sábado, 18 de abril de 2026

The Decagon House Murders — Capítulo 08

Capítulo 08: O Quarto Dia no Continente


Parte 1


— Posso mesmo ir junto? — perguntou Kawaminami de novo.

Eles estavam sentados no carro indo para a Cidade O, para Kamegawa. Shimada, que segurava o volante, manteve os olhos fixos à frente enquanto assentia várias vezes.

— Sério? Você conhecia a Chiori e também é uma das “vítimas” daquelas cartas de ameaça. Além do mais, tendo chegado até aqui, não gostaria de ficar de fora da investigação, gostaria?

— É verdade.

Não conseguia esquecer o aviso que Morisu Kyoichi lhes dera duas noites antes.

Estava tudo bem invadirem a privacidade de outras pessoas apenas para satisfazer sua própria curiosidade?

Shimada disse que ele e Kojiro eram muito mais próximos do que Kawaminami e Morisu pareciam pensar. Ele acrescentou que as ideias e a atitude de Morisu poderiam ser um pouco arrogantes demais.

Kawaminami sabia o que Shimada pensava. Para ser honesto, Kawaminami também não gostou da mudança repentina de atitude de Morisu, apesar da ajuda que havia oferecido de bom grado no início do jogo de dedução. Mesmo assim, se sentiu relutante e até culpado por fazer uma visita tão informal a Kojiro mais uma vez, apenas três dias depois da primeira.

— Se está se sentindo tão contra isso, Conan, então finja que nos tornamos melhores amigos nesses últimos três dias. E agora está fazendo isso pelo seu melhor amigo, ainda sem querer. Se sente melhor? — disse Shimada com uma expressão séria.

De fato é uma pessoa estranha, pensou Kawaminami.

Não era apenas que transbordava de curiosidade. Kawaminami tinha certeza de que aquele homem possuía poderes de observação e perspicácia que superavam em muito os seus. Quando Morisu apresentou a teoria de que Nakamura Seiji seguia vivo, pareceu que Shimada já havia considerado essa possibilidade a fundo.

A diferença decisiva entre Morisu e Shimada era que, enquanto Morisu era, de certa forma, um realista estranhamente conservador, Shimada era como uma criança sonhadora, uma espécie de romântico. Deixava sua imaginação correr solta em qualquer caso real que lhe interessasse e, se encontrasse uma possibilidade que lhe parecesse interessante, começava a incorporá-la ao seu sonho. Pelo menos era assim que parecia a Kawaminami.

E talvez fosse por essa razão que, para Shimada, a questão de saber se seu “sonho” correspondia à realidade era de importância secundária, até mesmo terciária.

O carro saiu da Rodovia Nacional e dirigiram por ruas familiares da cidade.

O cheiro característico de fontes termais se misturava com o vento que entrava pela janela entreaberta do lado do passageiro. Era comum ser descrito como “cheiro de ovos podres”, contudo Kawaminami não se importava com o cheiro de sulfeto de hidrogênio.

Eles chegaram à casa de Kojiro pouco depois das três horas da tarde.

— Ele deveria estar aqui hoje. — murmurou Shimada, parado em frente ao portão. — O instituto onde trabalha já está em recesso de primavera e, além disso, é sábado. Ele também não sai muito no tempo livre.

— Você não ligou para avisar que viríamos? — perguntou Kawaminami, ao que Shimada balançou a cabeça, negando.

— Ko, sabe, ele gosta de visitas surpresa.

— Oh.

— Estranho, né? Depende de quem vem, claro. No entanto como sou um amigo próximo... — Shimada piscou e riu.

O jardim que Yoshikawa Sei’ichi tantas vezes vinha de Ajimu para cuidar seguia estando cheio de flores. Acima do telhado, galhos com botões de cerejeira eram visíveis por trás da casa. Enquanto subiam os degraus de pedra, as pétalas quebradiças de uma spireia salpicavam seus ombros.

Desta vez, a campainha foi atendida imediatamente.

— Ah, é você, Shimada. E você também... Kawaminami, se bem me lembro?

Kojiro também estava vestido de forma impecável hoje. Calças pretas, uma camisa com listras pretas e um cardigã Aran marrom-claro.

Kojiro os conduziu até o mesmo lugar nos fundos, sem demonstrar surpresa com a presença de Kawaminami.

Shimada sentou-se na cadeira de vime na varanda. Kawaminami esperou que Kojiro lhe oferecesse um lugar e acomodou-se em um dos sofás.

— Então, o que há de novo hoje? — perguntou Kojiro enquanto preparava o chá.

— Há algo que queríamos te perguntar.

Shimada inclinou-se para a frente na cadeira de balanço, com os cotovelos nos joelhos.

— Mas antes disso, onde estava há dois dias?

— Há dois dias? — Kojiro olhou para Shimada com um olhar interrogativo. — Estive em casa todos os dias nos últimos dias. A escola está em recesso.

— Sério? Passamos aqui dois dias atrás, na noite do dia 27, porém você não atendeu a porta.

— Oh, preciso me desculpar por isso. Tenho um prazo para entregar uma tese e tenho fingido não estar em casa para visitantes e pessoas que ligam nos últimos dois ou três dias.

— É assim que se trata um amigo?

— Desculpe, se soubesse que era você, teria deixado entrar.

Kojiro entregou as xícaras de chá e sentou-se no sofá em frente a Kawaminami.

— E o que queria me perguntar? Kawaminami também está aqui, então presumo que esteja relacionado àquelas cartas de brincadeira assinadas com o nome do meu irmão.

— Sim. Contudo hoje estamos aqui por um assunto um pouco diferente. — Shimada respirou fundo e continuou. — Na verdade, queremos perguntar algo particular sobre a falecida Chiori.

A mão que segurava a xícara de chá de Kojiro parou no ar.

— Sobre Chiori?

— Vou te fazer uma pergunta muito estranha, Ko. Pode me dar um soco se achar imperdoável.

E então Shimada perguntou sem rodeios.

— Chiori era sua filha, por acaso?

— Bobagem. Que tipo de pergunta é essa?

Kojiro respondeu em seguida, no entanto Kawaminami percebeu que, por um breve instante, seu rosto empalideceu.

— Então estou errado.

— Claro que está.

— Hmm.

Shimada levantou-se da cadeira de vime e sentou-se ao lado de Kawaminami. Kojiro, ainda irritado, cruzou os braços. Os olhos de Shimada permaneceram fixos nele enquanto continuava.

— Sei que é uma pergunta insultuosa. E está irritado, claro. Entretanto Ko, preciso saber. Chiori era sua filha com Kazue, não era?

— Chega de suas bobagens. Onde estão suas provas?

— Não tenho nenhuma prova. Embora todos os tipos de fatos estão me induzindo a essa ideia.

— Pare com isso.

— Fui a Ajimu com Conan há dois dias. Para me encontrar com a esposa do desaparecido Yoshikawa Sei’ichi.

— A esposa de Yoshikawa? Para quê?

— Aquelas cartas ameaçadoras nos incitaram a descobrir mais sobre o incidente que aconteceu em Tsunojima no ano passado. E a conclusão a que chegamos é que Nakamura Seiji pode estar vivo e é o responsável por tudo aquilo.

— Impossível. Meu irmão está morto. Eu vi o corpo.

— Um corpo completamente queimado, certo?

— Sim.

— Aquele era o corpo de Yoshikawa Sei’ichi. Seiji era o verdadeiro assassino e, depois de matar Kazue e o casal Kitamura, queimou o corpo de Yoshikawa no lugar do seu. Seiji ainda está vivo.

— Vejo que segue tão imaginativo como sempre. E suponho que foi essa sua imaginação que me ligou à minha cunhada?

— Sim. — Shimada continuou sem hesitar. — Supondo que Seiji fosse o assassino, o que o teria levado a cometer esses assassinatos? Uma vez, lembro que me disse que seu irmão amava Kazue apaixonadamente, mas sua fixação por ela não era normal. E também disse que o verdadeiro motivo de ter se isolado na ilha tão jovem era que ele queria ficar com Kazue só para si, que queria mantê-la na ilha. Para matar a esposa que tanto amava, só consigo pensar em um motivo: ciúme.

— Porém por que tirar a conclusão precipitada de que minha cunhada e eu tivemos um caso?

— A esposa de Yoshikawa nos disse que Seiji não amava muito a filha. Todavia é um fato que tinha um profundo amor por Kazue. Então, por que não amava Chiori, fruto do seu casamento? É uma contradição. Isto não é uma prova de que Seiji pelo menos suspeitava que não era o pai de Chiori?

— Meu irmão podia ser um pouco estranho.

— Mesmo que fosse estranho, seguia sendo uma pessoa que amava sua esposa. Tinha que haver um motivo para não amar a filha que sua esposa lhe deu. — disse Shimada decisivamente, antes de continuar. — Então, se assumirmos que essa hipótese é verdadeira, quem é o verdadeiro pai de Chiori? Vários fatos apontam para você, Ko. Um jovem que conseguiu entrar em contato com Kazue mesmo estando confinada à ilha. E há o fato de que você e seu irmão brigaram por volta da época do nascimento de Chiori...

— Está redondamente enganado. Já chega, Shimada. Nego tudo. Nada disso jamais aconteceu. — disse Kojiro com raiva, enquanto tirava seus óculos de aro grosso. — E vou repetir: meu irmão não está vivo. Está morto. E não tenho nada a ver com esse caso.

Kojiro foi resoluto com sua afirmação, no entanto seus olhos evitaram o olhar de Shimada e a mão em seu joelho tremia.

— Sendo assim, tenho mais uma coisa para te perguntar, Ko. — disse Shimada. — No dia 19 de setembro do ano passado, um dia antes da Mansão Azul pegar fogo... Se lembra? Você me ligou para tomar um drinque, apesar de que quase nunca bebe álcool. Fomos de um bar para outro até ficarmos completamente bêbado. Para mim, parecia um homem tentando afogar as mágoas na bebida.

— E daí? O que está tentando dizer?

— Depois de ter ficado completamente bêbado, começou a chorar. Talvez não se lembre de mais nada. Eu te levei para casa e nós dois adormecemos nesses sofás aqui. Ko, lembro de te ouvir murmurar enquanto chorava... “Kazue, me perdoe, me perdoe”, várias vezes.

— Não...

A cor no rosto de Kojiro mudou de forma visível. Shimada não parou.

— Não pensei muito a respeito na época. Eu mesmo tinha bebido bastante. E mesmo depois de saber o que aconteceu em Tsunojima, não me lembrei daquela noite porque estava envolvido em algo problemático na época. Entretanto agora que penso com mais cuidado... — Shimada suspirou mais uma vez.

— Ko, na noite de 19 de setembro, você já sabia que alguma coisa tinha acontecido em Tsunojima.

— Mas como... — Kojiro desviou o olhar de Shimada. — Como poderia saber de uma coisa dessas?

— O próprio assassino, Seiji, te contou.

O olhar intenso de Shimada permaneceu fixo em Kojiro.

— O corpo de Kazue estava sem a mão esquerda. Seiji a cortou. Acho que ele a enviou para você. Acredito que a tenha recebido no dia 19. Como não pôde chamar a polícia porque tinha medo de escândalo, então tentou afogar as mágoas na bebida.

— Eu, eu...

— Não sei os detalhes de como você e Kazue se encontraram. Não preciso saber. Ainda que os dois tenham sido o motivo da loucura de Seiji, não acho que alguém tenha o direito de culpá-los. Mas Ko, se tivesse chamado a polícia no dia 19, as vidas dos Kitamura e de Yoshikawa poderiam ter sido salvas. Seu silêncio naquele dia foi um crime.

— Um crime? — murmurou Kojiro, e de repente se levantou.

— Ko.

— Está tudo bem, Shimada. Já chega.

Kojiro desviou o olhar de Shimada e caminhou até a varanda com passos lentos e sem vida.

— Aquela ali... — disse, apontando para o pavilhão de glicínias no jardim. — Eu a plantei no ano em que Chiori nasceu.



Parte 2

Kawaminami parecia não ter voltado para casa ainda. As luzes do seu quarto estavam apagadas.

Morisu Kyoichi olhou para o relógio. 22:10. Seu amigo ainda não devia ter ido dormir.

Estacionando sua moto perto da entrada do prédio, entrou na cafeteria do outro lado da rua.

A cafeteria ficava aberta até as duas da manhã. A essa hora da noite, costumava ficar de estudantes que moravam por perto, porém, por causa do feriado de primavera, havia apenas alguns clientes espalhados pelo local.

Ele se sentou perto da janela com vista para a rua.

Tomou um gole de seu café preto e pensou em ir embora assim que terminasse.

Afinal, não era como se precisasse vê-lo. Sempre poderia ligar mais tarde.

Ele sempre se empolga fácil e depois perde o interesse. A essa altura, deve já estar farto de bancar o detetive.

Morisu colocou um cigarro na boca e começou a refletir.

Fora a “carta dos mortos” que despertara o interesse de Kawaminami. A carta foi tudo o que bastou para que começasse. E, uma vez que descobriu que os membros do Clube de Mistério tinham ido para a ilha, é óbvio que não conseguiu ficar parado. Kawaminami tinha ido até Beppu para visitar Kojiro e vir até ele, Morisu, para pedir conselhos. Em outras circunstâncias, o Kawaminami que conhecia teria começado a perder o interesse por volta desse ponto. Todavia, desta vez era diferente.

O rosto de Shimada Kiyoshi surgiu em sua mente.

Não era apenas um curioso qualquer. Shimada tinha uma mente afiada... Morisu podia admitir isso. Entretanto sua curiosidade insensível, que Shimada parecia achar aceitável, era algo que não podia suportar.

É claro que era normal ficar intrigado com aquelas cartas curiosas. E, considerando o amor de Shimada por romances policiais, era natural que investigasse o caso do ano passado.

Mesmo assim, Morisu se arrependeu de ter sugerido uma visita à esposa de Yoshikawa Sei’ichi. Havia feito a sugestão sem pensar direito. O que Yoshikawa Masako deve ter pensado quando foi visitada de repente por estranhos que lhe faziam perguntas sobre seu marido desaparecido... Que eles também suspeitavam ser um assassino?

Morisu havia proposto a teoria de que Nakamura Seiji poderia estar vivo, mas, sendo realista, era impossível. Era apenas uma hipótese que havia levantado para acabar com um joguinho de detetive bobo que uma dupla de viciados em mistério estava jogando. Porém então Shimada voltou sua atenção para o motivo por trás do incidente de Tsunojima. Ele se concentrou na relação entre Kazue e Kojiro e até sugeriu que Chiori poderia ser filha de Kojiro. Além do mais, planejava confrontar o próprio Kojiro com essa teoria.

A fumaça em sua garganta quase doía. Com um sentimento sombrio, Morisu tomou outro gole de seu café amargo.

Trinta minutos se passaram, justamente quando Morisu estava prestes a sair, um carro parou em frente ao prédio de Kawaminami. Reconhecendo a silhueta da pessoa que saiu, Morisu se levantou.

— Kawaminami.

Saindo da loja, gritou, e Kawaminami acenou em resposta.

— Então era você. Achei a moto familiar. Não tem ninguém no meu prédio com uma moto como essa. — Kawaminami olhava para a motocicleta suja e coberta de lama, uma Yamaha XT250, estacionada na beira da estrada. — Veio até aqui para me visitar?

— Não, só estava passando por aqui mesmo. — respondeu Morisu, batendo na mochila pendurada no ombro e apontando com o queixo para o suporte de lona no bagageiro traseiro da moto. — Fui a Kunisaki de novo hoje. Estou a caminho de casa agora.

— Como está indo a pintura?

— Acho que amanhã será o último dia. Venha ver quando estiver terminada.

— Olá, Morisu.

Shimada saiu do banco do motorista e olhou para Morisu com um sorriso amigável. O tom de Morisu tornou-se solene.

— Boa noite. Onde você foi hoje?

— Só uma visita ao Ko... Não, um pequeno passeio até Beppu. Sabe, estou me dando muito bem com o Conan. Estávamos planejando tomar uns drinques no seu quarto agora.

Morisu e Shimada seguiram Kawaminami até o quarto. Ele rapidamente guardou o futon que ainda estava no chão, abriu a mesa dobrável e preparou as bebidas.

— Morisu, aceita?

— Não, estou bem. Estou de moto, lembra?

Shimada dirigiu-se à estante e observava as lombadas dos livros cuidadosamente organizados.

Observando Kawaminami preparar gelo em seu copo, Morisu perguntou.

— E como está o caso?

— Hmm... — respondeu Kawaminami com uma expressão triste. — Fomos à Cidade S ontem, contudo só conseguimos ver Tsunojima da praia e ouvir algumas histórias de fantasmas.

— Histórias de fantasmas?

— Os rumores de sempre, o fantasma do Seiji vagando pela ilha, esse tipo de coisa.

— Ah. E hoje? Não foram lá só para dar uma volta de carro, presumo.

Uma expressão preocupada surgiu no rosto de Kawaminami e fez uma careta.

— Bem, na verdade...

— Então vocês foram ver o Kojiro?

— Sim. Desculpe por ignorar seu aviso.

Kawaminami parou de misturar o uísque com a água e olhou para o amigo, pedindo desculpas. Morisu suspirou brevemente e se inclinou para frente.

— E o resultado?

— Sabemos a maior parte do que aconteceu no ano passado. Kojiro nos contou. Sr. Shimada, sua bebida está pronta.

— Quer dizer que sabem a verdade por trás do caso? — perguntou Morisu, surpreso.

Kawaminami assentiu e virou o uísque com água de uma vez.

— E a verdade é?

— Foi um assassinato seguido de suicídio planejado por Seiji.

E Kawaminami começou a falar.



Parte 3

— Plantei isso no ano em que Chiori nasceu! — disse Kojiro, e estremeceu levemente.

— A glicínia?

Shimada inclinou a cabeça, confuso.

— Mas por quê? — começou a perguntar, porém então murmurou “Entendo” para si mesmo. Depois, se virou para Kawaminami, que não havia entendido nada da conversa.

— É uma referência ao Conto de Genji[1], Conan.

— O Conto de Genji?

— Sim, estou certo? — Shimada perguntou a Kojiro, que estava na varanda. Kojiro assentiu, e Shimada continuou.

— Hikaru Genji, que fora profundamente apaixonado pela esposa de seu pai, a Dama Fujitsubo, por muitos anos, enfim dormiu com ela por uma única noite. Contudo ela engravidou, e os dois tiveram que continuar traindo e enganando seu pai e marido depois disso.

Kojiro considerava Kazue, a esposa de seu irmão, sua Dama Fujitsubo.

Chiori, a criança nascida do pecado. O nascimento os aproximou, assim como também os separou. Seu coração, ainda ansiando por Kazue, o fez plantar aquela glicínia, pois Fujitsubo significava “pavilhão de glicínias”. A Dama Fujitsubo jamais se esqueceu do pecado que cometera com Hikaru Genji, nem jamais se perdoou. E a amante de Kojiro também não...

— Você sempre gostou dessa história.

Shimada se levantou do sofá e caminhou até Kojiro por trás.

— Seiji descobriu sobre vocês, não foi?

— Não, acho que meu irmão apenas suspeitava. Acredito que metade dele sabia que algo havia acontecido e a outra metade tentava negar. — respondeu Kojiro, com os olhos ainda fixos no jardim. — Meu irmão tinha talentos incríveis, embora como ser humano, faltava-lhe algo. Ele amava minha cunhada apaixonadamente, no entanto era... Como dizer? Um amor distorcido, que havia sido dominado por uma ânsia, um desejo insano de tê-la só para si. Era assim que eu via as coisas.

— Acho que meu irmão era consciente desse fato. Sabia que não era um bom marido para ela. Por esse motivo, sempre tinha medo, sempre desconfiava. Acho que meu irmão sentia algo próximo ao medo por Chiori. Entretanto uma parte sua seguia tentando acreditar, queria acreditar que Chiori era sua própria filha. Essa parte que ainda acreditava em seu vínculo com a esposa foi o que manteve sua mente equilibrada durante aqueles vinte anos.

— Mas então Chiori morreu. Com a morte repentina de sua filha, em quem sempre tentara acreditar, apesar de seus medos, ele perdeu o único laço que o ligava à esposa. Meu irmão foi lançado de volta a um mar de suspeitas. Suspeitava que sua esposa não o amava, que o coração dela pertencia a outro, que pertencia ao próprio irmão. E assim remoeu, sofreu e por fim sucumbiu... Meu irmão a matou com as próprias mãos.

Kojiro, com os olhos fixos nas novas folhas que haviam crescido no pavilhão de glicínias, não moveu um músculo.

— O que aconteceu em Tsunojima... Foi um suicídio forçado planejado pelo meu irmão.

— Um suicídio forçado?

— Sim. Naquele dia, na tarde de 19 de setembro, eu recebi um pacote do meu irmão, assim como você disse. Dentro havia uma mão esquerda ensanguentada, lacrada em um saco plástico. Reconheci o anel no dedo anelar. No mesmo instante percebi o que havia acontecido.

— Telefonei para a Mansão Azul. Meu irmão atendeu, como se estivesse me esperando. Ele disse, sem riso nem tristeza na voz: “Os Kitamuras e Yoshikawa também morreram por mim. Como um presente de despedida para nós dois...”

— Ele tinha enlouquecido. Foi tudo o que entendi. Meu irmão não ouvia nada do que eu dizia e falava sobre como os dois estavam indo para uma nova fase, algo sobre as bênçãos da grande escuridão, que eu precisava cuidar bem do presente que havia me enviado. E depois de tudo isso, desligou o telefone.

— Não há como meu irmão seguir vivo. Ainda que as evidências físicas digam que existe uma possibilidade, digo que a psicologia não permite. Ele não morreu porque matou minha cunhada, e sim porque não suportava mais viver e decidiu levá-la junto.

— Mas Ko...

— Escute, Shimada, e você também, Kawaminami. Nakamura Seiji está morto. Ateou fogo em si mesmo. Os poucos dias entre o assassinato da esposa e a própria morte não foram apenas para lhe dar tempo de me enviar a mão dela, para se vingar e me fazer sofrer. Foram dias para que pudesse segurar em seus braços o corpo da esposa que sempre estivera longe demais para alcançar em vida.

Kojiro não falou mais nada. Olhando para suas costas, parecia que havia envelhecido e diminuído de tamanho.

Essa figura encarando o jardim imóvel... O que, Kawaminami se perguntou, estaria projetando no pavilhão de glicínias? A imagem da mulher assassinada que amara? O rosto de seu assassino, seu próprio irmão? Ou a imagem de sua filha, que morrera em um trágico acidente?

Era tal qual Shimada havia dito, Kojiro era o pai da falecida Chiori. Então, a pessoa que tinha motivos para odiar os alunos que a levaram à morte era...

— Ko, quero te perguntar mais uma coisa. — Shimada quebrou o pesado silêncio. — O que fez com a mão de Kazue? Onde está agora?

Kojiro não disse uma palavra.

— Ko, eu...

— Já sei, só quer saber o que de fato aconteceu. Vai dizer que não vai contar para a polícia, certo? Já sei, Shimada.

E Kojiro apontou para o pavilhão de glicínias mais uma vez.

— Ali. Sua mão está enterrada embaixo daquela árvore.



— Foi exatamente como você disse, Morisu.

Kawaminami preparou outro uísque com água.

— Pode parecer rude para o Sr. Shimada, porém acho que perguntamos coisas que nunca deveríamos ter perguntado. Não me parece certo.

Morisu continuou fumando em silêncio.

— Kojiro disse que Nakamura Seiji está morto. Acho que é verdade. Agora o único problema que resta são as cartas.

— O que acha do paradeiro de Yoshikawa Sei’ichi? — perguntou Morisu, incluindo Shimada na pergunta.

— O Sr. Shimada também parece estar interessado no seu desaparecimento, contudo como o corpo não foi encontrado, acho que apenas caiu no mar e foi levado pela correnteza. — respondeu Kawaminami, olhando para Shimada, que estava sentado com as costas encostadas na parede. Ele lia um livro que havia pegado da estante, com o copo em uma das mãos. Será que estava ouvindo a conversa deles?

— Enfim... — com as bochechas vermelhas por causa do álcool, Kawaminami bateu palmas. — Chega de brincar de detetive. Talvez a gente descubra quem escreveu aquelas cartas estranhas quando a turma voltar da ilha na próxima terça-feira.



Notas:
1. O Conto de Genji (Genji Monogatari) é uma obra clássica da literatura japonesa, atribuída à nobre, poetisa e dama de companhia Murasaki Shikibu, por volta do auge do período Heian, no início do século XI. É frequentemente considerado o primeiro romance da história , bem como o primeiro escrito por uma mulher a alcançar reconhecimento global. No Japão, O Conto de Genji possui um status semelhante ao de Shakespeare no Reino Unido.

***

Link para o índice de capítulos: The Decagon House Murders

Para aqueles que puderem e quiserem apoiar a tradução do blog, temos agora uma conta do PIX.

Chave PIX: mylittleworldofsecrets@outlook.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário