Capítulo 33: Das Cinzas de Asu'a
— Histórias dentro de histórias... — entoou Jarnauga, despindo-se de seu manto de pele de lobo. A luz da fogueira revelou as serpentes entrelaçadas que adornavam a pele de seus longos braços, provocando novos sussurros. — Não posso contar a história da Liga do Pergaminho sem que primeiro compreendam a queda de Asu’a. O fim do Rei Eahlstan Fiskerne, aquele que construiu a Liga como uma muralha contra as trevas, não pode ser separado do fim de Ineluki, cuja escuridão agora nos assola. Assim, as histórias são tecidas juntas, um fio sobre o outro. Se puxar um único fio, será apenas isso... Um único fio. Desafio qualquer homem a ler uma tapeçaria a partir de um único fio.
Enquanto falava, Jarnauga passou os dedos finos por sua barba emaranhada, alisando-a e arrumando seu grande comprimento como se fosse uma espécie de tapeçaria em si, e pudesse dar algum sentido à sua história.
— Muito antes de os homens chegarem a Osten Ard. — disse. — Os sitha já estavam aqui. Não há homem nem mulher que saiba quando chegaram, mas chegaram, viajando do leste, do sol nascente, até que por fim se estabeleceram nesta terra.
— Em Erkynlandia, no local onde hoje se encontra Hayholt, eles fizeram sua maior obra, o castelo Asu’a. Cavaram fundo na terra, lançando seus alicerces nos próprios ossos de Osten Ard, depois construíram muralhas de marfim, pérola e opala que se elevavam mais altas que as árvores, e torres que se erguiam contra o céu como os mastros de navios, torres de onde toda Osten Ard podia ser vista, e de onde os sitha de olhos aguçados podiam observar o grande oceano que delimitava a costa oeste.
— Por incontáveis anos, viveram sozinhos em Osten Ard, construindo suas frágeis cidades nas encostas das montanhas e nas profundezas da floresta, delicadas cidades nas colinas como flores de gelo e assentamentos na floresta como barcos presos à terra com muitas velas. Porém Asu’a foi a maior, e os longevos reis dos sitha lá governavam.
— Quando os homens chegaram pela primeira vez, eram simples pastores e pescadores, chegando por alguma ponte de terra há muito desaparecida nos ermos do norte, fugindo de alguma coisa temível atrás deles no oeste, talvez, ou talvez apenas procurando por novas pastagens. Os sitha não lhes deram mais atenção do que aos cervos ou ao gado selvagem, mesmo quando as gerações se multiplicaram e o homem começou a construir para si cidades de pedra e a forjar ferramentas e armas de bronze. Enquanto não tomassem o que era dos sitha e permanecessem nas terras que o Rei-Erl lhes havia permitido, havia paz entre os povos.
— Nem mesmo o império de Nabban, no sul, glorioso em suas artes e armas, que subjugava todos os mortais de Osten Ard sob sua longa sombra, causava nenhuma preocupação aos sitha, ou ao seu rei, Iyu’unigato.
Nesse momento, Jarnauga procurou algo para beber, e enquanto um pajem enchia um frasco para ele, os ouvintes trocaram olhares e murmúrios intrigados.
— O Doutor Morgenes me contou sobre isso. — sussurrou Simon para Binabik.
O gnomo sorriu e assentiu, embora parecesse distraído por seus próprios pensamentos.
— Não há necessidade, tenho certeza... — prosseguiu Jarnauga, elevando a voz para recapturar a atenção da multidão murmurante. — De falar sobre as mudanças que vieram com os primeiros rimmerios. Já haverá feridas antigas suficientes para serem reabertas sem precisarmos nos deter no que aconteceu quando eles atravessaram o mar, vindos do oeste.
— Mas o que precisa ser dito é sobre a marcha do Rei Fingil, vindo do norte, e a queda de Asu’a. Cinco longos séculos cobriram grande parte da história com os destroços do tempo e da ignorância, porém quando Eahlstan, o Rei Pescador, fundou nossa Liga duzentos anos atrás, foi para encontrar e preservar esse conhecimento. Portanto, há coisas que agora lhes contarei que a maioria de vocês nunca ouviu.
— Na Batalha decorrida na Batida, na Planície de Ach Samrath e em Utanwash... Em um lugar e em outro, Fingil e seus exércitos triunfaram e apertaram o cerco em torno de Asu’a. Os sitha perderam seus últimos aliados humanos no Campo de Verão, em Ach Samrath, e com os hernystiros derrotados, não havia ninguém entre os sitha que pudesse resistir ao ferro do norte.
— Derrotados pela traição! — disse o Príncipe Gwythinn, com o rosto corado e trêmulo. — Nada além da traição poderia expulsar Sinnach do campo de batalha, a corrupção dos homens dos Thrithings, apunhalando os hernystiros pelas costas na esperança de algumas migalhas da mesa sangrenta de Fingil!
— Gwythinn! — Josua rugiu. — Você ouviu Jarnauga, essas são feridas antigas. Não há nem mesmo um homem dos Thrithings presente. Você se atreveria a pular por cima da mesa e atacar o Duque Isgrimnur, já que é um rimmerio?
— Deixe que tente! — rosnou Einskaldir.
Gwythinn balançou a cabeça, envergonhado.
— Tem razão, Josua. Jarnauga, minhas desculpas.
O ancião assentiu, e o filho de Lluth se virou para Isgrimnur.
— E é claro, bom Duque, somos aqui os mais unidos aliados.
— Não me ofendi, jovem senhor. — sorriu Isgrimnur, contudo ao seu lado, Einskaldir cruzou o olhar com Gwythinn e os dois se encararam fixamente.
— Assim foi... — continuou Jarnauga, como se não tivesse havido interrupção. — Que em Asu’a, embora suas muralhas estivessem envoltas em magias antigas e poderosas, lar e coração da raça sitha, ainda havia a sensação de que as coisas estavam chegando ao fim, que os mortais ambiciosos derrubariam a casa de seus ancestrais e que os sitha desapareceriam de Osten Ard para sempre.
— Iyu’unigato, o Rei, vestiu-se todo de branco em sinal de luto e, com sua rainha Amerasu, passou os longos dias do cerco de Fingil... Que logo se tornaram meses, depois anos, pois nem mesmo o aço frio poderia destruir a obra dos sitha da noite para o dia... Ouvindo música melancólica e a poesia dos dias mais brilhantes dos sitha em Osten Ard. Do lado de fora, nos acampamentos dos nortistas sitiantes, Asu’a parecia um lugar de grande poder, envolto em glamour e feitiçaria... No entanto dentro da casca brilhante, o coração estava apodrecendo.
— Havia, no entanto, um entre os sitha que desejava o contrário e não se contentava em passar seus últimos dias lamentando a paz perdida e a inocência devastada. Ele era filho de Iyu’unigato e seu nome era... Ineluki.
Sem dizer uma palavra, apesar de não sem fazer bastante barulho, o Bispo Anodis juntou suas coisas. Acenou para seu jovem acólito, que o ajudou a se levantar.
— Com licença, Jarnauga. — disse Josua. — Bispo Anodis, por que está nos deixando? Como pode ouvir, coisas terríveis estão se movendo contra nós. Buscamos sua sabedoria e a força da Mãe Igreja para nos guiar.
Anodis ergueu o olhar, irritado.
— E eu deveria ficar aqui, no meio de um conselho de guerra que nunca aprovei, ouvindo este... Este homem selvagem pronunciando nomes de demônios pagãos? Olhem para vocês todos... Debruçando-se em suas palavras como se cada uma fosse do Livro de Aedon.
— Aqueles de quem falo nasceram muito antes do seu livro sagrado, Bispo. — disse Jarnauga suavemente, embora houvesse uma inclinação feroz e combativa em sua cabeça.
— Tudo fantasia! — resmungou Anodis. — Você me considera um velho ranzinza, mas lhe digo que tais contos infantis o levarão à perdição. Porém minha maior tristeza é que irá arrastar toda a nossa terra consigo.
Ele esboçou o sinal da Árvore à sua frente como um escudo, depois cambaleou para fora apoiado no braço do jovem sacerdote.
— Fantasia ou não, demônios ou sitha... — disse Josua, levantando-se de sua cadeira para observar a assembleia. — Este é o meu salão, e pedi a este homem que nos contasse o que sabe. Não haverá mais interrupções. — seu olhar percorreu ao redor da sala sombreada, depois sentou-se, satisfeito.
— Pois bem, vocês deveriam prestar atenção agora. — disse Jarnauga. — Pois este é o cerne da questão que trago para todos. Falo de Ineluki, filho de Iyu’unigato, o Rei-Erl.
— Ineluki, cujo nome significa ‘Fala Brilhante’ na língua sitha, era o mais novo dos dois filhos do Rei. Junto com seu irmão mais velho, Hakatri, lutou contra o dragão Hidohebhi, o Negro, mãe do Dragão vermelho Shurakai que o Preste John matou, e também mãe de Igjarjuk, o dragão branco do norte.
— Como é, Jarnauga? — um dos companheiros de Gwythinn se levantou. — Isso nos é estranho, porém talvez não seja totalmente desconhecido. Nós, hernystiros, conhecemos histórias de um dragão negro, a mãe de todos os dragões, contudo nelas ela era chamada de Drochnathair.
Jarnauga assentiu com a cabeça, como um mestre para um aluno.
— Esse era o seu nome entre os primeiros homens do oeste, muito antes de Hern construir o Taig em Hernysadharc. Assim, fragmentos de verdades antigas sobrevivem nas histórias que as crianças ouvem em suas camas, ou que soldados e caçadores compartilham ao redor de uma fogueira. No entanto Hidohebhi era seu nome sitha, e foi mais poderosa do que qualquer um de seus filhos. Ao matá-la, o que por si só se tornou uma longa e famosa história, o irmão de Ineluki, Hakatri, foi horrivelmente ferido, queimado pelos terríveis fogos do verme. Não havia cura para seus ferimentos ou para a dor interminável em toda Osten Ard, entretanto ele também não morreu. No fim, o Rei o colocou em um barco com seu servo mais confiável, e eles partiram pelo oceano em direção ao oeste, onde os sitha esperavam que houvesse uma terra além do pôr do sol, um lugar sem dor, onde Hakatri pudesse se curar por completo.
— Assim, Ineluki, apesar do grande feito de matar Hidohebhi, tornou-se o herdeiro de seu pai sob a sombra da queda de Hakatri. Culpando-se, talvez, passou longos anos em busca de conhecimento que provavelmente deveria ter sido proibido tanto para homens quanto para os sitha. A princípio, pode ter pensado que poderia curar seu irmão, trazê-lo de volta do oeste inexplorado... Contudo, como acontece com todas essas buscas, logo a busca se tornou sua própria razão e recompensa, e Ineluki, cuja beleza outrora fora a música silenciosa do palácio de Asu’a, tornou-se cada vez mais um estranho para seu povo, um explorador em lugares sombrios.
— Foi assim que, quando os homens do norte se levantaram, saqueando e matando, para enfim cercar Asu’a em um anel de ferro venenoso, Ineluki foi quem decidiu destruir a armadilha.
— Nas cavernas profundas abaixo de Asu’a, iluminadas por engenhosos espelhos, cresciam os jardins de madeira arcana, o lugar onde os sitha cuidavam das árvores cuja madeira estranha eles usavam como os homens do sul usavam bronze e os do norte usavam ferro. As árvores de madeira arcana, cujas raízes, alguns dizem, alcançavam o próprio centro da terra, eram cuidadas por jardineiros tão sagrados quanto sacerdotes. Todos os dias eles recitavam os antigos feitiços e realizavam os rituais imutáveis que faziam a madeira arcana prosperar, enquanto o Rei e sua corte no palácio acima afundavam cada vez mais no desespero e no esquecimento.
— No entanto Ineluki não havia esquecido os jardins, nem os livros sombrios que lera e os caminhos obscuros que percorrera em busca de sabedoria. Em seus aposentos, onde nenhum dos outros mais entrava, começou uma tarefa que acreditava ser a salvação de Asu’a e dos sitha.
— De alguma forma, causando-se grande dor, ele conseguiu ferro negro, que deu às árvores de madeira arcana como um monge rega suas vinhas. Muitas das árvores, não menos sensíveis que os próprios sitha, adoeceram e morreram, todavia uma sobreviveu.
Ineluki envolveu esta árvore com feitiços, com palavras talvez mais antigas que os sitha, e encantamentos que alcançavam até mesmo as raízes da madeira arcana. A árvore cresceu forte novamente, e desta vez o ferro venenoso correu por ela como sangue. Os zeladores do jardim sagrado, vendo seus protegidos devastados, fugiram. Eles contaram a Iyu’unigato, o Rei, e este ficou preocupado, entretanto, como previa o fim de todas as coisas, não impediria seu filho. De que servia a madeira arcana agora, com homens de olhos brilhantes por toda parte e ferro mortal em suas mãos?
— O crescimento da árvore adoeceu Ineluki, assim como adoeceu os próprios jardins, todavia sua vontade era mais forte do que qualquer doença. Ele perseverou até que, finalmente, chegou a hora de colher a tão desejada safra. Pegou sua terrível plantação, a madeira arcana toda atravessada por ferro maligno, e subiu às forjas de Asu’a.
— Desgastado, quase louco, porém cheio de uma determinação implacável, observou os mestres ferreiros de Asu’a fugirem, sem se importar. Sozinho, aqueceu as forjas mais intensamente do que jamais haviam sido; sozinho, entoou as Palavras da Criação, enquanto empunhava o Martelo que Molda, que ninguém além do Supremo Ferreiro jamais havia segurado antes.
— Sozinho nas profundezas iluminadas de vermelho da forja, forjou uma espada, uma espada cinzenta terrível cuja própria essência parecia exalar consternação. Magias tão horrendas e profanas Ineluki invocou durante a forja que o próprio ar de Asu’a parecia crepitar de calor, e as paredes balançavam como se atingidas por punhos gigantes.
— Ele levou a espada recém forjada para o grande salão de seu pai, pensando em mostrar ao seu povo o objeto que os salvaria. Em vez disso, tão terrível era sua aparência, e tão perturbadora era a espada cinzenta, brilhando com uma luz quase insuportável, que os sitha fugiram horrorizados do salão, deixando apenas Ineluki e seu pai, Iyu’unigato.
***
No silêncio crescente que envolvia as palavras de Jarnauga, uma quietude tão profunda que até o fogo parecia ter parado de crepitar, como se também prendesse a respiração, Simon sentiu os pelos da nuca e dos braços se eriçarem e uma estranha tontura o percorrer.
“Uma... Espada! Uma espada cinza! Consigo vê-la de forma tão clara! O que significa isto? Por que esse pensamento não sai da minha cabeça?” ele coçou o couro cabeludo com força, como se, em sua dor, pudesse encontrar a resposta.
***
— Quando o Rei-Erl por fim viu o que seu filho havia feito, deve ter sentido seu coração congelar no peito, pois a lâmina que Ineluki empunhava não era uma mera arma, e sim uma blasfêmia contra a terra que havia produzido tanto ferro quanto madeira arcana. Era um buraco na tapeçaria da criação por onde a vida escapava.
— ‘Tal coisa não deveria existir.’ disse ao filho. ‘Seria melhor irmos para o vazio do esquecimento, melhor que os mortais roessem nossos ossos... Melhor até que nunca tivéssemos vivido do que tal coisa ser criada, muito menos usada.’
— Contudo Ineluki estava enlouquecido com o poder da coisa e terrivelmente enredado nos feitiços que a criaram. ‘É a única arma que nos salvará!’ disse ao pai. ‘Caso contrário, essas criaturas, esses insetos, irão infestar a face da terra, destruindo tudo em seu caminho, obliterando a beleza que nem sequer podem ver ou compreender. Vale qualquer preço para evitar isso!’
— ‘Não!’ disse Iyu’unigato. ‘Não. Alguns preços são altos demais. Olhe para você! Mesmo agora, essa coisa já consumiu sua mente e seu coração. Eu sou seu Rei, assim como seu pai, e ordeno que a destrua, antes que o devore por completo.’
— No entanto ouvir seu pai exigir tal coisa, a destruição daquilo que quase morreu forjando... E que só fez, como pensava, para salvar seu povo da escuridão final... Levou Ineluki a perder toda a compaixão. Naquele momento, ergueu a espada e golpeou seu pai, matando o Rei dos sitha.
— Nunca antes algo assim havia sido feito, e quando Ineluki viu Iyu’unigato estendido à sua frente, chorou e lamentou, não apenas por seu pai, como também por si mesmo e por seu povo. Por fim, ergueu a espada cinzenta diante de seus olhos. ‘Da dor você veio.’ disse ele, ‘E a dor trouxe consigo. Dor será o seu nome.’ Assim, nomeou a lâmina Jingizu, que é a palavra em língua sitha.
***
“Dor... Uma espada chamada Dor...” Simon a ouviu em sua mente como um eco, reverberando em seus pensamentos até parecer que abafaria as palavras de Jarnauga, a tempestade lá fora, tudo. Por que soava tão terrivelmente familiar? “Dor... Jingizu... Dor...”
***
— Mas a história não acabou aí... — disse o nortista, sua voz ganhando força mesmo enquanto seu encanto lançava uma sombra de inquietação sobre os presentes. — Ineluki, mais enfurecido do que nunca pelo que fizera, ainda assim tomou a coroa de madeira de bétula branca de seu pai e se proclamou Rei. Tão atônitos ficaram sua família e seu povo com o assassinato que não tiveram coragem de resistir. Alguns, na verdade, acolheram a mudança em segredo, cinco em particular que, como Ineluki, haviam se irritado com a ideia de rendição passiva aos mortais ao redor.
— Ineluki, com Dor em sua mão, era uma força indomável. Com seus cinco servos... A quem os aterrorizados e supersticiosos nortistas apelidaram de Mão Vermelha por seu número e capas cor de fogo... Ineluki levou a batalha para fora dos muros de Asu’a, pela primeira vez em quase três anos de cerco. Somente a superioridade numérica, os milhares de soldados de Fingil armados com ferro, impediram que o terror noturno em que Ineluki se transformara rompesse o cerco. Como estava, se os outros sitha tivessem se unido a eles, talvez os reis sitha ainda marchassem pelas muralhas de Hayholt.
— Porém o povo de Ineluki não tinha mais vontade de lutar. Assustados com seu novo governante, horrorizados com o assassinato de Iyu’unigato, eles aproveitaram o caos causado por Ineluki e sua Mão Vermelha para fugir de Asu’a, liderados pela rainha Amerasu e Shima’onari, filho de Hakatri, irmão de Ineluki condenado por um dragão. Escaparam para os caminhos escuros, embora protetores, da floresta de Aldheorte, escondendo-se dos mortais sedentos de sangue e de seu próprio Rei.
— Assim, Ineluki se viu com pouco mais do que seus cinco guerreiros no esqueleto brilhante de Asu’a. Mesmo suas poderosas magias provaram ser insuficientes no final para resistir à superioridade numérica do exército de Fingil. Os xamãs do norte proferiram seus feitiços, e as últimas magias protetoras desapareceram das antigas muralhas. Com piche, palha e tochas, os rimmerios incendiaram os delicados edifícios. À medida que a fumaça e as chamas lambiam o ar, os nortistas expulsaram os últimos sitha... Aqueles que eram fracos ou indecisos demais para fugir, ou que sentiam lealdade demais ao seu lar ancestral. Naqueles incêndios, os rimmerios de Fingil cometeram atos terríveis; os sitha restantes tinham pouca força para resistir. Seu mundo havia chegado ao fim. Os assassinatos cruéis, as torturas impiedosas e os estupros de vítimas indefesas, a destruição risonha de mil coisas requintadas e insubstituíveis... Com tudo aquilo, o exército de Fingil deixou sua marca carmesim em nossa história, uma mancha que jamais poderá ser removida. Sem dúvida, aqueles que fugiram para a floresta ouviram os gritos, estremeceram e imploraram por justiça aos seus ancestrais.
— Nessa última e fatídica hora, Ineluki pegou sua Mão Vermelha e subiu ao topo da torre mais alta. Ele havia decidido que o que os sitha não podiam mais habitar jamais seria o lar dos homens.
— Naquele dia, ele proferiu palavras mais terríveis do que quaisquer outras que já havia dito, muito mais nefastas do que até mesmo aquelas que ajudaram a aprisionar a essência da Dor. Enquanto sua voz ecoava acima da conflagração, os rimmerios caíram gritando no pátio, com os rostos enegrecendo e sangue escorrendo dos olhos e ouvidos. Os cânticos atingiram um tom insuportável e, em seguida, transformaram-se em um vasto grito de agonia. Um enorme clarão tornou o céu branco, seguido, um instante depois, por uma escuridão tão completa que até Fingil, em sua tenda a um quilômetro de distância, pensou ter ficado cego.
— Contudo, de alguma forma, Ineluki havia falhado. Asu’a ainda estava de pé e ainda queimava, embora agora grande parte do exército de Fingil jazesse lamentando e morrendo no chão, na base da torre. No topo da própria torre, estranhamente intocado pela fumaça ou pelas chamas, o vento peneirava seis montes de cinzas cinzentas, espalhando-os lentamente pelo chão.
***
“Dor...” a cabeça de Simon girava e sentia dificuldade para respirar. A luz da tocha parecia oscilar fora de controle. “A colina. Ouvi as rodas da carroça... Elas trouxeram Dor! Lembro-me de que era como o Diabo numa caixa... O âmago de toda a dor.”
***
— Foi assim que Ineluki morreu. Um dos tenentes de Fingil, ao exalar seu último suspiro minutos depois, jurou ter visto uma grande forma emergindo da torre, carmesim como brasas em uma fogueira, contorcendo-se como fumaça, agarrando o céu como uma enorme mão vermelha...
— Nãooooo! — gritou Simon, saltando. Uma mão se ergueu para contê-lo, depois outra, contudo ele as afastou como se fossem teias de aranha. — Eles trouxeram a espada cinzenta, a espada horrível! E então eu o vi! Vi Ineluki! Ele era... Era...
O salão balançava para frente e para trás, e rostos fixos... Isgrimnur, Binabik, o velho Jarnauga... Surgiam à sua frente como peixes saltando em um lago. Queria dizer mais, contar-lhes tudo sobre a encosta e os demônios brancos, no entanto uma cortina negra se fechava diante de seus olhos, e algo rugia em seus ouvidos...
***
Simon corria em lugares escuros, e suas únicas companheiras eram palavras no vazio.
Cabeça-Oca! Venha até nós! Há um lugar aqui preparado para você!
Um menino! Uma criança mortal! O que viu, o que viu?
Congele seus olhos e leve-o para a sombra. Cubra-o com um apertado e cortante manto de gelo.
Uma forma surgiu diante do garoto, uma sombra com cabeça de chifre, maciça como uma colina. Usava uma coroa de pedras pálidas; e seus olhos eram chamas vermelhas. Vermelha era sua mão também, e quando o agarrou e o ergueu, os dedos queimaram como brasas ardentes. Rostos brancos surgiram ao redor, oscilando na escuridão como chamas de velas.
A roda está girando, mortal, girando, girando... Quem é você para pará-la?
Uma mosca, é uma mosquinha...
Os dedos carmesins apertaram, e os olhos flamejantes brilharam com um humor sombrio e infinito. Simon gritou e chorou, todavia só recebeu como resposta risadas impiedosas.
***
Despertou de um estranho turbilhão de vozes cantando e mãos agarrando-o, encontrando seu sonho refletido no círculo de rostos que se inclinavam a sua volta, pálidos à luz da tocha como um círculo de fadas de cogumelos. Além dos rostos borrados, as paredes pareciam revestidas de pontos de luz brilhantes, subindo na escuridão acima.
— Está acordando. — disse uma voz, e de repente os pontos brilhantes se tornaram nítidos como fileiras de panelas penduradas em prateleiras. Estava deitado no chão de uma despensa.
— Seu rosto parece péssimo. — disse uma voz grave nervosamente. — É melhor pegar mais água.
— Tenho certeza de que ele ficará bem se você quiser voltar para dentro. — respondeu a primeira voz, e Simon sentiu-se semicerrando os olhos e arregalando os olhos até que o rosto que estava na sua frente deixou de ser um borrão. Era Marya... Não, era Miriamele, ajoelhada ao seu lado; não pôde deixar de notar como a barra do seu vestido estava amassada sob ela no chão de pedra sujo.
— Não, não! — disse a outra voz... O Duque Isgrimnur, coçando a barba, nervoso.
— O que... Aconteceu?
Teria caído e batido a cabeça? Simon levou a mão ao chão para se virar com cuidado, porém a dor era generalizada e não havia nenhum galo.
— Você caiu, rapaz! — resmungou Isgrimnur. — Gritando sobre... Sobre coisas que viu. Eu o carreguei até aqui, e me esforcei bastante para isso.
— E depois ficou lá parado olhando para você deitado no chão. — disse Miriamele, com voz severa. — Ainda bem que eu estava chegando. — ela encarou o rimmerio. —Você já lutou em batalhas, não é? O que faz quando alguém está ferido... Fica olhando para a pessoa?
— É diferente! — disse o Duque na defensiva. — Se estiver sangrando, faz um curativo. E os carrega de volta em seus escudos se estiverem mortos.
— Bem, isso é inteligente. — retrucou Miriamele, embora Simon viu um sorriso secreto surgir em seus lábios. — E se não estiverem sangrando ou mortos, suponho que só passa por cima deles? Deixa pra lá.
Isgrimnur fechou a boca e puxou a barba.
A Princesa continuou a enxugar a testa de Simon com seu lenço úmido. Não conseguia imaginar que bem aquilo estava fazendo, todavia por enquanto estava contente em apenas se deitar e ser cuidado. Sabia que em breve teria que se explicar para alguém.
— Eu... Sabia que te reconhecia, garoto. — disse Isgrimnur. — Você era o rapaz de São Hoderund, não é? E aquele gnomo... Acredito que tinha visto...
A porta da despensa se abriu mais.
— Ah! Simon! Espero que esteja se sentindo melhor agora.
— Binabik! — disse Simon, fazendo um esforço para se sentar.
Miriamele gentilmente, contudo com firmeza, apoiou-se em seu peito, forçando-o a deitar de volta.
— Eu vi, sim! Era disso que não conseguia me lembrar! A colina, e o fogo, e... E...
— Já sei, amigo Simon, comecei a entender muitas coisas quando o vi se levantar... Não todas, claro. Ainda há muito sem explicação neste enigma.
— Eles devem pensar que sou um louco. — resmungou Simon, afastando a mão da Princesa, entretanto seguia apreciando o momento de contato. O que ela estava pensando? Agora o olhava como uma garota adulta olhava para um irmão mais novo problemático. Malditas garotas e mulheres!
— Não, Simon. — disse Binabik, agachando-se ao lado de Miriamele para examiná-lo cuidadosamente. — Tenho contado muitas histórias, nossas aventuras juntos entre elas. Jarnauga confirmou muito do que meu mestre estava insinuando. Ele também recebeu uma das últimas mensagens de Morgenes. Não, você não é considerado louco, embora suspeito que muitos seguem desacreditando do perigo real. O Barão Devasalles, em especial.
— Hummm... — Isgrimnur arrastou uma bota no chão. — Se o rapaz estiver bem, acho melhor voltar. Simon, não é? Sim, bom... Nós dois conversaremos mais tarde.
O Duque manobrou seu considerável corpo para fora da despensa estreita e seguiu com passos pesados pelo corredor.
— Também irei. — disse Miriamele, dando uma rápida sacudida na poeira do vestido. — Há coisas que não devem ser decididas antes de eu ser ouvida, independente do que meu tio pense.
Simon queria agradecê-la, mas não conseguia pensar em nada para dizer enquanto estava deitado de costas que não o fizesse se sentir mais ridículo do que já se sentia. Quando enfim decidiu deixar seu orgulho de lado, a Princesa já havia desaparecido num turbilhão de sedas.
— Se já estiver recuperado o suficiente, Simon... — disse Binabik, estendendo uma mão pequena e grossa. — Então há coisas que precisamos ouvir na sala do conselho, pois acho que Naglimund nunca viu um Raed como este.
***
— Antes de mais nada, jovem... — disse Jarnauga. — Embora eu acredite em tudo o que nos contou, precisa saber que não foi Ineluki quem viu naquela encosta. — as fogueiras haviam se reduzido a brasas, porém ninguém havia deixado o salão. — Se tivesse visto o Rei da Tormenta, na forma que deve ter agora, teria ficado como uma casca vazia e sem mente, ao lado das Pedras da Cólera. Não, o que viu... Ao lado das nornas pálidas, de Elias e seus súditos... Foi um membro da Mão Vermelha. Ainda assim, parece-me milagroso que tenha saído ileso de tal visão noturna.
— Porém... — ao começar a se lembrar do que o velho havia dito pouco antes de a barreira do esquecimento ruir, revelando as memórias daquela noite horrível... A Noite Empedrada, como o doutor a chamara... Simon voltou a ficar perplexo e confuso. — Pensei que tivesse dito que Ineluki e sua... Mão Vermelha... Estavam mortos?
— Mortos, sim; suas formas terrenas foram completamente consumidas pelas chamas nos últimos momentos escaldantes. Contudo algo sobreviveu... Alguém ou algo capaz de recriar a espada Dor. De alguma forma, e não era preciso sua experiência para me dizer isso, pois é por essa razão que a Liga do Pergaminho foi criada, Ineluki e sua Mão Vermelha sobreviveram. Como sonhos ou pensamentos vivos, talvez, sombras unidas apenas pelo ódio e pelas terríveis runas da última maldição de Ineluki. No entanto, seja como for, a escuridão que era a mente de Ineluki no fim não morreu.
— O Rei Eahlstan Fiskerne chegou três séculos depois em Hayholt, o castelo que se erguia sobre os ossos de Asu’a. Eahlstan era sábio e um buscador de conhecimento, e encontrou coisas nas ruínas sob Hayholt que o fizeram perceber que Ineluki não havia desaparecido por completo. Ele formou a Liga da qual sou membro... E estamos diminuindo muito rápido agora, com a perda de Morgenes e Ookequk... Para que o conhecimento antigo não se perdesse. Não apenas o conhecimento do senhor das trevas dos sitha, como outras coisas também, pois aqueles eram tempos sombrios no norte de Osten Ard. Ao longo dos anos, descobriu-se, ou melhor, pressentiu-se, que de alguma forma Ineluki, ou seu espírito, sombra ou vontade vital, havia se manifestado de novo entre os únicos que poderiam recebê-lo.
— As Nornas! — exclamou Binabik, como se de repente uma densa névoa tivesse sido varrida diante dele.
— As Nornas. — concordou Jarnauga. — Duvido que a princípio até mesmo as raposas brancas soubessem no que ele havia se transformado, mas logo sua influência no Pico das Tormentas foi sem dúvida grande demais para que alguém o rejeitasse. Sua Mão Vermelha também retornou junto, embora em uma forma nunca antes vista nesta terra.
— E nós pensávamos que o Löken adorado pelos rimmerios negros era apenas o nosso próprio deus do fogo, dos tempos pagãos. — disse Isgrimnur, maravilhado. — Se eu soubesse o quão longe eles se desviaram do caminho da luz... — seus dedos roçaram na Árvore que pendia de seu pescoço. — Jesuris! — sussurrou.
O Príncipe Josua, que havia escutado em silêncio por um longo tempo, inclinou-se para a frente.
— Contudo, se de fato é esse demônio do passado que é nosso verdadeiro inimigo, por que não se revela? Por que se esconde atrás de meu irmão Elias?
— Agora estamos chegando ao ponto em que meus longos anos de estudo no topo de Tungoldyr não podem ser úteis. — Jarnauga deu de ombros. — Observei, e ouvi, e vigiei, pois era para isso que estava lá... No entanto o que se passa na mente de alguém como o Rei da Tormenta é mais do que posso imaginar.
Ethelferth de Tinsett se levantou e pigarreou. Josua acenou com a cabeça para que falasse.
— Se tudo o que aqui foi dito for verdade... E minha cabeça está girando com tudo o que ouvi, digo... Então talvez... Eu possa explicar este último. — seu olhar percorreu ao redor, como se esperasse ser repreendido por sua presunção, todavia vendo nos rostos ao seu redor apenas preocupação e confusão, pigarreou de novo e continuou. — O rimmerio... — inclinou a cabeça em direção ao velho Jarnauga. — Disse que foi o nosso próprio Eahlstan Fiskerne quem primeiro notou que este Rei da Tormenta havia retornado. Isto foi trezentos anos depois que Fingil tomou Hayholt... Ou qualquer que fosse o nome na época. Já se passaram quase duzentos anos desde então. Parece-me que este... Demônio, suponho, levou muito tempo para voltar a se fortalecer.
— Agora... — continuou. — Todos nós sabemos, nós homens que possuímos terras em meio a vizinhos gananciosos... — ele lançou um olhar astuto para Ordmaer, entretanto o gordo Barão havia empalidecido há algum tempo e parecia insensível a insinuações. — Que a melhor maneira de se manter seguro e ganhar tempo para se fortalecer é fazer com que seus vizinhos lutem entre si. A mim parece que é o que está acontecendo aqui.
— Este demônio de Rimmersgardia deu um presente a Elias e depois o coloca em conflito com seus barões, duques e outros. — Ethelferth olhou em volta, ajeitou a túnica e sentou-se.
— Não é um ‘demônio de Rimmersgardia’. — rosnou Einskaldir. — Somos crentes aedonitas.
Josua ignorou o comentário do nortenho.
— Há verdade no que você diz, Lorde Ethelferth, mas acredito que aqueles que conhecem Elias concordarão que ele também tem seus próprios planos.
— Ele não precisou de nenhum demônio sitha para roubar minhas terras. — disse Isgrimnur amargamente.
— Porém... — prosseguiu Josua. — Acho que Jarnauga, Binabik de Yiqanuc... E o jovem Simon, que era aprendiz do Doutor Morgenes... Todos desconfortavelmente confiáveis. Gostaria de poder dizer que não acredito nessas histórias, ainda não tenho certeza no que acredito, contudo também não posso descartá-las. — ele se voltou para Jarnauga, que cutucava o fogo mais próximo com um atiçador de ferro. — Se esses avisos terríveis que você traz são verdadeiros, então me diga uma coisa: o que Ineluki quer?
O velho encarou o fogo e, em seguida, cutucou-o mais uma vez com mais vigor.
— Como falei, Príncipe Josua, minha tarefa era ser os olhos da Liga. Tanto Morgenes quanto o mestre do jovem Binabik sabiam mais do que eu sobre o que poderia se esconder na mente do Mestre do Pico das Tormentas. — sua mão ergueu como se para afastar mais perguntas. — Se tivesse que adivinhar, diria o seguinte: pense no ódio que manteve Ineluki vivo no vazio, que o trouxe de volta das chamas de sua própria morte...
— Então o que Ineluki quer... — a voz de Josua ressoou pesadamente no salão escuro e abafado. — É vingança?
Jarnauga apenas fitava as brasas.
— Há muito em que pensar. — disse o mestre de Naglimund. — E nenhuma decisão deve ser tomada levianamente. — ele se levantou, alto e pálido, o rosto esguio uma máscara diante de seus pensamentos ocultos. — Retornaremos aqui amanhã ao pôr do sol.
O Príncipe saiu, com um guarda de manto cinza de cada lado.
No salão, os homens se entreolharam, depois se levantaram, agrupando-se em pequenos grupos silenciosos. Simon viu Miriamele, que não tivera a chance de falar, sair entre Einskaldir e o Duque Isgrimnur, que mancava.
— Vamos, Simon. — disse Binabik, puxando-lhe a manga. — Acho que vou deixar Qantaqa correr, agora que as chuvas diminuíram um pouco. Devemos aproveitar essas oportunidades. Até agora, ainda não perdi o gosto de pensar enquanto caminho com o vento no rosto... E há muito em que devo pensar.
— Binabik! — disse Simon, o dia chocante e cansativo pesando sobre seus ombros. — Você se lembra do sonho que tive... Que todos nós tivemos... Na casa de Geloë? No Pico das Tormentas... E aquele livro?
— Sim! — respondeu o homenzinho com voz grave. — Essa é uma das coisas que me preocupam. As palavras, as palavras que viu, me intrigam. Temo que haja um terrível enigma oculto nelas.
— Du... Du Swar... — Simon lutou com suas memórias confusas. — Du...
— Du Svardenvyrd. — suspirou Binabik. — O Enigma das Espadas.
***
O ar quente golpeava dolorosamente no rosto liso e desprotegido de Pryrates, mas este não deixaria transparecer nenhum desconforto. Enquanto caminhava pelo chão da fundição, com as vestes esvoaçando, sentiu-se satisfeito ao ver os operários, também mascarados e cobertos por pesados mantos, o encararem e se encolherem com sua passagem. Vibrante sob a luz pulsante da forja, riu baixinho ao se imaginar, por um breve instante, um arquidemônio percorrendo as lajes do Inferno, com pequenos demônios se dispersando à sua frente.
Um momento depois, o clima se dissipou e sua testa franziu. Algo havia acontecido com aquele miserável aprendiz do doutor, Pryrates sabia disso. Sentira de tão forma tão clara como se alguém o tivesse espetado com algo afiado. Havia algum laço estranho e tênue ainda entre eles desde a Noite Empedrada; aquilo o incomodava e corroía sua concentração. Os negócios daquela noite tinham sido importantes demais, perigosos demais para tolerar qualquer tipo de interferência. Agora o garoto estava pensando naquela noite outra vez, talvez contando tudo o que sabia para Lluth, ou Josua, ou a qualquer outro. Algo sério precisava ser feito com aquele garoto desagradável e intrometido.
Parando diante do grande cadinho, endireitou-se com os braços cruzados sobre o peito. Ficou assim por um bom tempo, já irritado, ficando cada vez mais irritado com a espera. Enfim, um dos fundidores se apressou e, desajeitadamente, dobrou o joelho, com as grossas calças, à sua frente.
— Como podemos servi-lo, Mestre Pryrates? — disse o homem, com a voz abafada pelo pano úmido que lhe cobria a parte inferior do rosto.
O sacerdote o encarou em silêncio por tempo suficiente para que a expressão parcialmente revelada do homem mudasse de desconforto para medo genuíno.
— Onde está seu supervisor? — sibilou.
— Ali, sacerdote. — o homem apontou para uma das aberturas escuras na parede da caverna da fundição. — Uma das rodas da manivela do guincho se foi... Vossa Eminência.
Aquilo foi algo gratuito, já que pelos meios oficiais ainda era pouco mais que um sacerdote, contudo o som da frase o agradava.
— Bem...? — perguntou Pryrates. O homem não respondeu, e Pryrates lhe deu um chute forte na canela coberta de couro. — Vá buscá-lo, então! — gritou.
Com uma reverência que balançava a cabeça, o homem mancou, movendo-se como uma criança engatinhando com roupas acolchoadas. Pryrates percebeu as gotas de suor se formando em sua testa e o ar quente e abafado que parecia assar seus pulmões por dentro, no entanto, apesar disso, um breve sorriso se estendeu por suas feições magras. Já havia sentido coisas piores: Deus... Ou quem quer que fosse... Sabia que já havia enfrentado coisas piores.
Por fim, o supervisor chegou. Sua altura era enorme, quando parou cambaleando e ficou pairando sobre Pryrates, era quase suficiente por si só para ser considerado um insulto.
— Imagino que saiba por que vim? — disse o sacerdote, com os olhos negros brilhando e a boca tensa de desagrado.
— É sobre as máquinas. — respondeu o outro, com a voz baixa, embora tingida por uma infantil petulância.
— Sim, sobre as máquinas de cerco! — retrucou Pryrates. — Tire essa maldita máscara, Inch, para que eu possa vê-lo quando falar com você.
O supervisor ergueu uma mão peluda e puxou o pano. Seu rosto arruinado, marcado por cicatrizes de queimaduras ao redor da órbita ocular direita vazia, reforçou a sensação do sacerdote de que estava em uma das antecâmaras do Grande Inferno.
— As máquinas não estão terminadas. — insistiu Inch, teimoso. — Perdemos três homens quando a principal desabou na quinta-feira passada. O trabalho está lento.
— Sei que eles não terminaram. Tragam mais homens. Aedon sabe que não há falta de gente inútil por Hayholt. Vamos colocar alguns nobres para trabalhar se precisar, deixar que ganhem algumas bolhas nas mãos. Mas o Rei quer que terminem. Agora. Ele vai para o campo de batalha em dez dias. Dez dias, maldito seja!
A sobrancelha de Inch se ergueu, como uma ponte levadiça.
— Naglimund. Ele vai para Naglimund, não é?
Havia um brilho faminto em seus olhos.
— Isso não é da sua conta, seu macaco cicatrizado. — disse Pryrates com desdém. — Apenas terminem! Você sabe por que recebeu uma posição mais elevada e de responsabilidade neste lugar... Porém podemos retomá-la...
Pryrates podia sentir o olhar de Inch sobre ele enquanto se afastava, podia sentir a presença pétrea do homem na luz esfumaçada e bruxuleante. Voltou a se perguntar se havia sido sábio deixar o bruto viver e, caso contrário, se deveria corrigir o erro.
***
O sacerdote havia chegado a uma das amplas escadarias, com corredores que levavam para a esquerda e para a direita, e o próximo lance de escadas à frente, quando uma figura escura deslizou abruptamente das sombras.
— Sacerdote?
O sacerdote, cujos nervos eram tais que talvez não gritasse nem se fosse atingido por um machado, ainda assim sentiu seu coração disparar.
— Vossa Majestade! — respondeu, mantendo a voz contida.
Elias, em uma zombaria involuntária aos fundidores lá embaixo, usava o capuz de sua capa preta bem fechado em volta do rosto. Nos últimos dia era sempre visto andando assim, pelo menos quando saía de seus aposentos... Da mesma forma como sempre usava a espada embainhada. A obtenção daquela lâmina havia trazido ao Rei um poder como poucos mortais jamais tiveram, contudo não sem um preço. O sacerdote vermelho era sábio o suficiente para saber que o cálculo de tais barganhas era uma ciência muito sutil.
— Eu... Não consigo dormir, Pryrates.
— Entendo, meu Rei. Há muitos fardos sobre seus ombros.
— Você me ajuda... Com muitos deles. Tem cuidado das máquinas de cerco?
Pryrates assentiu, então percebeu que Elias, encapuzado, talvez não o visse na escuridão da escadaria.
— Sim, majestade. Gostaria de assar Inch em azeite, aquele porco de capataz, em uma de suas próprias fogueiras. Todavia nós as teremos, majestade, de alguma forma.
O Rei ficou em silêncio por um longo tempo, acariciando o punho da espada.
— Naglimund deve ser esmagada. — disse Elias por fim. — Josua me desafia.
— Ele não é mais seu irmão, majestade, é apenas seu inimigo. — disse Pryrates.
— Não, não... — disse Elias lentamente, pensativo. — É meu irmão. E é por essa razão que não posso permitir que me desafie. Parece tão óbvio. Não é óbvio, Pryrates?
— Claro, Vossa Majestade.
O Rei apertou o manto ao redor do corpo, como se quisesse se proteger do vento frio, entretanto o ar que subia de baixo estava denso com o calor das forjas.
— Pryrates, já encontraram minha filha? — Elias perguntou de repente, olhando para cima. O sacerdote podia ver vagamente o brilho nos olhos e a sombra do rosto do Rei na caverna de seu capuz.
— Como eu lhe disse, senhor, se ela não foi para Nabban, para a família de sua mãe lá... E nossos espiões não acham que seja esse o caso... Então só pode estar em Naglimund com Josua.
— Miriamele. — o nome exalado ecoou pela escadaria de pedra. — Preciso tê-la de volta. Preciso! — o Rei estendeu a mão aberta, fechando-a aos poucos em um punho à sua frente. — Ela é o único pedaço de carne boa que salvarei do esqueleto da casa de meu irmão. O resto, reduzirei a pó.
— Agora você tem força, meu Rei! — disse Pryrates. — E tem amigos poderosos.
— Sim. — o Supremo Rei fez um lento aceno. — Sim, é verdade. E quanto ao caçador Ingen Jegger? Ele não encontrou minha filha, no entanto também não retornou. Onde está?
— Ainda está caçando o aprendiz do doutor, Majestade. Isso se tornou uma espécie de... Rancor. — Pryrates acenou com a mão, como se tentasse afastar a lembrança incômoda do rimmerio negro.
— Ao que me parece, muito esforço foi gasto tentando encontrar esse garoto que, segundo você, conhece alguns de nossos segredos. — o Rei franziu a testa e falou em um tom áspero. — Gostaria que o mesmo esforço tivesse sido gasto com a minha própria carne e sangue. Não estou satisfeito.
Por um instante, seus olhos sombrios brilharam com raiva.
Ele se virou para ir embora, mas parou.
— Pryrates? — a voz do Rei havia mudado outra vez.
— Sim, majestade?
— Acha que dormirei melhor... Quando Naglimund for destruída e tiver minha filha de volta?
— Tenho certeza, meu Rei.
— Ótimo. Aproveitarei ainda mais, sabendo disso.
Elias escapuliu pelo corredor sombrio. Pryrates não se moveu, mas ouviu os passos do Rei se afastarem, misturando-se com os martelos de Erkynlandia, cujo clangor soava monotonamente nas profundezas abaixo.
***
Link para o índice de capítulos: The Dragonbone Chair
Para aqueles que puderem e quiserem apoiar a tradução do blog, temos agora uma conta do PIX.
Chave PIX: mylittleworldofsecrets@outlook.com


Nenhum comentário:
Postar um comentário