domingo, 19 de abril de 2026

Slayers — Volume 17 — Capítulo 73

Capítulo 73: Em fuga, com vislumbres de perseguidores atrás

O sol começava a se pôr atrás das montanhas. Quase na hora em que o mundo inteiro estava pintado de laranja, estávamos terminando nosso jantar antecipado.

“Nunca imaginei que você fosse uma pescadora tão habilidosa, Nissy Lina!” Ran exclamou com um sorriso satisfeito enquanto terminava sua terceira porção da pesca que eu havia fisgado. Estávamos sentadas em algumas pedras convenientes à beira do rio.

“Ah, na verdade não tem nada a ver com habilidade. Só usei magia!” respondi.

Usando mechas do meu próprio cabelo, um galho comum e um anzol que carrego comigo justamente para essas ocasiões, fiz uma vara de pescar improvisada. Nela, lancei meu feitiço ‘mordida a cada arremesso’ (nome oficial a ser definido) e comecei a pescar.

O feitiço ‘mordida a cada arremesso’ é uma criação original da Lina Inverse que inventei há tempos, brincando com alguns fundamentos da magia. O segredo era que fazia o peixe pensar que o anzol vazio parecia super apetitoso. A princípio, havia concebido o feitiço na esperança de que, se lançado em uma pessoa, esta seria enfeitiçada a ponto de achar até mesmo as rações de trilha mais duvidosas deliciosas quando forçada a acampar ao ar livre, embora nunca tivesse funcionado muito bem. Conseguia me enganar fazendo-me pensar que a comida parecia boa, claro, mas enganar meu paladar era outra história.

Assim, reaproveitei o feitiço em um truque de pesca bacana. Dito isso, o fato de ser, na verdade, um fracasso reciclado, mais o fato de ter o poder de extinguir os peixes do rio se viesse a público, somado ao fato de que pegar peixes com muita facilidade paradoxalmente tirava a graça da coisa... É, tudo aquilo me fazia não querer usá-lo com muita frequência. Dada a nossa situação atual, no entanto... Pra ser mais específica o fato de estarmos fugindo como fugitivos procurados... Era uma maneira prática de alimentar nós três de forma rápida.

Depois que Ran, Gourry e eu escapamos de Palbathos, caminhamos um pouco para o norte pela estrada principal da cidade, entramos em uma floresta fora dos caminhos mais percorridos e seguimos para o leste, em direção a um terreno desconhecido. O reino com certeza tinha uma equipe de busca nos procurando agora, e perguntamos ao Capitão Morgan sobre as terras ao norte. Eles sem dúvida presumiriam que estávamos viajando para lá, o que significava que posicionariam soldados ao longo das estradas e enviariam mensageiros rápidos à frente para colocar cartazes de procurados em todas as cidades.

Porém ouvi dizer que havia um desfiladeiro a leste da capital, sem estradas principais que levassem diretamente a ele, então seguimos para lá. E, eis que, enquanto atravessávamos a floresta, nos deparamos com um desfiladeiro... Não era quase vertical, embora fosse bastante íngreme, com um grande rio correndo no meio. Lá, levei meus companheiros em um curto voo para o outro lado, cortesia de um feitiço de Levitação. Assim, mesmo que nossos perseguidores estivessem usando cães para rastrear nosso cheiro, eles nos perderiam no desfiladeiro. Depois, continuamos viajando para o leste até que os primeiros tons da noite começaram a aparecer. Decidimos então parar para passar a noite no próximo rio que encontrássemos, nos fartar de peixe fresco e dormir sob as estrelas.

“A propósito...” estávamos sentados entre as árvores à beira do rio quando me virei para Ran. “Primeiro, desculpe por te envolver em toda essa confusão.”

“Sem problemas!”

“Isso foi rápido! Você entende a situação em que nos encontramos aqui, Ran?”

“Acho que sim!”

Caramba, isso foi rápido demais... Ela nunca pensa duas vezes antes de agir? Não tinha certeza se era só a sua personalidade ou se era o jeito que falava que a fazia parecer assim.

“Quer dizer... Para ser franca, Luzilte deve vir atrás de você de agora em diante também.”

“Com certeza!”

“Hmm...” cocei a lateral da cabeça, mas decidi deixar para lá por enquanto. “Certo, então... Agora, quanto ao nosso próximo passo, gostaria de saber como você se sente, Ran. Quer continuar viajando conosco por um tempo ou se separar?”

“Com...” Ran começou a dizer com um sorriso radiante e levantando a mão esquerda, porém a interrompi.

“Espera aí, droga! Por favor, pare de responder perguntas baseadas em puro instinto reptiliano! Primeiro, digamos que venha conosco. Prometo que faremos o possível para tirá-la deste reino sã e salva, contudo se nossos perseguidores nos pegarem no caminho, com certeza vão presumir que está em conluio conosco. Por outro lado, digamos que sigamos caminhos separados. É muito menos provável que eles a encontrem se estiver sozinha, já que somos nós que estão buscando. O problema é que, se a encontrarem e não conseguir se safar com a sua lábia, terá que fugir sozinha. Então, tendo tudo isto em mente, o que fará?”

“Ficarei com vocês!”

Será que... Ela sequer considerou isso a sério?

Enquanto eu a observava com desconfiança, Ran continuou, com seu sorriso desleixado inalterado.

“Se eu for com vocês, sempre posso dizer ‘vamos nos separar depois’, no entanto se nos separarmos agora, acabou.”

“Espera, você realmente pensou um mínimo?”

“Ouço isso direto!”

“Ok, então acho que vamos ficar juntos por mais um tempo. Quando chegarmos ao próximo reino, nossos perseguidores não poderão se mover como bem entenderem, então Gourry e eu faremos o possível para ajudá-la até lá. Entretanto se decidir se separar em algum momento, é só dizer.”

“Obrigada! Mas Nissy Lina...” Ran começou com um tom brincalhão e um olhar travesso. “Você disse que vai para casa, todavia se consegue usar uma magia tão poderosa que faz um reino inteiro te perseguir, por que não cria seu próprio país aqui?”

“Ahaha. Nem pensar!” respondi, acenando com a mão em sinal de desdém. “Não conseguiria fazer tal coisa, e mesmo se conseguisse, seria uma baita dor de cabeça. É do meu feitio ignorar os problemas que aparecem... E depois ir atrás da origem do problema e garantir que este nunca mais cause problemas. Não causo confusão porque gosto.”

“Uhhh...” por algum motivo, Gourry, que estava sentado em frente a Ran, parecia cético.

Eu me virei beeeem devagar para encará-lo.

“Hmmmm?”

Porém a ameaça que eu exalava não intimidou o grandalhão nem um pouco. Ele apenas suspirou e respondeu.

“Tá bom, entendi. Você diz para si mesma que não gosta. Contudo é por isso que as coisas passam por você, por pura repulsa, sabe?”

“Não diga ‘pura repulsa’!”

“Pura repulsa?” Ran inclinou a cabeça, sem entender a referência.

“Ah, enfim...” limpei a garganta e disse. “Passaremos a noite aqui e continuaremos para o leste amanhã. Em algum ponto chegaremos a uma vila ou cidade, e se houver uma rota para o norte a partir dali, provavelmente a seguiremos. No entanto há algo que precisamos resolver antes de chegarmos lá.”

“O quê?” perguntou Ran.

Assenti firmemente e respondi: “Disfarces.”

———

Casas alinhavam-se ao longo de uma estrada norte-sul, tendo as montanhas como pano de fundo. Atrás delas, campos retangulares esculpidos nas suaves encostas, e atrás destes, fileiras de árvores bem cuidadas. Não tinha certeza, pois não estavam frutificando no momento, contudo, a julgar pelas folhas, pareciam laranjeiras.

Já era final da manhã do dia seguinte à nossa fuga de Palbathos. Tínhamos chegado à estrada que levava à cidade pelo norte e a seguimos para o sul, em direção à civilização.

“Olá!” cumprimentei alegremente os moradores que cultivavam os campos.

Os moradores nos encararam. Por um instante, pareceram desconfiados. O que era compreensível, considerando nossas roupas.

Cartazes de procurados deviam começar a circular em breve, mesmo tão longe. Esses cartazes as vezes continham retratos, no entanto, na maioria das vezes, eram apenas listas de características principais. Portanto, dadas as características que provavelmente seriam listadas, um disfarce simples para nos diferenciar o suficiente resolveria o problema.

Seguindo essa lógica, eu havia removido minha capa e ombreiras. Em seguida, enrolei as ombreiras e outros equipamentos na capa, que carregava sobre o ombro com o forro para fora. Também troquei de roupa com Ran. Gourry também havia removido sua armadura característica, que carregava em um feixe na ponta do cajado de Ran. E, para finalizar, trançamos nossos cabelos em um coque em volta do pescoço. Imaginei que o penteado seria tão estranho que distrairia qualquer um de prestar muita atenção aos nossos rostos.


— Ah, olá! — respondeu um dos aldeões, um homem mais velho próximo, após uma pausa.

Nesse momento, levantei a voz e perguntei.

— Esta é a Vila Midalka?

Ele hesitou por um instante antes de responder.

— Como é?

— Perguntei se esta é Midalka.

O velho ficou em silêncio por um longo tempo e então disse.

— Não, esta é a Vila Musgo.

— Hã? — exclamei. Fiz questão de tirar um pergaminho do bolso do peito, juntei-me a Gourry e Ran e comecei a cochichar com eles. Obviamente, só estava fingindo estar perdida. “Midalka” era um nome que inventei, e já tinha discutido essa pequena encenação com Ran e Gourry antes.

Depois de fingir que estava conversando, cocei a cabeça e me virei para o homem.

“Vila Musgo, hein? Tem certeza?”

“Quase certeza!” respondeu ele, cético.

Olhei para o rolo de pergaminho (em branco) em minha mão.

“Hmm. Que estranho... Onde estamos, então? Hein...?” fingi estar confusa por um bom tempo. “Nesse caso... Será que saberia como chegar a Midalka?”

“Receio que nunca ouvi falar.”

“Hein?” inclinei a cabeça e finalmente apontei para o sul. “Hmm... Ok, se não se importa que eu pergunte, qual o nome da próxima vila?”

“Você chegará primeiro à Vila Danalov, depois à Vila Lanase. Depois disso fica Ladamount, e se seguir para sudoeste no cruzamento, pegar uma bifurcação, seguir pelo caminho da direita, atravessar uma ponte e chegar à estrada, estará a caminho da capital, Palbathos.”

Não havia rota direta para o leste a partir de Palbathos, então pelo visto era preciso fazer um longo desvio para o sul se quisesse chegar à estrada principal que levava para lá.

Murmurei e desta vez apontei para a estrada ao norte.

“E por ali?”

“As cidades de Analov e Alibaro, e depois delas, uma cidade relativamente grande chamada Lanoma.” respondeu o senhor, prestativo e sem reservas.

Gourry, Ran e eu nos reunimos e começamos a discutir outra vez... Ou fingimos.

“Tudo bem!” falei, enfim me virando para o velho. “Acho que vamos para... Palbathos, não é? Oh, mas primeiro, você tem comida e roupas aqui para nos dar? Os suprimentos serão mais caros na capital, não é?”

Claro, não havia a menor chance de estarmos voltando para Palbathos, porém revelar essa informação significava que, se alguém chegasse à cidade perguntando sobre estranhos de passagem, os moradores diriam que estávamos indo para o sul, rumo à capital. Esperava-se que isto os despistasse. Naturalmente, sairíamos pela estrada sul para manter as aparências, depois deixaríamos o caminho principal e voltaríamos para o norte.

A meu pedido, o homem riu.

“Já estive na capital antes, e tudo lá é muito caro mesmo. Então, deixe-me mostrar-lhe uma boa loja. Posso garantir que os preços são razoáveis ​, só não espere encontrar conjuntos combinando.”

“Obrigada! Você é uma grande ajuda!” fiz uma reverência ao homem.

E foi assim que conseguimos alguns mantimentos para o futuro próximo e disfarces ainda melhores.

———

Vigas manchadas de preto pela fuligem. Mesas escuras e brilhantes pelo uso, contudo claramente bem cuidadas e lisas ao toque. Lâmpadas penduradas no teto. E uma casa com cerca de oitenta por cento de ocupação.

“Desculpe a demora! Tenho uma salada quente, patê de pato vermelho e frango preto tradicional cozido no vapor com molho cremoso de melão de inverno!”

“Maravilha!”

Enquanto a garçonete enchia a mesa com os pratos, Ran, Gourry e eu soltamos um coro de agradecimento.

O peixe fresco, grelhado no sal, não era ruim, no entanto nada se comparava a uma refeição completa. Tínhamos comido bem em Palbathos... Entretanto as opções deste restaurante eram quase exageradas. A variedade de cores nos pratos e na comida, o equilíbrio dos diversos vegetais e os vasos com flores comestíveis nas mesas, como toque especial, davam ao lugar um brilho que era fácil de perceber mesmo sob a luz fraca dos candeeiros.

“Bem, então...”

“Vamos comer!”

Facas e garfos brilharam enquanto levávamos a comida à boca.

Wow, que delícia! Normalmente, vegetais coloridos e guarnições não acrescentavam sabor e atrapalhavam a sensação na boca, então eu os dispensava... Mas não neste lugar. Até as pétalas de flores comestíveis, que supus estarem ali apenas para decoração, adicionavam um aroma doce e um leve toque amargo quando comidas com a comida.

Bem impressionante, na verdade... Me empolguei tanto que, quando finalmente paramos para respirar, a comida tinha acabado. Uh-oh. Esquecemos da nossa reunião de planejamento! Então pedimos algumas bebidas para acompanhar o jantar, e...

“Ok, vamos conversar sobre os próximos passos.” falei, tomando um gole de algo chamado suco natall que a garçonete tinha acabado de me trazer. Tinha um sabor parecido com pêssego e um aroma revigorante, e não era doce demais nem tinha um gosto residual muito forte. Porém, sabor à parte... “Acho que vamos continuar indo para o norte por enquanto.”

Mais cedo naquele dia, depois de conseguirmos comida e roupas na Vila Musgo, escapamos para o sul como planejado e, de lá, seguimos para o norte através de outra floresta desconhecida. Por fim, chegamos à cidade de Lanoma que o velho havia mencionado. Era mais ou menos do tamanho de Maricida, onde tínhamos parado antes, contudo este lugar tinha prédios maiores. A pousada que escolhemos tinha três andares.

Obviamente, tínhamos nos disfarçado antes de entrar na cidade. Estávamos vestidos com as roupas que tínhamos pegado em Musgo, e eu tinha meu cabelo preso em duas tranças, enquanto o de Gourry estava em um rabo de cavalo e o de Ran em dois coques. Gourry e eu estávamos com o visual completo de viajantes, no entanto Ran, que já estava vestida como uma garota fugindo de casa... Ainda parecia a mesma. Mesmo assim, tínhamos mudado as coisas o suficiente para enganar qualquer perseguidor que não nos reconhecesse à primeira vista.

Bem, também era possível que ninguém estivesse atrás de nós, afinal, e que apenas tivesse me esforçando à toa... Entretanto era um risco que estava disposta a correr. Era melhor do que baixar a guarda e correr o risco de sermos cercados. Nossos disfarces dissipariam a maioria das suspeitas e, paradoxalmente, agir com tanta ousadia nos permitiria nos misturar melhor.

E assim, chegamos sem qualquer descaro a esta cidade, alugamos um quarto em uma pousada, perguntamos se havia algum lugar bom para comer por perto e chegamos aqui, também sem qualquer descaro. Obrigada pela recomendação, senhor estalajadeiro! Que achado! Em circunstâncias normais, teria pedido mais e tentado experimentar todo o cardápio, só que...

“É óbvio, não podemos nos dar ao luxo de chamar muita atenção!” eu disse, em parte como um lembrete para mim mesma.

Seria muito triste se acabasse nos denunciando por ter sido descuidada com a comida. Ser descuidada com a minha magia também estava fora de cogitação. Todavia, por outro lado, contanto que mantivesse a cabeça no lugar e mudasse meu disfarce de vez em quando, é provável que conseguiríamos sair dessa. Ainda não tinha ideia de como voltaríamos para casa, mas conseguiríamos sair do país sem muita dificuldade. Pelo menos, era o que pensava.

Ah, como fui ingênua...

———

O céu estava brilhante, com lua cheia e estrelas, quando saímos do restaurante.

Eu havia lido uma vez, em algum registro antigo, há muito tempo, que as estrelas pareciam diferentes em diferentes partes do mundo. Não dizia exatamente como, ou se era possível determinar sua localização com base nisso. Uma pena. Se tais pistas pudessem ser encontradas no céu estrelado, teriam sido muito úteis para nós.

A avenida principal de Lanoma parecia ficar mais populosa ao pôr do sol. Muitas pessoas estavam comendo ou bebendo. Não havia postes de luz, porém havia lojas por toda parte com lanternas penduradas na frente. Algumas tinham cinco ou seis, e outras, dez ou mais. Talvez fosse uma estratégia para tornar as lojas mais convidativas para os clientes, contudo estou um pouco preocupada com o risco de incêndio. Algumas soltavam muita fumaça preta, talvez alimentada por óleo de má qualidade.

De qualquer forma, graças a todas as lanternas, não tivemos dificuldade em encontrar o caminho enquanto caminhávamos. Ao mesmo tempo, a avenida principal brilhantemente iluminada fazia com que os becos ramificados parecessem muito mais escuros e ameaçadores.

Nossa pousada ficava a uma curta caminhada pela avenida principal do restaurante onde jantamos. Quando voltamos, chamei o senhor da recepção, peguei as chaves dos nossos quartos e...

“Diga, senhor, vamos passar a noite lá em cima. Poderia me emprestar uma lanterna?”

O velho hesitou por um instante e então disse.

“Ah. Claro.” pegando uma lâmpada da prateleira atrás dele, acendeu-a com a luz do abajur da sua mesa e me entregou.

Com a lâmpada em mãos, me virei para Ran e Gourry.

“Certo, vocês dois, se importariam de vir ao meu quarto? Precisamos conversar um pouco.”

“Claro.”

“Ok!”

E então subimos todos para o terceiro andar. Havia lâmpadas fracas iluminando as escadas e os corredores, no entanto os quartos individuais não tinham luzes próprias como medida de prevenção de incêndio. O esquema era o seguinte: se você realmente precisasse de luz, poderia pegar uma emprestada na recepção.

Destranquei a porta do meu quarto, coloquei a lâmpada lá dentro, arrumei minhas coisas e voltei correndo para o corredor. Então observei Gourry fazer o mesmo no quarto ao lado do meu e Ran no quarto em frente. Apontei silenciosamente para o quarto de Ran, e eles assentiram em concordância silenciosa. Gourry e eu fechamos nossas portas e nós três fomos para o quarto de Ran. Depois de esperar um pouco para que nossos olhos se acostumassem à escuridão...

“Hora de ir embora, né?” perguntei em um sussurro. Vi duas silhuetas assentirem em resposta.

Nossos perseguidores haviam chegado. Durante todo o caminho do restaurante até a pousada, senti algo espreitando por perto, nos observando. Isto, combinado com a atitude do velho recepcionista quando voltamos, me disse que estávamos sob ameaça. Gourry e eu estávamos acostumados com essas coisas, é claro, entretanto fiquei um pouco surpresa com a rapidez com que Ran, que parecia tão distraída, percebeu a situação.

Não sabia como os perseguidores nos encontraram, todavia queria fugir mais do que queria uma resposta para essa pergunta. Se estavam observando meu quarto do lado de fora da pousada, a luz do lampião agora era visível através da pequena fresta na minha janela. Esperava que eles se concentrassem nisso, mas...

Recitei um feitiço baixinho e abri a janela de Ran para a noite lá fora. Peguei a mão dela e a de Gourry, e sussurrei.

“Levitação!”

Flutuamos para fora da janela, no ar noturno. O céu acima brilhava com a lua e as estrelas, e as ruas abaixo estavam inundadas pela luz das diversas vitrines. Flutuamos sobre o telhado, até que...

“?”

Acho que nós três percebemos isso simultaneamente. No telhado de uma casa próxima, uma figura encapuzada estava de pé, como se bloqueasse nosso caminho. Seu manto era tão escuro que não conseguia distinguir sua tonalidade específica na escuridão da noite. O capuz cobria os olhos e, abaixo dele, uma máscara cobria o rosto. Não consegui discernir sua idade ou gênero, porém era evidente que aquele encontro não era mera coincidência.


Teria sido difícil reagir rapidamente enquanto usava Levitação, então cancelei o feitiço e... No instante em que o fiz, a figura de manto disparou uma lança de luz em minha direção! Por sorte, como havia acabado de descer para o telhado em vez de ficar suspensa na ar, ela passou por cima da minha cabeça. Bwoosh! Atingiu o prédio atrás de mim, a parede da estalagem, estilhaçando-a explosivamente!

Espere, aquilo era um feitiço de ataque? Não imaginava que alguém aqui soubesse usar esses... Tinha um monte de perguntas sobre a identidade do conjurador, mas agora não era hora para uma entrevista.

Enquanto murmurava um encantamento, corri pelo telhado em direção à figura de manto. Gourry correu para a minha direita, ganhando velocidade à medida que me ultrapassava.

“...!”

Ouvi uma voz masculina desconhecida flutuando na brisa noturna... Presumivelmente a figura de manto entoando algum tipo de feitiço. Uma esfera de iluminação, como a luz de uma lâmpada, apareceu diante dele, na altura dos meus olhos. Então, a magia se dividiu em cinco esferas, rumando em direção ao Gourry!

Um ataque em área contra alguém correndo em uma superfície irregular como um telhado era uma péssima ideia. Porém Gourry desviou de cada esfera com a mesma facilidade com que saltaria por um campo, diminuindo em instantes a distância até o conjurador. Ele desembainhou a espada assim que se aproximou...

Contudo o homem de manto saltou... Não, voou! Planou para cima, sua velocidade aumentando a cada salto, e parou no ar, fora do alcance da espada.

Usar uma magia de voo logo após uma magia de ataque? Isso foi rápido demais para um encantamento... Ou será que tem um aliado por perto que a conjurou no seu lugar?

A figura de manto no ar olhou para Gourry, que havia parado. Então...

“Ainda não acabou!” Ran saiu correndo! “Todo mundo sabe...” ela se posicionou bem embaixo do homem de manto. “Que cajados...” ela ergueu o cajado com as duas mãos. “São mais compridos que espadas!” no entanto não alcançou.

“Heh!” zombou o homem. Todavia, naquele instante... Whom? O homem de manto foi arremessado para cima!

“Gwuh!” um grito escapou de sua garganta enquanto voava.

Não tinha ideia do que Ran tinha feito, mas...

“Agora é a nossa chance de fugir!” gritei, correndo pelo telhado e pulando de um ponto aleatório. Gourry e Ran fizeram o mesmo.

O homem de manto, ainda pairando acima, murmurou algo...

Outro encantamento? Enquanto continua controlando seu feitiço de voo?

No instante seguinte, cinco bolas de fogo apareceram ao seu redor.

Esse cara está falando sério? Estamos no meio de uma cidade!

Ainda que estivesse blefando, eu tinha que fingir que não estava... Sendo assim, lancei meu feitiço.

“Flecha Congelante!”

As dez flechas de gelo que produzi voaram direto para o homem de manto acima de nós. Em resposta, este lançou suas bolas de fogo. Uma delas colidiu com um raio gélido e... Fwooom! Um inferno se alastrou pelo céu noturno! Um instante depois, as outras bolas de fogo fizeram o mesmo perto de mim! Babababwoom! Chamas correram pelas paredes e telhado de madeira.

Essas não eram como as Bolas de Fogo que eu conhecia, que explodiam ao impacto; eram mais como bolas de fogo literais. Não tinham o poder de reduzir instantaneamente a cinzas tudo o que atingiam, porém com certeza fizeram um ótimo trabalho incendiando as casas de madeira! Tenho que comentar... Se ele as lançou para contra-atacar minha Flecha Congelante, sua mira era péssima.

Saí correndo por um beco lateral com Gourry e Ran atrás de mim. Não houve nenhum ataque subsequente do homem de manto. Como suspeitava, o brilho do incêndio que havia iniciado tornou impossível para ele nos rastrear através da penumbra das ruas secundárias.

E assim continuamos nossa fuga pela cidade envolta na noite.

———

No fim, conseguimos sair sem nenhum sinal de perseguição.

O amanhecer surgiu sobre a terra desconhecida na manhã seguinte. Com o nascer do sol, os pássaros... Ou pelo menos, o que presumi serem pássaros... Começaram a cantar. A princípio, pensei que soassem como os de casa, contudo quando ouvi com mais atenção, seus cantos eram diferentes do que conheço. Alguns soavam como cacarejos sinistros... O que diabos fazia aquele barulho?

Após a confusão da noite anterior e nossa subsequente fuga, nós três fomos obrigados a acampar na floresta. Tínhamos aproveitado uma refeição deliciosa durante nossa curta estadia em Lanoma, no entanto agora estávamos sem o dinheiro da hospedagem de três quartos para a noite (pagos antecipadamente). Mais uma vez, nos viramos para o café da manhã com as rações que tínhamos conseguido em na Vila Musgo.

Os biscoitos... Ou melhor, o que nos venderam como biscoitos... Eram duas vezes mais duros e metade do sabor que se esperaria ao ouvir essa palavra. Entretanto, ei, eram muito baratos, então não ia reclamar. Conseguíamos engoli-los com um pouco de água fervida do rio próximo, mas era menos uma boa refeição matinal e mais um suplemento alimentar. Não que tivéssemos muitas outras opções nessas circunstâncias.

“Agora...” depois de terminar o café da manhã, soltei um suspiro antes de me dirigir aos meus dois companheiros. “Depois de todo esse trabalho para nos disfarçarmos e ficarmos fora dos caminhos mais percorridos... É um mistério como nossos perseguidores nos encontraram.”

Tínhamos tomado tantas precauções, e mesmo assim fomos descobertos com tanta facilidade. Enquanto não soubéssemos como eles o tinham feito, a mesma coisa continuaria acontecendo.

“Como nos encontraram, hein?” Gourry fez um grande show de contemplação sobre o assunto, depois disse. “O que você acha, Lina?”

“Já jogou a responsabilidade pra mim, hein? Você estava só fingindo que estava pensando, Gourry?”

“Claro que não. Eu me perguntei: ‘Se pensar bem, vou chegar a uma conclusão?’ E a resposta foi ‘de jeito nenhum’. Então resolvi te perguntar.”

“É isso que significa não pensar!”

Nesse momento, Ran alegremente levantou a mão direita, ainda segurando seu cajado protetoramente na esquerda.

“Ooh! Eu, eu, eu!”

“Manda ver, Ran!” falei, chamando-a.

“Ok!” ela se levantou num pulo, em posição de sentido, e proclamou. “Suspeito de mim!”

“Hã?” Gourry e eu exclamamos em uníssono com sua interpretação inesperada.

“Por quê?” não pude deixar de perguntar.

“Bem, Nissy Lina e Rostir Gourry já se conheciam. O que faz que reste só eu! Provavelmente a culpada, né?” ela respondeu cheia de ânimo (por algum motivo).

“Entendi...”

“Além do mais...”

“Tem mais?”

“O fato de admitir que pareço suspeita pode ser uma estratégia para desviar as suspeitas de mim! Oooooh, que esperta!”

“Justo.” respondi.

Nesse momento, suas bochechas inflaram, emburrada.

“Você não está me levando a sério, Nissy Lina!”

Resmunguei, exausta.

A verdade era... É, tudo bem. Ran admitir que estava desconfiada poderia ter sido um plano para desviar as suspeitas. Ela parecia meio boba às vezes, porém talvez fosse para esconder sua inteligência. Para ser honesta, não a considerava uma boa espiã. Se trabalhasse para o Reino de Luzilte, significava que estava sob ordens de alguém que já tínhamos conhecido antes de encontrá-la... Em outras palavras, Bronco da Cidade de Maricida ou um de seus compatriotas. Contudo se fosse esse o caso, suas habilidades mágicas a tornariam uma escolha óbvia para a missão deles de investigar e eliminar o que quer que tivesse derrotado os bandidos. Além disso, mesmo que Ran fosse a espiã, ainda não tinha ideia de como estava contatando nossos perseguidores. No entanto não quer dizer que confio incondicionalmente.

Soltei um suspiro suave.

“Bem, vou te manter como suspeita.”

“Tá bom!” Ran assentiu, satisfeita. Não tinha certeza do porquê de tanta satisfação.

Enfim, deixando-a de lado... No reino interior, onde as técnicas mágicas eram amplamente estudadas, era possível marcar um item mágico e rastrear sua localização do plano astral. Entretanto aqui fora, era difícil acreditar que alguém soubesse como fazê-lo. Por outro lado, era bastante possível que eles tivessem feitiços que eu desconhecia. Falando nisso...

“Agora que lembrei, Ran... Ontem à noite, qual era aquele feitiço que você usou para dar uma boa pancada no cara de manto?” perguntei.

Ran piscou, confusa.

“Ah, não te contei? Um elfo me ensinou.”

“Hã? Pensei que fosse um feitiço para estender um salto...” lembrei de tê-la visto usá-lo para pular a bordo do barco.

“O quê? Ahhh...” ela sorriu, parecendo perceber. “É o mesmo feitiço.”

“É?” franzi a testa. Ambos eram feitiços de vento, talvez... Um usando o vento para te levar mais longe e o outro para empurrar o oponente para longe... Todavia dizer que eram a mesma coisa seria um exagero.

“Sim, é o mesmo feitiço! Vou conjurá-lo aqui agora.” Ran começou a entoar o feitiço.

A magia exigia uma combinação de palavras caóticas para invocar o poder de forças sobrenaturais... Pelo visto, era a mesma coisa tanto nas terras internas quanto nas externas, e não detectei nenhuma diferença dialetal entre o que Ran usava e o que conheço. Espera... Hmm? Enquanto entoava o feitiço, agarrou um punhado de grama na mão direita e o jogou por cima da cabeça.

“Sopro de Vento!”

Quando Ran pronunciou as palavras de poder, a grama que havia jogado, em vez de ser levada pelo vento ou cair no chão, começou a flutuar levemente ao seu redor.

“Viu?” Ran agarrou minha mão sem cerimônia e passou o braço em volta dos meus ombros. Não senti nenhuma brisa nem nada, porém a grama que flutuava ao seu redor mudou de direção conforme se movia.


“Agora veja só...” Ran me soltou, virou-se para uma árvore distante e estendeu seu cajado. A árvore estava longe demais para conseguir atingir, contudo naquele instante, a grama que flutuava ao redor de repente se espalhou. Fluindo sobre seu cajado estendido, avançou em direção ao tronco da árvore alvo e...

Whoom! O tronco tremeu de forma audível com o vento, o impacto fazendo as folhas farfalharem e caírem.

“Isso faz o vento me ajudar de várias maneiras boas!”

“Espere, espere. Um minuto aí!” interrompi. Ouvi suas palavras caóticas. E entendia os princípios mágicos em jogo ali... O que tornava o que eu estava vendo ainda mais desconcertante para mim. “Te ajudar de várias maneiras boas? Esse feitiço... Você se envolve no vento, que pode usar para acelerar, atacar ou se defender, dependendo da situação?”

“Siiim!”

“Espere, espere, espere um maldito minuto...” um único feitiço para ataque, defesa ou suporte, tudo baseado na vontade do usuário no momento? Como é possível? Feitiços normais manifestavam poder para um único fim simples, ou costumavam combinar dois ou três fins simples para um efeito mais complexo.

Pegue Flecha Flamejante, por exemplo. Você conjura fogo e o envia voando. Simples. E combinar tipos de poder e comandos... Como ‘crie uma barreira contra o vento soprando para trás para nos impulsionar’ e ‘crie sustentação para nos repelir do chão’... Resulta em uma magia como meu feitiço de voo em alta velocidade, Lei Asa. No entanto, quantos elementos teriam que ser combinados para obter um feitiço que ‘ajuda de muitas maneiras boas’? Era impensável. Incluir todas essas instruções detalhadas resultaria em um encantamento infernal, no mínimo, entretanto o de Ran sequer era muito longo. O que deveria ter sido a parte mais longa foi substituída por uma única frase...

“Ran! Havia uma parte do seu encantamento que dizia ‘com a guarda do Dragão do Céu, aquele que é um fragmento do Verdadeiro Dragão’. Significa que... Seu feitiço pega emprestado o poder do Lorde do Ar?”

O Lorde do Ar Valwin era um dos quatro Lordes Dragões nos quais o Dragão Flamejante Ceeifed havia dividido seu poder. As terras interiores estavam isoladas do Lorde da Terra, do Lorde das Chamas e do Lorde do Ar, então a magia que os invocava era estranha para nós. Todavia, pensando bem... Ela se encaixaria perfeitamente aqui nas terras exteriores!

“Sim!” Ran respondeu prontamente.

Como feiticeira, estava louca para saber mais!

“Ran! Me ensine esse feitiço!” implorei mais do que animada, movida por pura curiosidade.

“Hmm...” com uma expressão séria, Ran respondeu.

“Tá bom... Mas o elfo que me ensinou disse que a afinidade importa muito na hora de usar... E quando tentar pela primeira vez, vai ficar super confusa, não importa o quê.”

“Confusa?” repeti, sem entender o que queria dizer.

Ela assentiu.

“Sim. Quando conjura o feitiço e pensa ‘Quero correr muito rápido’, o vento começa a te empurrar.”

“Sério? Sério mesmo?”

“Se seus pés não conseguirem acompanhar e cair, o vento vai te esmagar no chão.”

“O quê?”

“Então é muito confuso!”

“É mais do que apenas ‘confuso’!”

“Talvez, sim. Foi super difícil para mim no começo!”

Fico me perguntando... Será que esse feitiço era na verdade inútil? Também tinha algumas perguntas para o elfo que decidiu ensiná-lo para a distraída Ran. Adoraria conhecê-lo. Era impressionante que Ran tivesse aprendido a usar o feitiço tão bem, mas não estava me sentindo muito à vontade para tentar eu mesma nessas circunstâncias.

“Bem, poderia me ensinar a forma do feitiço, pelo menos? Suspeito que será pior do que ‘confuso’ para mim se eu errar, então é provável que não vou usá-lo, porém gostaria de estudá-lo.”

“Claro. Vamos ver...”

“Ah, hmm, não agora. Assim que as coisas se acalmarem um pouco. Por enquanto, acho que devemos ir embora.”

Foi o que sugeri, contudo...

“Ooh! Eu, eu, eu!” Ran levantou a mão outra vez.

“Sim, Ran?”

“Ainda não descobrimos como nossos perseguidores nos encontraram!”

“É verdade, no entanto por mais que deteste dizer... Quando você dedica toda a sua energia mental a uma pergunta e segue sem encontrar uma resposta, significa que é hora de seguir em frente. Ficar muito preso tentando descobrir as coisas pode ser contraproducente.”

Afinal, era possível que nossos perseguidores tivessem nos encontrado por pura sorte. A maioria dos homens que participaram da conquista do Lorde das Trevas do Norte (versão ruim) usava capacetes, então é possível que me reconhecessem quando eu não os podia reconhecer. Talvez tivéssemos acabado de cruzar com um desses caras em Lanoma.

“Então, para onde vamos?” perguntou Ran.

Refleti sobre algumas coisas e respondi.

“Poderíamos ir para o leste ou oeste por um tempo... No entanto acho que nos encontrarão mais cedo ou mais tarde, sendo assim, então é melhor irmos direto para o norte. Prefiro evitar grandes problemas, entretanto estou disposta a usar a força bruta se nos tirar deste reino.”

“Recorrendo à força como sempre, hein?” disse Gourry com um suspiro.

“Ah, qual é. Tudo o que estou dizendo é que o mundo não se resume a inteligência ou força bruta, e sim ao equilíbrio entre inteligência e força bruta. Não é verdade?” falei, caminhando até Gourry e ficando cara a cara com ele.

“Er... Hmm... Quer dizer...” disse Gourry, estremecendo em resposta.

“Encontrar esse equilíbrio é outra aplicação da inteligência. Se pensar bem e perceber que a força bruta é o caminho a seguir, você usa a força bruta.”

“Aha. Então a força bruta é a verdadeira manobra de gênio!”

“Não, não foi bem isso que acabei de dizer... Tanto faz. Vamos embora.”

“Certo!” Gourry e Ran responderam em uníssono.

———

O céu estava azul. As nuvens, brancas. Os biscoitos, duros.

“Duros.”

“Muito duros.”

“É meio assustador.”

Nós três estávamos sentados em meio à pradaria varrida pelo vento, mastigando nossos biscoitos ultra-duros. Fazia quatro dias desde o ataque em Lanoma. E, por mais surpreendente que fosse, ainda não tínhamos visto nenhum sinal de perseguidores.

A princípio, imaginei que, se continuássemos seguindo a estrada principal para o norte, eles nos alcançariam em pouco tempo. Lutaríamos... Não o suficiente para matar ninguém, mas o suficiente para fazê-los recuar. Então, os caras que derrotamos correriam para casa e nos reportariam, todavia mesmo que formassem um novo grupo para nos perseguir, levaria um tempo para nos alcançarem de novo. Porém, poderíamos seguir direto para o norte ou fazer um desvio. E repetir o processo até chegarmos à fronteira.

Esse era o plano, contudo até então tínhamos saído ilesos. Era possível que ainda estivéssemos sendo seguidos e que nossos perseguidores estivessem apenas esperando que baixássemos a guarda. Sendo assim, com essa ideia em mente, decidimos tranquilamente passar a noite em uma pousada... No entanto nada aconteceu.

Dessa forma, nossa jornada continuou até chegarmos a uma pequena vila chamada Renihorn. A cidade anterior havia estabelecido um precedente para boa comida, só que era um pouco cedo demais para comer quando chegamos lá e não tínhamos dinheiro para passear até a hora do almoço. Nesse caso, decidimos continuar até a próxima vila. Chegamos a Renihorn por volta do meio-dia, e logo descobrimos que nenhum lugar na cidade oferecia uma refeição decente. Sem muitas outras opções, compramos algumas rações em uma lojinha improvisada e agora estávamos jantando aquela refeição sem graça nos campos fora da vila.

“Lina, experimente um pouco dessa carne seca também. É dura.” ofereceu Gourry.

“Você disse tudo. Essa comida pode não encher o estômago, mas pelo menos enche o coração.”

“Nissy Lina, acho que é azia.”

E assim, comemos em paz e silêncio (ou talvez em silêncio e raiva) até que... Gourry se levantou sem fazer barulho.

“O que foi? Se cansou de como essa comida é pesada?” perguntei... E então ouvi. Algo estava se aproximando. Vinha do sul, e conhecia aquele som estrondoso... Eram incontáveis ​​cascos batendo na terra!

“Por aqui!” gritei, pulando de pé e correndo para a floresta próxima.

“Vamos fugir?” perguntou Gourry enquanto corria ao meu lado.

“Vamos encontrá-los aqui fora!” respondi, então me virei para Ran, que, é claro, também estava correndo conosco. “Ran, fique escondida e não atrapalhe!”

“Aw, mas...”

“Já te meti em encrenca demais! Não vou te arrastar para mais!”

Não estava nada contente com Luzilte, entretanto eles não eram um reino maligno. Não aprovava seus métodos, todavia estavam fazendo o que consideravam necessário em nome da segurança nacional. Além do mais, os cavaleiros e soldados que estavam enviando atrás de nós eram apenas caras cumprindo ordens. Eu não teria problema em me defender se arrumassem briga, porém Ran estava só nos acompanhando... Parecia errado colocá-la para chutar bundas mais ou menos inocentes.

“Então vou só observar!” ela sussurrou relutante, antes de correr obedientemente para a beira da floresta e se esconder atrás de uma árvore.

Nesse meio tempo, Gourry e eu nos viramos para encarar o que estava por vir. Quase vinte cavaleiros montados apareceram além da vila. Eles devem ter nos visto, porque o cara da frente levantou a mão e gritou.

“Parem!”

Aha. Conheço essa voz.

A cavalaria nos encarou de longe. Seria uma distância considerável para percorrer a pé, contudo um cavalo poderia fazê-lo num piscar de olhos.

“Encontrei vocês, foras da lei!” o cavaleiro à frente do esquadrão... Eu não sabia seu nome, contudo era o comandante dos Cavaleiros da Lança Prateada... Gritou em nossa direção.

Entendo. Enfim estamos recebendo o tratamento de foras da lei...

“Ouvi dizer que vocês causaram problemas em Lanoma ontem. Aterrorizaram os moradores de bom coração, sabiam? A pena por aterrorizar inocentes é severa!”

“Foi o seu assassino que causou o caos em Lanoma!” gritei de volta para o capitão furioso.

“Nosso assassino? Chega de mentiras!”

Parecia que era ele quem estava me blefando, no entanto tenho que considerar que o assassino poderia estar sob ordens de outra pessoa. Talvez o Comandante Lança Prateada de fato não soubesse de nada. De qualquer forma, é óbvio que não ia conseguir convencê-lo. O que significava que só tenho um recurso...

Recitei um feitiço baixinho.

“Essa desonestidade flagrante, numa tentativa de burlar a lei, é um mal terrível! Não teremos piedade! Cavaleiros, cerquem-nos!”

Ao seu comando, os cavaleiros começaram a se espalhar... Entretanto era tarde demais! Antes que o comandante desse a ordem, eu já havia terminado meu encantamento. Ajoelhei-me, coloquei minha mão direita no chão e liberei as palavras de poder!

“Vu Vrima!”

A terra tremeu e estremeceu. O campo onde estávamos sentados antes se agitou e inchou até que uma forma humana gigante surgiu.

Vu Vrima implorou aos espíritos da terra, chamados bephemoths, que criassem uma criatura poderosa conhecida como golem. Eles eram lentos e só conseguiam seguir ordens simples, todavia seriam úteis na situação certa. E aposto que esta era a primeira vez que os cavaleiros viam um gigante de barro se formar a partir da própria terra se deformando, porque eles logo entraram em pânico.

“O que é aquilo?”

“Um gigante?”

“Que criatura horrenda!”

“Isso não pode ser real!”

Os homens, assustados, chicotearam as rédeas, fazendo seus cavalos relincharem em confusão. Logo, meu golem... Com uma aparência bem fofa por causa da grama da qual era feito... Estava completo!

“Golem!” e então dei minha ordem! “Dance!”

Creeeeak... Obedecendo ao meu comando, o golem começou a agitar os braços e as pernas, a terra rangendo audivelmente.

Eu, bem, acho que tecnicamente era uma dança, mas não estava tão chateada com a coreografia dos bephemoths quanto comigo mesma por tê-los feito fazer aquilo. De qualquer forma, para os cavaleiros, minha criação continuava sendo uma visão de puro terror.

“Não se assustem! Mantenham suas fileiras!” o comandante elevou a voz em desespero, porém seus homens não estavam em condições de ouvi-lo.

Aproveitei o caos e...

“Flecha Congelante!”

A dúzia de flechas gélidas que disparei atingiu o grupo de cavaleiros já em pânico. Desculpem se eu acertei algum de vocês, cavalinhos bonitinhos! Gritos ecoaram, o caos se espalhou e comecei a entoar outro feitiço.

“M-Maldita seja!” o comandante me encarou, contudo não ia atacar e deixar seus homens sem líder. Além do mais, tinha Gourry ao meu lado e...

“Lina!”

Tudo aconteceu num piscar de olhos. O grito de Gourry. Um lampejo de hostilidade. Gourry saltando em minha direção, agarrando-me com os dois braços...

Bwooooosh!

E uma chama carmesim irrompendo!

Alguém havia se aproveitado do caos para lançar um feitiço de fogo contra mim pelo flanco, e Gourry, que percebeu o ataque no último segundo, me salvou. As chamas atingiram o tronco de uma árvore, chamuscando sua folhagem e a grama abaixo. Ondas de calor acariciaram minha bochecha e bagunçaram meu cabelo, contudo não estava quente o suficiente para doer.

“Obrigada, Gourry!”

Ele me colocou no chão, e olhei na direção de onde o ataque viera. Meus olhos se fixaram em uma figura de vestes vermelhas parada entre as árvores.

Aquele... É o cara da Cidade de Lanoma? Será que pretendia me pegar desprevenida enquanto estava concentrada nos cavaleiros?

“Maldito! Você tem outros aliados?” gritou o comandante, furioso, enquanto observava.

Quer dizer, aquele ataque era obviamente para mim, né? Mesmo que o Comandante Bobão tivesse interpretado mal a situação, a sua surpresa era um sinal claro de que os cavaleiros não conheciam o cara de manto. O que significava... Meu primeiro objetivo era provocar um pouco de fogo amigo!

“Gourry! Primeiro o cara de manto!”

“Certo!”

Saímos correndo atrás do cara de manto na floresta!

“Não deixem eles escaparem!”

Talvez acreditando que estávamos tentando encontrar um camarada, o comandante uivou e puxou as rédeas do cavalo. O animal ainda estava assustado demais com o golem dançante e o fogo, e se recusou a obedecer. Por fim, perdendo a paciência, o comandante desmontou e ordenou que seus homens também o fizessem.

“Sigam-me!”

À minha frente, a figura de manto vermelho. Atrás de mim, os cavaleiros que me perseguiam.

Em outras palavras, nós dois estávamos bem no meio deles! Se o homem de manto atirasse em nós e nós desviássemos, atingiria seus próprios aliados. Isso o manteria sob controle e o faria pensar duas vezes antes de...

Ele atacou?

O homem de manto produziu uma esfera de luz, da qual cinco ou seis raios irromperam e dispararam em nossa direção! Era o que havia usado em Lanoma. Sabia que era o mesmo cara! No entanto naquela vez, estávamos presos tentando nos esquivar em um telhado. Agora estávamos em terreno plano, ainda que estivesse um pouco irregular por causa da minha invocação de golem. Esquivar-nos desta vez seria moleza!

Para isso, Gourry e eu saltamos para os lados... E então ouvi os cavaleiros gritarem atrás de mim.

Então não se importa em atingir seus companheiros?

Naquele mesmo instante, senti uma nova onda de hostilidade. Reflexivamente, olhei na direção da origem e avistei uma segunda figura de manto parada entre as árvores, um pouco distante. Esta já tinha uma dúzia de lanças de luz conjuradas e prontas para serem lançadas. Será que estavam planejando me atacar enquanto desviava do ataque óbvio?

O Manto nº 2 tentou disparar... Crack! Todavia antes que pudesse, soltou um grito de dor. Ran veio correndo pela lateral e o atingiu com seu cajado. A julgar pela voz, o Manto nº 2 era uma mulher. Suas lanças de luz voaram em direções aleatórias, perfurando o chão e as árvores.

Ei, eu te disse para ficar fora disso... Mas obrigada por me salvar!

Gourry e eu trocamos olhares por um segundo, concordando tacitamente em mudar de direção para a mulher de manto.

“Lança Elemekia!”

Lancei o feitiço que pretendia usar contra o homem de manto, cuja contraparte feminina estava desequilibrada pelo ataque de Ran. A Lança Elemekia causava dano espiritual e era capaz de deixar um oponente humano comum inconsciente!

A Mulher de Manto nº 2 pareceu perceber e...

“Ngh!” ela soltou um palavrão e desviou o feitiço com a mão esquerda! Ka-zing! O golpe interrompeu meu feitiço com um som alto e estrondoso!

O quê? Para constar, ninguém só desvia uma Lança Elemekia! Só de tentar, a maioria das pessoas desmaiaria. Porém a mulher pareceu, no máximo, um pouco abalada. Talvez tivesse algum tipo de item mágico anti-feitiço equipado em seu braço, ou talvez houvesse algo mais em jogo.

Gourry acelerou o passo e diminuiu a distância até ela.

“Ei, você!”

A mulher assumiu uma postura de luta, e garanto que estava subestimando Gourry. O grandalhão avançou, saltou e cravou o cabo da espada no seu plexo solar! Quando o fez...

“O quê?”

Foi Gourry quem saltou para trás gritando! Não consegui ver o que tinha acontecido de onde estava.

“Lina!” gritou Gourry. “Eles estão...”

Antes que pudesse terminar a frase, ouvi passos estrondosos vindo em minha direção por trás. Olhei por cima do ombro e... O quê? De onde o homem de manto estava, vindo pela floresta em minha direção, estava... Um lobo?


Seria um lobo? Parecia um, contudo era do tamanho de um cavalo!

De onde veio aquela enorme besta? Mesmo entre as árvores, deveríamos tê-la visto antes! De qualquer forma, era óbvio que eu era o seu alvo. Seus olhos cheios de ódio estavam fixos em mim.

“Lina?” Gourry se virou bruscamente, no entanto não chegaria a tempo. E comparando o tamanho da besta com minha habilidade com a espada, não havia como detê-la sozinha. Nesse caso...

Quando o lobo se aproximou e mostrou as presas, em vez de correr... Deslizei de cabeça entre suas patas dianteiras! Ouvi o som de suas mandíbulas se fechando acima da minha cabeça. Suas quatro patas enormes bateram contra o chão enquanto avançava sobre mim. Enquanto me levantava rapidamente, Gourry correu até mim, com a espada em punho.

O lobo gigante mudou de direção entre as árvores com grande agilidade. Ele se virou para mim e...

“Flecha Congelante!”

Calculando o tempo certo, lancei meu feitiço! O lobo era grande demais para desviar entre as árvores.

Em vez disso, uivou... E instantaneamente um escudo de luz vermelha pálida apareceu diante da fera, destruindo minhas flechas! Um feitiço defensivo? Um dos cavaleiros deve tê-lo conjurado... Ou, a opção mais provável, o uivo do lobo o ativou.

Mas então...

“O-O que é isso?” gritou um dos cavaleiros. Ao perceberem que o golem não estava atacando, eles se recuperaram o suficiente para voltarem a se assustar com a visão do lobo gigantesco.

“De onde veio?” gritou outro, perguntando justo o que eu queria saber.

“Aquela maga! Deve tê-lo invocado com sua magia!” disse outro, este muito enganado.

Então, o lobo pareceu... Rir? Sem aviso, virou-se e avançou contra os cavaleiros.

“Está vindo!”

“Mantenham-se firmes!”

“Reajam!”

Os cavaleiros que seguiam em condições de lutar... Alguns a cavalo e outros a pé... Tentaram, hesitantes, formar fileiras. Porém antes mesmo que os dois lados fizessem contato...

“Arwoooo!” o lobo uivou de novo.

Dez rajadas de flechas flamejantes dispararam contra os cavaleiros. Seus gritos se elevaram em coro. O lobo mergulhou no caos, mordeu o braço de um cavaleiro através da armadura, arremessou-o em uma direção aleatória e, em seguida, investiu contra outro.

“Regenell!” ao ouvir a voz retumbante do homem de vestes, o lobo parou. “Não brinque comigo!”

Com essa recriminação, a grande besta chamada Regenell se distanciou dos cavaleiros, voltou-se para mim e...

“Você não vai escapar!”

Um dos cavaleiros que estava deitado perto se levantou com um rugido e cravou sua espada na lateral do lobo!

“Awoo!” o lobo uivou ao saltar para trás. Não parecia ter sido uma ferida grave, apesar de que o golpe pareceu causar alguma dor. A fera lançou um olhar furioso para o cavaleiro e...

“Hraaagh!”

Um ciclope lançou o cavaleiro para longe com um único movimento do braço!

“O quê?” gritaram os cavaleiros ao verem.

O que era totalmente compreensível. Afinal, o lobo gigante havia se transformado em um ciclope num instante. Era óbvio que não se tratava de um lobo ou ciclope comum. Essa criatura, Regenell, devia estar assumindo várias formas por meio de magia.

Enquanto tudo aquilo acontecia, Gourry, Ran e eu estávamos trabalhando juntos para derrotar a mulher de manto. Ou, pelo menos, essa provavelmente teria sido a decisão mais inteligente, mas em vez disso...

“Explosão de Cinzas!”

Whoom! A coisa negra que eu conjurara apareceu perto do ciclope. Deveria ter devorado a criatura com um só golpe... No entanto a maldita coisa desviou do meu feitiço. Era como se soubesse onde e quando aquilo se manifestaria. Não era mera coincidência. Ele havia escapado com uma facilidade absurda!

“Por quê?” o comandante gemeu ao presenciar a cena. Ele estava cambaleando de dor devido ao ataque do homem de manto, todavia ainda assim se levantou trêmulo e disse. “Vocês não são... Aliados?”

“Esses são os cretinos que nos emboscaram naquela noite em Lanoma. Presumimos que fossem os seus aliados.” respondi, meus olhos ainda fixos na dupla de mantos e no ciclope.

“Certamente que não... Mas se eles não estão do seu lado, então você não tinha motivo para interferir na nossa luta...”

Era verdade que, se os cavaleiros e as figuras de manto estivessem atrás de nós, só teríamos a ganhar com o confronto entre os dois lados. Entretanto...

“É óbvio pelo jeito que estão agindo. ‘Ei, podemos massacrar os cavaleiros e culpar a garota.’ E a ideia de eles saírem impunes me irritou, então intervi. Só isso.”

“Você... Acha que perderíamos?” o comandante estava se fazendo de durão, todavia era claro que ele e seus cavaleiros já estavam em maus lençóis. Apenas alguns seguiam em condições naquele momento para seguir lutando.

Decidi deixar esse ponto para lá e apenas gesticulei para o ciclope.

“Vocês não estão exatamente equipados para lutar contra algo assim, estão?”

“Seu objetivo é nos deixar em dívida com vocês?”

“Não.”

“Isto não mudará nossa posição em relação a você, Senhora Lina.”

“Estou bem ciente, tá bom?” respondi tão rápido que o comandante se calou.

“É, e não gosto muito de ficar de braços cruzados vendo gente má se dar bem!” disse Gourry, parado ao meu lado.

“Hmm, vejamos. Isso significa...” Ran tocou o ombro direito com o cajado, caminhou até nós e se virou para os homens de vestes. “Posso interferir com esses caras, né?”

“Sim!” respondi, fazendo um sinal de positivo com o polegar.

“Suas ações foram muito óbvias, Regenell.” disse o homem de vestes, provocando o ciclope. “Sua expressão é fácil demais de ler, mesmo como lobo.”

“Ah, cale a boca!” o ciclope, ou melhor, Regenell, que estava na forma de um ciclope, resmungou de volta.

Normalmente, ficaria surpresa em ver um ciclope falando, embora já o tinha visto se transformar em um a partir de um lobo gigante. Falar era fichinha em comparação.

Aparentando estar irritado com o golem que seguia dançando, caminhou em sua direção e o esmagou com um braço.

“Qual é o problema? Não vai mudar o que estamos fazendo. Certo, Galdorba?”

“Errado. Não é seu direito ficar brincando até terminarmos o que viemos fazer aqui.” disse o homem de manto... Galdorba.

“Tch. Pé no saco!” Regenell cuspiu as palavras.

“E daí?” respondi, voltando meus olhos para o grupo. “Quem são vocês, afinal? Espero que não seja um daqueles casos de ‘Ops, me enganei e peguei a pessoa errada, desculpe’.”

Imaginei que ignorariam meu sarcasmo, mas...

“Um engano?” respondeu Galdorba. “Não, não houve engano. Recebi uma profecia.”

“Uma profecia?” fiz uma careta.

De onde venho, existem basicamente dois tipos de ‘profecias’. As primeiras eram vislumbres legítimos do futuro recebidos pelas sacerdotisas. Nem sempre revelavam informações úteis ou relevantes, porém sempre se concretizavam. As segundas eram mais como lampejos de intuição. Eram, em sua maioria, instintivas e frequentemente se mostravam imprecisas na prática.

Então... De qual profecia esse cara estava falando?

“Sim! Uma profecia!” Galdorba declarou em voz alta e com orgulho. “‘Uma profecia na qual o próprio caos surgirá da terra selada por mazokus... E trará destruição!’.”

***

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