes de empurrar o Major Tom em direção à coisa com o meu pé e fugir do cômodo. Fui até a sala de estar e fechei a porta atrás de mim, deixando o gato e a aranha para lidarem um com o outro. Sentei-me lá, assistindo à TV, uma reprise de algum programa, tentando não pensar na coisa na parede da minha cozinha. Uma hora se passou, depois duas, e enfim senti que tinha estabilidade mental suficiente para abrir a porta e confirmar que a maldita aranha tinha ido embora.
No momento em que abri a porta, senti algo peludo roçar na minha perna. Engolindo um súbito momento de pânico, olhei e, com certeza, lá estava o Major Tom, saindo correndo do cômodo. Ele não parecia ferido ou chateado, então presumi que seu trabalho estava feito. Então me virei para a minha cozinha e congelei. A aranha estava sentada naquele mesmo lugar. Não tinha sido comida, não tinha fugido, pelo que podia ver, nem sequer tinha se mexido! A única maneira de ter certeza de que a coisa era real e estava viva era que eu juro que podia ver suas mandíbulas se contraindo de antecipação. Fiquei ali parado, incapaz de reunir forças para fechar a porta da cozinha ou entrar, e amaldiçoei o Major Tom por ser um saco de pelos inútil.
Passou-se mais uma hora antes que por fim conseguisse me mover. Durante todo esse tempo, fiquei imóvel na porta, observando a aranha gorda que desfilava na minha parede. Ainda assim, ela permaneceu no mesmo lugar, e não pude deixar de sentir que estava me desafiando a fazer algo, a tomar uma atitude, a matá-la. Comecei a me mover. Devagar, muito devagar, fui me aproximando, estendendo a mão por cima da mesa e pegando a caneca de café meio vazia, agora fria há muito tempo. Apertei a alça com tanta força que tive certeza de que quebraria entre meus dedos. Finalmente, parei diante da aranha, preparando-me para esmagá-la contra a parede. Então, sem aviso, ela se moveu e arremessei a caneca contra a parede com toda a minha força.
Acertou a aranha em cheio e explodiu em uma chuva de café e cacos de porcelana. Fiquei ali parado por um minuto, respirando com dificuldade, mas tudo o que restou foi uma grande mancha na parede e cacos de caneca espalhados pelo chão. Eu deveria ter limpado imediatamente, porém estava tão cansado, como se matar a aranha tivesse consumido cada grama de vigília que eu tinha. Apenas me virei e fui para a cama. Meus sonhos naquela noite tiveram muitas pernas, contudo não há nada de incomum nisso.
Passei a manhã seguinte limpando os destroços da minha batalha com a aranha. Gostaria de ter limpado o café antes que secasse, no entanto na hora do almoço o lugar estava quase como antes. Enquanto varria a caneca quebrada, notei que o maior caco, com o desenho de uma coruja azul estilizada, tinha uma mancha vívida. Marrom, vermelho e verde estavam esmagados nele onde havia atingido a aranha. Senti nojo, olhando para aquilo, não pude deixar de sentir uma pequena onda de triunfo, e sorri enquanto o jogava no saco de lixo. Major Tom observava, impassível como sempre.
Os dias seguintes transcorreram sem incidentes. Major Tom nunca foi muito de ficar dentro de casa, então instalei uma portinha para gatos algum tempo antes para permitir que entrasse e saísse como quisesse. Depois daquele primeiro encontro, ele pareceu passar mais tempo do lado de fora, e o vi cada vez menos conforme a semana avançava. Não dei muita importância a isso; tínhamos tido um Natal bastante ameno, então fazia sentido que estivesse aproveitando o ar livre o máximo possível antes que o inverno chegasse de verdade.
Foi na sexta-feira seguinte ao meu primeiro encontro que aconteceu. Cheguei do trabalho, cansado depois de uma semana difícil... Trabalhava como analista de dados em uma empresa de apostas online, e decidi pedir comida para viagem e relaxar em frente à TV. Recostei-me na minha poltrona e peguei o controle remoto. Percebi que o Major Tom não estava em lugar nenhum, o que era estranho, já que costumava ser alimentado logo depois da minha chegada em casa e nunca perdia uma refeição. Ainda assim, não dei muita atenção e liguei a televisão. Não tinha ligado o receptor de satélite, então o que apareceu a princípio foi uma tela azul vazia. Peguei o outro controle remoto para ligá-lo, quando percebi que a tela azul não estava vazia. Lá, em cima dela, preta contra o fundo brilhante, estava uma aranha. E não era qualquer aranha... Juro para você, e aqui é onde me expulsa do seu institutozinho como um lunático que só te fez perder tempo, mas juro que era a mesma maldita aranha.
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| Arte por kazoosnow. |
Era do mesmo tamanho, da mesma forma, com o mesmo abdômen grosso e pulsante. Entretanto, mais do que isso, eu senti. Senti naquele medo que me atingiu como um soco no estômago, e senti na maneira como a coisa apenas ficava ali, imóvel, esperando que a matasse outra vez. Fiquei preso à minha cadeira, apenas observando aquela aranha parada na tela da minha televisão. Chamei o Major Tom, porém não houve resposta.
Deus sabe quanto tempo fiquei sentado encarando a aranha na minha televisão. Não uso relógio e não conseguia mover o braço para checar meu celular. Se não estivesse sentado, já teria corrido, contudo levantar era um movimento que não conseguia me obrigar a fazer enquanto ela me observava.
Por fim, consegui me levantar. Foi menos esforço do que esperava quando enfim reuni forças para fazê-lo. Embora não tenha sido bem assim que me senti na hora... Naquele momento, pareceu quase involuntário, como se algo estivesse me levantando, me erguendo por meio de fios invisíveis. Comecei a andar, contudo em vez de fugir da aranha que encontrei, me movi em sua direção, até parar ali, tão perto que poderia tê-la tocado, embora minha mente se assuste com o pensamento. Antes que percebesse o que estava fazendo, levantei a perna e chutei a televisão, esmagando a aranha bulbosa sob o calcanhar do meu sapato, e agora que penso nisso, por pouco não levei um choque elétrico feio. Não tinha a menor ideia de que era capaz de tal coisa, no entanto mais uma vez a aranha estava morta e tinha uma mancha viscosa no sapato.
Joguei fora os restos quebrados da televisão, queimei o sapato e tentei, quase desesperado, voltar a algo próximo da minha rotina normal, só que não adiantou. A aranha que havia matado tinha voltado, disso eu não tinha dúvida, e uma profunda paranoia começou a me invadir enquanto esperava que retornasse. Vi o Major Tom apenas uma vez nas semanas seguintes. Ele entrou, cheirou a tigela de comida que continuei a colocar na vã esperança de atraí-lo de volta, e se virou para sair. Ao sair, me lançou um olhar que juraria ser de pena.
Liguei para o meu trabalho dizendo que estava doente, pois não estava conseguindo dormir direito e passava tanto tempo checando cantos e recantos em busca da aranha, que estava um caco de nervos. Mais de uma vez encontrei aranhas, não eram elas que estavam me perseguindo, então as matei sem pensar duas vezes. Minha vida se transformou na bagunça que, bem, ainda é hoje.
Todavia eu estava certo. Duas semanas depois de tê-la matado a pontapés na minha TV, lá estava. Sobre a minha cama. Em pé na parede, bem em cima do lugar onde minha cabeça repousava todas as noites enquanto tentava em vão dormir. Era aquela maldita aranha. E a reconheci. Meu quarto é mais bem iluminado que a cozinha, e não estava silhuetada contra uma tela, então, pela primeira vez, consegui ver bem minha algoz e percebi que já a tinha visto antes.
Eu não nasci com medo de aranhas. Na verdade, durante os primeiros seis anos da minha vida, só posso presumir que convivi em pacífica harmonia com elas. Mas isso mudou no outono de 1991. Eu não morava em Londres na época, e sim com meus pais em Southampton, e visitávamos meus avós todos os domingos, na New Forest, que ficava perto. Eles moravam na periferia de um subúrbio, e do fundo do jardim da minha avó era possível ver campos que se estendiam por quase um quilômetro até a linha das árvores. Eu costumava passar muito tempo lá embaixo e, se você tivesse sorte, às vezes havia cavalos.
Naquele dia, não havia cavalos, apenas um céu nublado e um vento que ameaçava levar meu gorro de lã azul. Eu vagava entre as árvores esparsas perto da cerca que não tinha permissão para atravessar, e notei um tronco caído. Já o tinha visto antes, é claro, pois pouca coisa naquele lugar mudava entre minhas visitas semanais, porém havia algo diferente nele. Em uma das cavidades, havia algo que não reconheci. Era marrom-claro e parecia macio e irregular, como um pequeno saco. Sem saber de nada, aproximei-me e vi, empoleirada em seu topo, uma pequena aranha. Ela me observava, cautelosa, seu abdômen gordo se contraindo, porém não se moveu.
Em minha ignorância infantil, achei que parecia boba e estendi a mão para pegá-la. Contudo tropecei. Minha mão atingiu a aranha, matando-a instantaneamente, e mergulhou no saco de ovos abaixo, fazendo-o se romper e explodir. De repente, fui coberto por milhares de pequenas coisas brancas rastejando, aquelas aranhas minúsculas, pingando, meio formadas e inacabadas. Elas cobriram minhas mãos, meu rosto... Meus olhos.
Jamais conseguirei esquecer aquela sensação, e desde então a presença de aranhas me enche de um pavor profundo. E aquela era a aranha que estava sentada diante de mim na parede do meu quarto. Embora me lembrasse pouco de como aquela criatura morta há tanto tempo tinha sido, sabia que era a mesma. É possível ser assombrado pelo fantasma de uma aranha que destruiu sua infância? Parece absurdo. Parece ridículo. Contudo lá estava. Não sabia por que estava ali. E não sabia por qual motivo estava estendendo a mão para pegá-la. Minha mente gritava para parar, e soltei um grito terrível, no entanto minha mão continuava se movendo inexoravelmente em sua direção, como se fosse guiada por algo mais. Essa aranha fantasma pareceu real o suficiente quando a esmaguei sob a palma da minha mão, as patas abertas e o corpo pulsando quente contra a minha pele. Assim que recuperei o controle do meu braço, passei o resto da noite lavando a mão.
Vou me mudar daquele prédio. Entreguei toda a documentação do Major Tom à família do térreo com quem ele decidiu morar e irei embora assim que encontrar algum lugar, qualquer lugar, disponível para alugar o quanto antes. Não posso arriscar ver aquela coisa de novo. Também estou consultando médicos, tentando conseguir um encaminhamento para tratamento psiquiátrico ou quem sabe algum medicamento antipsicótico, entretanto achei que deveria lhe dar um depoimento também. Não espero que acredite em mim, todavia se “aranhas fantasmas” se enquadra na área de atuação de alguém, suponho que seja a de vocês.
JONATHAN SIMS
Depoimento encerrado.
Acho que as linhas mais importantes deste depoimento estão no final. Medicamentos antipsicóticos e descrença são, creio eu, exatamente o que o Sr. Vittery precisava para superar seu problema com, hmm, “aranhas fantasmas”. Não há quaisquer detalhes suficientes neste depoimento para investigar, exceto Martin confirmando que o Sr. Vittery de fato morava nos endereços que forneceu.
Teria pedido a Tim para entrar em contato com o próprio Sr. Vittery, mas parece que este faleceu pouco depois de prestar seu depoimento. Ele foi encontrado em sua residência na Boothby Road, após reclamações de vizinhos sobre o cheiro, e pelo visto estava morto há mais de uma semana. O laudo do legista lista asfixia como causa da morte, talvez por engasgamento, contudo não especifica o que o engasgou, apenas lista “material orgânico estranho” bloqueando sua garganta.
Se eu fosse mais alarmista, poderia pensar que a aparência do cadáver do Sr. Vittery conferia alguma credibilidade à sua história. No entanto, como eu disse a Martin antes, ele estava lá há mais de uma semana, então é muito provável que haja uma explicação perfeitamente natural para o fato de seu corpo estar todo envolto em teias.
Fim da gravação.
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