Capítulo 07: O Quarto Dia na Ilha
Parte 1
O som de pessoas conversando.
As vozes não eram altas, nem vinham de perto. Tons familiares, entonações familiares. E, como música de fundo, o som constante das ondas. Ondas? Sim, o som das ondas...
Pouco a pouco ele foi despertado. E então...
Abriu os olhos e acordou sobre a cama dura. Suas mãos procuraram os óculos e se virou para deitar de costas. Colocou os óculos e um teto branco surgiu em foco. Um suspirou cansado escapou de seus lábios.
— Estou na Casa Decagonal.
Suas têmporas latejavam. A cada batida, coisas que não queria lembrar passavam por sua mente.
Movendo sua cabeça lentamente, saiu da cama e vestiu suas roupas, tateando os botões da camisa. Então, foi até a janela e desamarrou o cinto que prendia as duas maçanetas. Destrancou a janela e a empurrou, abrindo-a junto com as venezianas.
O gramado tomado pelo mato. Os pinheiros inclinados. O céu escuro e profundo.
Esticou os braços e conseguiu respirar fundo. Depois de inalar um pouco de ar fresco, fechou a janela, trancou-a de volta e amarrou o cinto nas maçanetas. Então, saiu do quarto.
Ellery e Van eram as pessoas que ouvira conversando no corredor. Agatha e Poe também já estavam de pé na cozinha.
— Bom dia, Leroux. Que bom que você está bem. — disse Ellery sem qualquer traço de humor, apontando para algo atrás de Leroux.
— O quê?
Leroux se virou, empurrou os óculos para cima no nariz e viu, para sua surpresa...
A placa estava na porta do quarto de Carr.
“Segunda Vítima”... Estava pendurada na altura dos olhos, cobrindo a placa com o nome de Carr, justo como a da porta de Orczy.
— Nosso assassino é um sujeito confiável. — disse Ellery. — Que bom que se deu a todo esse trabalho por nós.
Leroux recuou, virou-se e olhou para Ellery, que estava sentado em uma das cadeiras com as pernas compridas cruzadas.
— Você devolveu as placas restantes para a gaveta do armário, presumo? — perguntou Leroux.
— Sim! — respondeu Ellery. — Suponho que vai sugerir que nos livremos delas.
Ellery colocou as placas da gaveta sobre a mesa e os deslizou em direção a Leroux. Eram seis.
— Mas...
— Sim, como pode ver, a placa da “Segunda Vítima” ainda está aqui. O assassino parece estar bem preparado. Imaginamos que ficaríamos de olho nessas placas depois do primeiro assassinato. Talvez ele tenha outro conjunto igual. Além do mais... Mantenha isso em segredo de Agatha...
Ellery baixou a voz para um sussurro e fez um gesto para que Leroux se aproximasse.
— Um segredo? — murmurou Leroux. — Por quê?
— Ela pode ficar muito agitada se não contarmos com delicadeza. Nós encontramos antes que ela acordasse, então Van, Poe e eu conversamos e decidimos esconder.
— Esconder o quê?
— O que você acha?
— Não faço ideia.
— Foi Poe quem encontrou. Ele acordou por volta do meio-dia e, depois de lavar o rosto, resolveu dar uma olhada no banheiro lá atrás...
— Tinha alguma coisa lá?
— Sim. Dentro da banheira. Uma mão coberta de sangue.
— O quê?
Leroux levou a mão à boca.
— Da O-Orczy?
— Não, está enganado. Não era a mão da Orczy.
— Então de quem?
— Era do Carr. A mão esquerda do Carr foi cortada e colocada lá.
— Não acredito.
— O assassino deve ter esperado que todos nós adormecêssemos e o fez esta manhã. Não trancamos a porta do quarto de Carr. Qualquer um poderia ter entrado sorrateiramente e cortado a mão.
— E onde está a mão agora?
— Colocamos de volta na cama de Carr. Não podemos contar com a polícia vindo aqui tão cedo e também não poderíamos apenas deixá-la lá.
— Por que... — Leroux levou os dedos às têmporas latejantes. — Por que o assassino faria uma coisa dessas?
— Por que, de fato?
— É uma “alusão” de novo? Contudo, ainda que fosse...
Agatha e Poe saíram da cozinha e prepararam a mesa. Espaguete, salada de batata e sopa.
Leroux sentou-se e olhou para o relógio de pulso. Já eram três horas da tarde.
Ele só havia comido uma vez ontem. Deveria estar morrendo de fome, no entanto não tinha apetite nenhum.
— Leroux, Poe ficou de olho em mim o tempo todo, então pode aproveitar sua refeição sem preocupações. Também lavei toda a louça de novo. Ou será que acha que Poe e eu estamos juntos nessa? — disse Agatha com sarcasmo. Ela provavelmente mal havia dormido. Seu rosto maquiado mostrava sinais de cansaço. Seus lábios rosados também haviam perdido a cor habitual.
Parte 2
Depois do almoço, os cinco foram juntos até as ruínas da Mansão Azul.
O terreno onde a mansão ficava tinha cerca de dezoito metros de cada lado e estava completamente preto, coberto de cinzas e tijolos.
Estava rodeado por pinheiros verde-escuros intercalados com árvores mortas e marrons. O céu estava carregado de nuvens e o mar escuro e sombrio subia e descia lá embaixo.
O lugar era tão escuro e sombrio quanto algo saído de um conto de fadas assustador.
O penhasco a oeste da Mansão Azul, com vista para o Cabo J, não era muito alto. A fileira de pinheiros ao redor da mansão era interrompida por um pequeno caminho que levava a uma estreita escadaria de concreto, que por sua vez descia para uma área rochosa abaixo do penhasco.
Quatro pessoas do grupo estavam no topo, observando se algum barco passava perto da ilha, enquanto o quinto membro do grupo caminhava sozinho entre as cinzas e os tijolos. Era Ellery. Enquanto caminhava, cutucava os tijolos espalhados aqui e ali com os pés, inspecionando os destroços. Então, de repente, se agachou.
— O que está fazendo, Ellery? — Van o chamou.
Ellery levantou a cabeça e sorriu.
— Procurando alguma coisa.
— Procurando o quê?
— Eu disse a vocês ontem à noite, não disse? Uma sala subterrânea. Estou pensando que poderia haver uma aqui.
Os outros trocaram olhares inquisitivos e, em seguida, caminharam em direção a Ellery, que seguia agachado entre os tijolos.
— Ali. — murmurou Ellery, colocando a mão em um pedaço de madeira imunda e preta como breu, com cerca de um metro quadrado. — Parece que isto foi movido.
Aparentemente, fazia parte da parede queimada, e algumas partes seguiam cobertas por azulejos azuis. Ellery tentou levantá-la e, para sua surpresa, esta se ergueu com facilidade.
— Achei! — exclamou Ellery, alegre.
Lá estava, um buraco negro quadrado. Uma escada estreita de concreto levava para a escuridão. Esta era sem dúvida a entrada para a sala subterrânea da Mansão Azul incendiada.
Ellery virou o pedaço de madeira, pegou impacientemente a lanterna que havia tirado do bolso do casaco e entrou no túnel.
— Cuidado. Pode desabar. — disse Poe, ansioso.
— Eu sei, vou ter cuidad...
A resposta de Ellery foi interrompida. Seu corpo de repente foi impulsionado para a frente. Com um breve grito, ele caiu, como se estivesse sendo sugado para a escuridão.
— Ellery!
— Ellery?
— Ellery!
— Você está bem, Ellery?
Os outros quatro gritaram em uníssono. Van saltou para a frente e tentou seguir Ellery para dentro do buraco.
— Espere, Van. É perigoso entrar assim. — Poe o segurou com firmeza.
— Mas Poe...
— Eu vou primeiro.
Poe jogou o cigarro fora, procurou no bolso do paletó e tirou uma lanterna. Colocou o pé na escada, iluminando o interior do buraco.
— Ellery!
Ele gritou, porém não houve resposta. Inclinando seu corpo grande para a frente, desceu dois degraus. Parou de repente.
— Isto é... — Poe rosnou. — Há um fio esticado aqui. Ellery deve ter tropeçado nele.
O fio fino e resistente estava por volta da altura da canela de um adulto, esticado entre o que pareciam ser canos que desciam pelos dois lados da escada. Era quase invisível, a menos que se olhasse com muita atenção.
Poe, com cautela, passou por cima do obstáculo e se apressou para descer a escada. Na escuridão à sua frente, podia ver um halo amarelo. Era a luz de Ellery.
— Van, Leroux, desçam aqui. Cuidado com o fio... Ellery?
Ellery estava caído ao pé da escada. Poe pegou a lanterna que estava no chão e iluminou os pés dos dois que desciam atrás dele.
— Ellery, você está bem?
— Estou bem! — respondeu Ellery, ainda estendido no chão de concreto. Mas então gemeu e agarrou o tornozelo direito.
— Acho que torci.
— Sua cabeça bateu?
— Não sei.
Van e Leroux se juntaram a eles.
— Me ajudem. — mandou Poe, e pegou o braço de Ellery.
— Espere, Poe... — disse Ellery, levantando-se com cuidado. — Estou bem, de verdade. Vamos dar uma olhada nesta sala subterrânea.
Leroux pegou a lanterna de Poe e examinou a sala.
A sala subterrânea era grande... Cerca de cinquenta metros quadrados. As quatro paredes, o teto e o chão eram de concreto ao que parecia, com canos passando por eles. Ao fundo, havia uma grande máquina, provavelmente um gerador, porém nada de interessante além disso. Algumas tábuas de madeira de todos os tamanhos, garrafas e latas sujas, um balde, alguns trapos... A sala continha apenas lixo.
— Como pode ver, Ellery, nada fora do comum aqui. — disse Leroux.
— Nada mesmo? — murmurou Ellery. Estava apoiado por Poe e Van e havia seguido a luz da lanterna com os olhos. Parecia ter se recuperado rapidamente.
— Não pode ser nada. Verifique o chão, Leroux.
Leroux fez o que lhe foi dito e iluminou o chão de novo.
— Ah, olhem só.
Eles estavam olhando para uma área em forma de arco com dois metros de raio, perto da escada onde os quatro estavam. Estava livre de qualquer lixo que estivesse no resto da sala. E, curiosamente, também não havia poeira ou cinzas dentro do arco.
— Isso sim é estranho. Como se alguém tivesse limpado essa parte.
Um sorriso estranho surgiu no rosto pálido de Ellery.
— Alguém esteve aqui.
Parte 3
— Não parece ser tão grave. E você não parece ter batido a cabeça. — disse Poe enquanto tratava o tornozelo direito de Ellery. — Uma torção no tornozelo e alguns hematomas e arranhões. Uma noite com uma compressa deve resolver. Inacreditável, que sorte a sua. Poderia ter morrido ali.
— Devo ter amortecido a queda instintivamente. — disse Ellery, mordendo o lábio. — No entanto foi uma grande besteira da minha parte. Fui muito descuidado. Caí direto na sua armadilha.
Os cinco haviam retornado à Casa Decagonal.
Ellery estava sentado com as costas contra a parede, a perna estendida no chão enquanto Poe tratava o tornozelo. Os outros três observavam, nervosos demais para apenas se sentarem em suas cadeiras.
— É melhor trancarmos as portas do corredor por dentro. E ninguém deve sair, ainda mais depois que escurecer. Tem alguém lá fora, tentando nos pegar.
— Mas Ellery, eu não consigo acreditar.
Agatha parecia confusa. Ela havia ouvido a teoria de Ellery de que Nakamura Seiji era o assassino quando voltaram da Mansão Azul.
— Será que Nakamura Seiji ainda está vivo?
— A sala subterrânea de agora há pouco é prova suficiente, suponho. Pelo menos, prova que alguém esteve lá há não muito tempo. Ele imaginou que descobriríamos sobre a sala subterrânea e tentaríamos entrar. É por esse motivo que armou uma armadilha daquelas na escada. Se eu não tivesse tido sorte, já seria a “Terceira Vítima”.
— Certo, tudo pronto, Ellery.
Poe deu um tapinha leve no tornozelo recém-enfaixado de Ellery.
— Não se mexa muito esta noite.
— Obrigado, doutor... Aonde você vai?
— Só quero verificar uma coisa.
Poe atravessou o salão principal e desapareceu pelas portas que davam para o salão de entrada. Voltou em menos de um minuto.
— Justo como suspeitei. Desculpe! — disse ele a Ellery com voz sombria.
— O que houve?
— Essa linha. Acontece que é minha.
— Sua? Como assim?
— Linha de pesca. Meu equipamento de pesca está no salão de entrada desde o primeiro dia. Um rolo da minha linha mais resistente sumiu.
— Ah, então era isso. — Ellery encostou-se na parede, abraçando o joelho levantado. — Não tem fechadura na porta da frente. Então qualquer um, seja o Seiji ou qualquer outra pessoa, pode entrar e sair quando quiser. Nada mais fácil do que roubar um rolo de linha de pesca.
— Entretanto Ellery... — Poe sentou-se em uma cadeira e acendeu um cigarro. — Não acho que deva presumir que Seiji esteja vivo e que seja o assassino.
— Acha que estou errado?
— Não estou dizendo que sua teoria seja impossível, mas, no momento, não acho que possamos afirmar se o assassino é alguém de fora ou não. Essa é a minha objeção.
— Hmm.
Ainda encostado na parede, Ellery olhou para o rosto barbudo de Poe.
— Parece que nosso Doutor Poe espera que o assassino seja um de nós.
— Não espero nada. Porém acho que é o mais provável. Por isso, Ellery, sugiro que revisemos todos os nossos quartos juntos.
— Uma inspeção de pertences pessoais, hein?
— Sim. Sabemos que o assassino deve estar de posse de outro conjunto daquelas placas, da mão esquerda de Orczy, de algum tipo de faca e talvez de algum veneno restante.
— Boa sugestão. Contudo Poe, se você fosse o assassino, esconderia coisas incriminatórias assim no seu próprio quarto? Existem muitos esconderijos mais seguros em outros lugares.
— Mesmo assim, só para garantir.
— Ei, Poe! — disse Van. — Não seria ainda mais perigoso se fizéssemos uma busca?
— Perigoso?
— Suponha que o assassino seja de fato um de nós cinco, então estaria conosco enquanto revistássemos os quartos. Estaríamos dando ao assassino uma chance fácil de entrar nos quartos dos outros.
— Van tem razão. — disse Agatha. — Não quero que ninguém entre no meu quarto. O assassino pode esconder essas placas ou alguma outra coisa em um dos quartos. Ou armar algum tipo de armadilha.
— Leroux, o que acha? — perguntou Poe com uma careta.
— Eu só não aguento mais esta Casa Decagonal.
Leroux olhou para o chão, balançando a cabeça lentamente.
— É como alguém disse antes. Os olhos doem só de olhar para as paredes. Não são só os olhos. Minha cabeça fica toda tonta só de olhar para elas...
Parte 4
— Você quer o sal? É só colocar ali. — disse Van para Agatha, que, depois de provar a sopa, olhava ao redor com um pratinho nas mãos.
— Você fica de olho em mim o tempo todo. — respondeu Agatha, com os olhos arregalados. — Nada escapa ao seu olhar!
Ela respondeu sarcasticamente, embora não houvesse força em sua voz. As olheiras estavam ficando cada vez maiores.
Eles estavam na cozinha da Casa Decagonal.
À luz fraca do abajur que trouxeram do corredor, Agatha preparava uma refeição enquanto Van a observava atentamente. Os outros três estavam no corredor, com ocasionais espiadas a cozinha pelas portas abertas.
Agatha se movimentava pela cozinha, tentando tirar da cabeça o assunto do assassino, entretanto estava com dificuldade para se concentrar. Ela olhou ao redor da cozinha outra vez.
— O açúcar está aqui, Agatha. — disse Van. Agatha estremeceu e o encarou com raiva.
— Já chega! — exclamou, levando as mãos ao lenço que prendia seu cabelo.
— Se você tem tanto medo de comer o que eu cozinho, pode ir comer comida enlatada, se quiser.
— Agatha, não quis dizer isso.
— Chega!
Agatha pegou um pratinho e o atirou em Van. O prato roçou seu braço e bateu na geladeira atrás, quebrando-se em pedaços. O barulho fez com que os outros três corressem para a cozinha.
— Eu sei que não sou a assassina! — gritou Agatha, com os punhos cerrados e tremendo como uma folha. — O assassino é um de vocês quatro. Mas vocês ainda têm alguém me vigiando? Já disse, não sou a assassina!
— Agatha!
Ellery e Poe elevaram suas vozes ao mesmo tempo.
— O quê? Mesmo com o seu guarda aqui, se alguém for envenenado de novo, vão me culpar de qualquer jeito! Todos estão aqui para me incriminar!
— Acalme-se, Agatha. — disse Poe com uma voz severa, dando um passo em sua direção. — Ninguém quer fazer isso. Se recomponha.
— Não chegue mais perto.
Agatha recuou, os olhos faiscando de medo.
— Fiquem longe de mim... Já entendi, todos estão juntos nessa. Os quatro mataram Orczy e Carr. E agora é a minha vez!
— Agatha, recupere o juízo.
— Se é assim que querem, serei a sua assassina. Sim. Se for a “Assassina”, não serei uma vítima. Ah, pobre Orczy, o miserável Carr... Sim, sim, eu sou a assassina. Matei os dois. E agora matarei o resto de vocês!
Os quatro precisaram contê-la. Agatha havia perdido completamente o controle e balançava os braços e chutava as pernas para todo lado. Os quatro a arrastaram de volta para o corredor e a colocaram em uma cadeira.
— Não aguento mais isto.
Os ombros de Agatha caíram e olhou para o vazio com olhos sem vida. Seu corpo trêmulo desabou sobre a mesa.
— Eu imploro, quero ir para casa. Estou cansada. Quero... Quero voltar para casa.
— Agatha.
— Vou embora. Vou para casa. Vou nadar de volta...
— Agatha, fique calma. Respire fundo. — Poe colocou sua grande mão nas costas de Agatha e tentou acalmá-la.
— Agatha, ninguém está te acusando de assassinato. Ninguém vai te matar.
Como uma criança relutante, Agatha seguiu com a cabeça apoiada na mesa. Aos poucos, seu murmúrio de “Vou para casa, vou para casa” foi diminuindo até se transformar em soluços.
Depois de um longo tempo, de repente levantou a cabeça. E, com uma voz monótona e rouca, disse.
— Preciso terminar o jantar.
— Tudo bem. Outra pessoa vai terminar. Vá descansar.
— Não. — Agatha afastou a mão de Poe. — Não sou a assassina.
Parte 5
Ninguém falou durante a refeição.
Se alguém tivesse aberto a boca, seria inevitável falar sobre o caso. O silêncio era uma fuga da realidade ameaçadora. Talvez o silêncio também tenha surgido do medo de provocar Agatha, que seguia em estado de choque.
— Vamos limpar tudo, então vá descansar, Agatha. — disse Poe com delicadeza.
Agatha costumava evitar fumar na frente de outras pessoas, porém agora encarava fixo a fumaça que subia do cigarro.
Tenho alguns comprimidos caso tenha problemas para dormir. Tome-os e vá para a cama.
Um lampejo de cautela surgiu nos olhos de Agatha.
— Comprimidos? De jeito nenhum!
— Tudo bem, são só comprimidos para dormir.
— Não, não vou tomá-los.
— Certo, então... Observe com atenção, Agatha.
Poe abriu a bolsa de couro que estava pendurada no encosto da cadeira e tirou um pequeno frasco de remédio. Colocou dois comprimidos brancos na palma da mão aberta, partiu-os ao meio e deu metade de cada comprimido para Agatha.
— Agora vou tomar uma das duas metades bem na sua frente. Então vai confiar em mim?
Agatha olhou em silêncio para os comprimidos em sua mão e enfim fez um lento aceno em resposta.
— Certo, ótimo.
Um sorriso desajeitado surgiu no rosto barbudo de Poe e ele engoliu os comprimidos que tinha na mão.
— Viu? Não tenho nada de errado. Agora você também, Agatha.
— Não consigo dormir. Só não consigo mesmo.
— É natural... É porque está muito agitada agora.
— Esta manhã eu ainda conseguia ouvir o choro do Carr na minha mente. Quando enfim tinha começado a cochilar ouvi algo estranho vindo do quarto ao lado, do quarto do Carr.
— Tudo bem. Tome esses comprimidos, vai descansar bem esta noite.
— Sério?
— Sim, sério. Vai dormir rapidinho.
Agatha finalmente colocou os comprimidos na boca, fechou os olhos e os engoliu.
— Obrigada.
Seus olhos sem vida olharam para Poe.
— Boa noite, Agatha. Não se esqueça de trancar a porta e a janela.
— Sim. Obrigada, Poe.
Depois que Agatha desapareceu em seu quarto, os quatro restantes soltaram coletivamente algo parecido com um suspiro de alívio.
— Impressionante tato, Poe. Você será um ótimo médico.
Ellery sorriu, acenando com a mão que segurava um cigarro entre os dedos finos.
— Que surpresa ver alguém como nossa Dama Agatha agir assim. Talvez um de nós se torne seu paciente amanhã também.
— Cale a boca, Ellery. Você está levando isso muito na brincadeira.
— Preciso levar na brincadeira. — Ellery deu de ombros. — Se levar muito a sério, posso ser o próximo a surtar. Quase fui morto hoje, lembra?
— E se tudo aquilo foi apenas uma atuação de um homem só?
— O que está... Ah, acho que não adianta ficar tão estressado. No entanto, é claro, Agatha também pode estar atuando.
— Se o assassino está entre nós, pode ser qualquer um. — disse Van, roendo as unhas.
— Só cada um de nós sabe se é culpado ou não. Então precisamos cuidar de nós mesmos.
— Sim, tem razão... Por que tudo isso aconteceu, afinal? — Leroux jogou os óculos na mesa e levou as mãos à cabeça.
— Ei, não vai ficar histérico com a gente também, espero?
— Não tenho energia para ficar, Ellery. Mas por que o assassino começou essa loucura? Seja o assassino um de nós ou Nakamura Seiji, qual seria o motivo, em nome de Deus?
O rosto de Leroux, com seus pequenos olhos redondos, estava tomado pelo desespero.
— O motivo, hein? — Ellery murmurou. — Tem que haver alguma coisa.
— Não acredito na teoria de que “Seiji é o assassino”. — disse Van, irritado. — Nakamura Seiji só existe na imaginação do Ellery. Mesmo que fosse verdade, como o Leroux disse, que motivo teria para nos matar? Isso não é uma brincadeira.
— Seiji... — sussurrou Leroux. Toda vez que ouvia ou pronunciava o nome, sentia uma estranha sensação de inquietação crescente. Desde que Ellery lhe dissera ontem que Seiji poderia ainda estar vivo, esse estranho sentimento de que não era assim persistia.
O reflexo da chama da lâmpada dançava em seus óculos, que estavam sobre a mesa. Olhando para eles, tentou resgatar algo dessa sensação de inquietação.
Uma lembrança.
Mas não conseguia se lembrar. E logo, outra lembrança, mais recente, começou a incomodá-lo também, perturbando-o cada vez mais.
O que era? Leroux se perguntava. A lembrança mais recente devia ser sobre alguma coisa que aconteceu depois que chegaram à ilha. Tinha visto algo em algum lugar, subconscientemente, uma coisa muito importante...
— Poe.
A dor de cabeça que o incomodava desde que acordara seguia latejando.
Vamos desistir por hoje e ir dormir, pensou Leroux.
— Posso tomar um comprimido para dormir também?
— Claro. São só sete horas, já vai para a cama?
— Sim, estou com dor de cabeça.
— Eu também deveria ir.
Poe entregou o frasco inteiro de comprimidos para Leroux e se levantou casualmente com um cigarro na boca.
— Estou começando a sentir o efeito dos comprimidos que tomei agora há pouco também.
— Posso tomar um também? — perguntou Van, levantando-se aos poucos da cadeira.
— Claro. Um basta. Eles são bem fortes. E quanto a você, Ellery?
— Não preciso deles. Consigo dormir sozinho.
E, pouco depois, a lâmpada sobre a mesa se apagou, e a escuridão desceu sobre o salão da Casa Decagonal.
***
Link para o índice de capítulos: The Decagon House Murders
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