quinta-feira, 9 de abril de 2026

The Decagon House Murders — Capítulo 06

Capítulo 05: O Terceiro Dia no Continente


Parte 1


O crepúsculo se aproximava.

O mar escurecia. Kawaminami estava em um aterro, observando a silhueta distante de uma ilha flutuando no mar. O corpo esguio de Shimada estava agachado em uma escadaria que levava à água. Ele conversava com algumas crianças que pescavam ali.

Eles enfim haviam chegado aqui... À Cidade S.

Será que Nakamura Seiji seguiria vivo? Eles vieram na esperança de encontrar uma pista que pudesse corroborar a teoria que formularam na noite anterior. Também queriam dar uma olhada em Tsunojima.

Mas, depois de meio dia interrogando moradores locais e pescadores, tudo o que descobriram foram histórias de fantasmas. Sem encontrar nada que pudesse impulsionar sua investigação, os dois vieram para este lugar perto do porto para relaxar um pouco.

Kawaminami levou um cigarro aos lábios, sentou-se e esticou as pernas. Observou Shimada e ouviu as ondas quebrando. Vestido com calça jeans azul e uma jaqueta bomber verde, pescando com a vara que as crianças lhe emprestaram, rindo com sua voz infantil, Shimada não parecia em nada um homem perto dos quarenta.

Que cara estranho, pensou Kawaminami. Então se lembrou de como a discussão da noite anterior entre Shimada e Morisu havia tomado um rumo inesperadamente constrangedor e soltou um suspiro profundo.

Shimada e Morisu tinham personalidades completamente opostas, de certa forma. Se Morisu era yin, então Shimada era yang. Aos olhos do sério e introvertido Morisu, Shimada, que apenas seguia seus próprios interesses e instintos, devia parecer um intrometido inconveniente. E Shimada era muito mais velho que Kawaminami e Morisu. Isto também devia incomodá-lo. Shimada, por sua vez, parecia estar decepcionado com a postura certinha de Morisu, que ameaçava estragar sua diversão.

— Sr. Shimada, não está na hora de irmos? — Kawaminami se levantou e gritou para ele. — A viagem de volta deve levar mais uma hora.

— Então vamos.

Shimada devolveu a vara de pescar às crianças e acenou em despedida. Suas longas pernas o levaram de volta a Kawaminami em poucos passos.

— Parece que você gosta de crianças.

— Bem, sim. — disse Shimada sem hesitar. — Você não acha maravilhoso ser jovem?

Os dois caminharam lado a lado pela trilha ao lado do aterro.

— Não descobrimos nada hoje. — disse Kawaminami.

— Ah, é mesmo?

Shimada sorriu.

— Reunimos algumas histórias de fantasmas, não é?

— São apenas o tipo de rumores que se ouvem em todo lugar. Histórias assim sempre circulam quando as pessoas morrem em circunstâncias incomuns.

— Discordo. Por mais estranho que pareça, acho que a verdade pode estar escondida em algum lugar nessas histórias.

Um jovem moreno e bem-apessoado consertava uma rede na beira da estrada com dedos habilidosos. Provavelmente não tinha nem vinte anos. Havia algo de infantil em seu entusiasmo pela tarefa.

— Sabe, Conan... — disse Shimada. — Só posso esperar que seus camaradas... Não, ex-camaradas... Não caiam sob o feitiço do fantasma de Tsunojima.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que o fantasma de Tsunojima pode muito bem ser ninguém menos que o homem que se acreditava estar morto, Nakamura Seiji. Talvez Seiji ainda esteja vivo e na ilha. E seus ex-camaradas, sem saber, o visitaram.

— Porém isso é...

— Com licença.

Uma voz desconhecida os interrompeu. Surpresos, os dois se viraram. Era a do jovem que consertava a rede.

— Vocês são amigos daqueles estudantes que foram para a ilha? — perguntou o jovem em voz alta, ainda segurando a rede.

— Sim! — respondeu Shimada imediatamente. Ele caminhou até o homem. — Você os conhece?

— Meu pai e eu os levamos para a ilha. Vamos buscá-los na próxima terça-feira.

— Que interessante! — disse Shimada entusiasmado, agachando-se ao lado do homem. — Havia algo de estranho com o grupo que foi para a ilha?

— Na verdade não. Estavam todos animados para ir lá. Não sei o que há de tão interessante naquela ilha.

O jovem falou sem rodeios, embora seus olhos, fixos em Shimada, pareciam amigáveis. Passou a mão pelos cabelos curtos e continuou falando, mostrando seus dentes brancos e brilhantes.

— Está tentando descobrir algo sobre aquelas histórias de fantasmas?

— Ah, sim. Algo assim. Já viu o fantasma?

— Não. É só um boato. Não acredito em monstros.

— Fantasmas e monstros são coisas diferentes.

— É mesmo?

— Sabe quem é o fantasma?

— Aquele cara, Nakamura Seiji, certo? Dizem que sua esposa também assombra o lugar.

— Quer dizer que nunca considerou a possibilidade de Seiji seguir vivendo na ilha?

O jovem ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Seguir vivo? Ele não morreu? É por isso que é um fantasma.

— Pode não ter morrido. — disse Shimada, em um grave tom. — Por exemplo, aquela história sobre as luzes que se acendem na Casa Decagonal, pode ser o próprio Seiji quem acende as luzes lá. Essas histórias de pessoas que viram Seiji... Não é mais sensato supor que ainda esteja vivo, em vez de terem visto seu fantasma? Também ouvi dizer que um barco a motor afundou perto da ilha. E se Seiji matou aqueles pescadores e afundou o barco porque foi visto?

— Vocês são engraçados. — o jovem riu, divertido. — Contudo está enganado sobre o barco. Porque eu vi o barco virar.

— O quê?

— As ondas estavam altas naquele dia, sabe, e eu por acaso estava aqui quando eles estavam se preparando para sair, então os avisei. Disse que era perigoso e que não havia nada além de peixes pequenos para encontrar ao redor daquela ilha. No entanto eles me ignoraram e foram embora. E tinham acabado de sair daqui e nem sequer tinham chegado perto da ilha quando uma onda alta os pegou. Os mais velhos podem dizer que um fantasma afundou o barco, entretanto no final foi só um acidente.

— E você disse que o fantasma matou os pescadores, mas na verdade ninguém morreu. Todos os homens no barco foram salvos.

Kawaminami, que estava de pé ouvindo os dois homens, de repente caiu na gargalhada. Shimada fez beicinho.

— Então retiro o que disse sobre o barco. Porém mesmo assim, acho que Seiji pode estar vivo.

— Vivo e morando na ilha, é o que quer dizer? — perguntou Kawaminami. — O que estaria comendo, então?

— Pode ter um barco a motor escondido em algum lugar. Pode sair da ilha às vezes para comprar mantimentos.

— Bem, nesse caso... — o jovem pareceu hesitante.

— Acha que é impossível?

— Acho que é possível se tivesse vindo do outro lado do Cabo J à noite. Ninguém vai para lá. Contudo se ele só amarrou o barco lá, alguém poderia descobri-lo, não acha?

— É provável que tenha escondido o barco de alguma forma. De qualquer maneira, contanto que não haja tempestade, você poderia chegar à costa de lancha, não é?

— Sim. Com o tempo que está fazendo, conseguiria se virar até com um bote com motor de popa.

— Entendo, entendo.

Shimada cantarolou alegremente e se levantou de um pulo.

— Muito obrigado. Sim, aprendi algo útil.

— Sério? Você é um sujeito engraçado. — riu o rapaz.

Shimada acenou para o jovem e caminhou até o carro estacionado mais adiante na estrada. Kawaminami correu atrás dele.

Shimada sorriu.

— Uma ótima pescaria, não acha, Conan?

Kawaminami não tinha certeza de qual parte da conversa de Shimada com o pescador poderia ser chamada de “ótima pescaria”. No entanto tinha certeza de que Shimada não estava pronto para abandonar a teoria de que Nakamura Seiji estava vivo.

— Sim, é verdade. — concordou ele sem muita convicção.

Mas seja lá o que está pensando, pensou Kawaminami, olhando para o sol que persistia sobre o mar do outro lado do aterro, eles estão lá naquela ilha agora. Ah, bem, qual é a pior coisa que pode acontecer?

A sombra negra de Tsunojima se dissipou silenciosamente no crepúsculo.

***

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