Capítulo 05: O Terceiro Dia na Ilha
Parte 1
Era quase meio-dia quando Agatha acordou. Ela havia dormido demais, pois ficara acordada quase a noite toda, conseguindo dormir apenas pela manhã.
Olhando para o relógio, sentou-se ereta na cama. Mas, depois de ouvir atentamente, percebeu que os outros também não haviam se levantado.
Ela se cobriu com o cobertor de novo e ficou deitada inquieta de bruços.
Tinha ido para a cama às três da manhã. Com exceção de Van e Carr, que tinham ido dormir cedo, imaginou que os outros tivessem se recolhido por volta do mesmo horário.
A princípio, Agatha sentiu vergonha de ter levantado tão tarde, mesmo estando de férias, porém quando percebeu que não era a única, pegou os cigarros em sua mesa de cabeceira.
Estava com a pressão baixa. Levaria uma boa hora até que conseguisse se levantar e se preparar para a rotina diária.
Que estranho, pensou Agatha... Orczy ainda está na cama?
Apesar de ter ido dormir tão tarde na noite anterior, era incomum Orczy ficar deitada por tanto tempo. Talvez já tivesse se levantado, contudo voltou para o quarto quando os outros não apareceram. Ou...
Com o olhar vago, seguiu a fumaça do cigarro que se dissipava. Gostava de fumar, no entanto evitava fazê-lo na companhia de outros.
Depois de acender o segundo cigarro, levantou devagar seu corpo cansado da cama.
Vestiu um suéter bege sobre uma blusa preta e parou em frente ao espelho. Certificando-se de que suas roupas estavam impecáveis, pegou sua nécessaire e estojo de maquiagem e saiu do quarto.
O salão decagonal vazio estava tão sombrio como sempre, apesar do meio-dia. A mesa no centro era como um ponto branco flutuando na escuridão. A faixa de céu visível pela claraboia estava tão cinza quanto ontem.
Agatha foi direto para o banheiro, lavou o rosto rapidamente e se maquiou. Ao retornar ao corredor, começou a limpar as xícaras, copos e cinzeiros cheios de bitucas que haviam sido deixadas sobre a mesa na noite anterior.
E então, com o canto do olho, vislumbrou um lampejo vermelho... O que é aquilo?
Virou a cabeça e em seguida se lembrou de onde já tinha visto aquele vermelho. Sentiu-se empalidecer. Estava pendurado em uma das portas de madeira simples.
[Primeira Vítima]
A princípio, apenas um som fraco saiu de seus lábios, entretanto no instante seguinte, Agatha gritava a plenos pulmões.
Uma porta atrás dela se abriu e Carr foi o primeiro a saltar para o corredor. Ele já estava de pé e vestido.
Carr avistou Agatha petrificada e então viu o objeto para o qual estava encarando.
— De quem é aquele quarto? — gritou.
Agatha não conseguiu falar. A placa com os caracteres vermelhos cobria o nome na porta.
Porta após porta se abriu e os outros saíram.
— De quem é este quarto, Agatha? — repetiu Carr.
— O-Orczy.
— O quê?
Foi Poe quem correu até a porta. Ainda de pijama, com os cabelos despenteados por causa do sono interrompido, sua mão agarrou a maçaneta com fúria.
A porta não estava trancada.
Foi quase anticlimático a facilidade com que a porta se abriu.
Um quarto escuro. Um raio de luz entrando pela fresta entre as persianas, cortando a escuridão como uma espada afiada.
— Orczy.
Poe a chamou com a voz trêmula.
— Orczy.
A cama encostada na parede era cinza na escuridão. Ela estava deitada ali tranquilamente, coberta até o peito com o cobertor. Seu próprio cardigã azul-escuro estava puxado sobre a cabeça...
— Orczy!
Poe soltou um rugido e correu para o quarto. O corpo deitado na cama, porém, não se moveu.
— O que aconteceu? Orczy...
Levantando o cardigã que cobria o rosto de Orczy com suas mãos fortes e trêmulas, Poe sentiu o corpo todo estremecer. Os outros cinco, que o haviam seguido e agora estavam parados na entrada, tentaram entrar.
— Não entrem! — implorou Poe, erguendo os braços para desencorajá-los. — Eu imploro. Ela não gostaria que vocês a vissem assim...
Ao ouvirem essas palavras, os cinco permaneceram onde estavam.
Poe respirou fundo, erguendo os ombros. Com cuidado, levantou o cobertor e começou a examinar o corpo da pobre Orczy, que nunca mais se moveria ou sentiria vergonha.
Depois de terminar, Poe recolocou o cobertor e o cardigã. Levantou-se lentamente, olhou para o teto e soltou um longo suspiro de dor.
— Vamos sair.
Ele virou-se para os outros.
— Isto é uma cena de crime. É melhor trancarmos. Onde está a chave?
— Está aqui. — antes que alguém pudesse reagir, Ellery entrou na sala e pegou a chave da escrivaninha encostada na parede. — A janela está destrancada. E aí?
— É melhor trancá-la também. Vamos sair, Ellery.
— Mas o que aconteceu com Orczy? — perguntou Van.
Poe agarrou a chave que Ellery lhe dera e disse em voz baixa.
— Ela está morta... Estrangulada.
— Não! — gritou Agatha.
— Sinto muito, Agatha.
— Não... Poe, eu quero ver a Orczy.
— Não posso deixar.
Poe fechou os olhos e balançou a cabeça tristemente.
— Orczy foi estrangulada até a morte, Agatha. Por favor, não olhe. Mesmo que esteja morta agora, ainda merece um pouco de dignidade.
Agatha entendeu imediatamente o que Poe queria dizer. Ele estava falando da visão horrível de um corpo estrangulado. Agatha assentiu e foi conduzida para fora do quarto. E bem quando Poe estava prestes a fechar a porta, alguém se colocou à sua frente, bloqueando sua passagem.
— Você não está tentando demais nos tirar daqui?
Era Carr. Ele olhou para Poe e, com um sorriso sombrio no rosto, disse.
— Pode-se dizer que somos todos especialistas em assassinato aqui. E todos queremos encontrar a pessoa que fez isso com Orczy. Então, nos de uma chance de investigar a cena do crime e o corpo.
— Seu maldito!
O rosto de Poe empalideceu e seu corpo inteiro tremeu enquanto gritava.
— Está pretendendo usar a morte de uma amiga como motivo de diversão? Isso é trabalho para a polícia.
— Do que está falando? Quando a polícia vai chegar? Como vamos avisá-los? Lembre-se do que estava escrito nas placas. Quando a polícia chegar, podemos estar todos mortos, exceto “o Assassino” e “o Detetive”.
Poe empurrou com mais força, tentando fechar a porta. Carr, por sua vez, usou suas mãos amareladas e ossudas para afastar as de Poe.
— Pense melhor e não seja tão estúpido, Poe. O próximo a ser assassinado pode ser ninguém menos que você mesmo, sabia?
— Saia da frente, Carr.
— Ou será que tem algo mais? Por que está tão confiante de que só você não será morto? A única pessoa que pode ter certeza é o próprio assassino.
— O quê?
— Ah, agora entendi!
— Seu desgraçado!
— Parem agora, vocês dois.
Poe estava pronto para pular em cima de Carr. A expressão no rosto de Carr mostrava que também estava pronto para enfrentar Poe. Contudo Van agarrou o braço de Carr e o puxou para longe da porta.
— O que está fazendo, seu verme?
O rosto de Carr ficou vermelho de fúria enquanto gritava. Aproveitando o momento, Poe fechou a porta rapidamente e a trancou.
— Isso foi inapropriado da sua parte, Carr. — disse Ellery, que acabara de voltar da cozinha sem ser visto e segurava as seis placas restantes nas mãos. — Poe tem razão. Infelizmente.
Parte 2
— É inacreditável. Deve ser uma piada de mau gosto. Esse tipo de coisa não acontece na vida real.
— Leroux.
— Um assassinato não é brincadeira! Tem que ser um pesadelo. Não faz nenhum sentido.
— Leroux, pare com isso.
A voz estridente de Agatha fez Leroux estremecer, seus ombros curvados tremendo. Ele olhou para cima.
— Desculpe! — murmurou baixinho, olhando para o chão.
Os seis estavam todos sentados ao redor da mesa no corredor. Nenhum olhava para o rosto dos outros. O lugar vazio que, até a noite anterior, havia sido ocupado pela garota de cabelo curto e olhos baixos agora se destacava dolorosamente.
— Quem matou Orczy?
A pergunta saiu dos lábios rosados de Agatha, no entanto soou mais como uma maldição e pairou trêmula no ar frio.
— Ninguém vai só dizer: ‘Fui eu’. — respondeu Ellery.
— Mas o assassino tem que ser um de nós. Um de nós seis. Quem matou Orczy? Por que não para de fingir que não sabe de nada, assassino?
— Já disse, ninguém vai matar alguém e confessar assim, sem mais nem menos.
— Porém Ellery...
— Já sei, Agatha. Eu sei.
Ellery bateu de leve com o punho na mesa.
— Precisamos descobrir quem é o assassino. E aí, Poe? Não vai nos contar o que descobriu?
Após um momento de hesitação, Poe franziu os lábios e fez um solene aceno.
— Como disse agora há pouco... Orczy foi estrangulada até a morte. Um pedaço de corda de náilon, daquelas que se encontra em qualquer lugar, ainda estava enrolado em seu pescoço e as marcas da ligadura eram claramente visíveis por baixo. Não há dúvida de que foi um assassinato.
— Algum sinal de que Orczy tenha reagido?
— Não. Talvez tenha sido atacada enquanto dormia, ou quando estava desprevenida. Não encontrei nenhum sinal de que tivesse sido atingida na cabeça, então não foi nocauteada antes. Contudo havia uma coisa que não consegui entender.
— O quê?
— Vocês todos viram também. Não sei por quê, no entanto o assassino arrumou o corpo numa espécie de pose digna. Orczy estava deitada de costas, com o pijama arrumado e o cardigã cobrindo o rosto. Talvez tenha sido a consciência do assassino agindo, suponho. Embora tem mais uma coisa... — Poe franziu a testa.
— Orczy estava sem a mão esquerda.
— O quê?
— Como assim, Poe? — perguntou Agatha.
— Sua mão esquerda foi cortada.
Poe olhou ao redor do grupo, colocou os dois braços sobre a mesa e os virou, com as palmas para cima. Em seus dedos havia várias manchas de sangue vermelho-escuro.
— Usaram um instrumento grande e afiado, como uma faca de cozinha. O assassino deve ter tido dificuldade em fazê-lo. O corte foi terrivelmente desajeitado.
— Foi cortada depois do assassinato, é claro. — disse Ellery.
— Não posso afirmar com certeza, entretanto acho que é correto presumir que seja o caso. Se tivesse sido feito enquanto o coração seguia batendo, teria havido muito mais sangue do que houve.
— E você não viu um instrumento desses no quarto?
— Não. Também não consegui encontrar a mão decepada.
— Então o assassino a levou consigo. — murmurou Ellery para si mesmo, enquanto juntava os dedos finos. — Por que faria isso?
— Ele deve estar louco! — gritou Agatha.
Ellery bufou levemente.
— Deve estar, ou deve adorar piadas ruins. É uma alusão... Ao incidente que aconteceu nesta ilha no ano passado.
— Ah.
— O quádruplo homicídio na Mansão Azul. Uma das vítimas, Nakamura Kazue, foi estrangulada e, em seguida, sua mão esquerda foi cortada.
— Por quê, Ellery? — perguntou Agatha.
— Quer dizer qual era a intenção por trás da alusão? Quem sabe? — Ellery deu de ombros. — Vamos continuar... Poe, pode dar uma estimativa da hora da morte?
— Havia alguns sinais de livor mortis[1]. Percebi que o rigor mortis tinha acabado de começar quando verifiquei o pulso de Orczy. Consegui abrir os dedos cerrados de sua mão direita com relativa facilidade, então o rigor mortis ainda não havia atingido suas articulações. Além do mais, considerando a coagulação do sangue... Diria que foram quatro ou cinco horas após a morte. Orczy morreu entre sete e oito da manhã, ou, numa margem maior, entre seis e nove. No entanto sou apenas um amador, então não considere essa resposta como definitiva.
— Acredito em você.
Carr gargalhou como um macaco, mostrando os dentes.
— Você é a estrela da nossa querida faculdade de medicina da Universidade K. Podemos confiar no que diz... A menos, é claro, que seja o assassino...
Poe permaneceu em silêncio e nem sequer olhou para Carr.
— Alguém tem um álibi para o período entre seis e nove da manhã? — Ellery fez a pergunta a todos. — Alguém notou algo que possa ser relevante para o caso?
Ninguém reagiu.
— Alguém tem alguma ideia sobre o motivo, então?
Os olhos de Leroux, Van e Agatha se voltaram lentamente para Carr.
— Entendo. — Ellery parecia exasperado. — Todos vocês acham que Carr tinha um motivo. Bastante óbvio, não é?
— O quê? Por que eu? — exclamou Carr.
— Orczy te rejeitou, não foi?
Carr engasgou e fechou a boca com força.
— Entretanto Ellery, se Carr fosse o assassino, jamais teria arrumado o corpo dela de forma tão digna. — exclamou Agatha em tom sarcástico... — Carr é o único que não o teria feito.
Parte 3
— Malditos sejam.
Carr sentou-se nas rochas e cuspiu no chão enquanto olhava para a Ilha do Gato, flutuando no mar diante de seus olhos. Ele agarrou algumas ervas daninhas próximas e arrancou as folhas.
— Malditos sejam! — repetiu com raiva.
As folhas que havia colhido foram levadas pelo vento e dançaram em direção ao mar.
Eles sempre seguem caminhos separados, exceto quando querem me pegar... Só então trabalham juntos. Aquele Poe também, com sua conversa pretensiosa... E tenho certeza de que não fui o único que quis dar uma olhada melhor no corpo de Orczy e no interior do quarto.
Ellery, em particular, estava pronto para investigar. Leroux também. Van também. Deixamos Poe fazer tudo. Será que não percebem o quão perigoso isso pode ser?
Até o tumulto das ondas abaixo começou a irritá-lo. Voltou a cuspir no chão mais uma vez, franziu os lábios e bateu no joelho com o punho.
É tudo culpa da Orczy. Um fora? Estava apenas entediado e bati um papo rápido com ela. Hmph. Ela achou que eu estava falando sério e se achou a dona da verdade... Mulher estúpida. Quem pensa que é? Hmph. Como se fosse matar alguém por causa de uma bobagem tão banal...
Carr encarou a paisagem à sua frente, sentindo-se tomado por raiva e humilhação.
— Não há um barco sequer por aqui. E não temos as ferramentas para cortar árvores e fazer uma jangada. Mesmo que conseguíssemos improvisar uma, duvido que chegaríamos até o continente... Quer um cigarro, Van?
Em busca de uma forma de se comunicar com o continente, o grupo, com exceção de Carr, decidiu se dividir em duas equipes para explorar a ilha. Poe, Van e Agatha formaram uma equipe. Eles estavam explorando a área entre as costas sul e leste.
Poe ofereceu um cigarro a Van, fumou um ele mesmo e cruzou os braços em silêncio.
— A única coisa que podemos fazer é acender uma fogueira e torcer para que nos encontrem.
— Será que realmente notariam uma coisa dessas? Além do mais... — Van olhou para o céu enquanto acendia um cigarro. — As nuvens não parecem nada boas. Pode chover esta noite.
— Que droga. Por que não pensamos em um método de contato antes de virmos para cá, só por precaução?
— Agora é tarde demais. Quem imaginaria que algo assim aconteceria? — os ombros de Van caíram. — E minha febre tinha acabado de baixar. Não acredito que isso esteja acontecendo...
— Não vi um único barco de pesca durante todo esse tempo. — disse Agatha, visivelmente angustiada.
O céu carregado de nuvens projetava uma sombra escura sobre o mar.
— Porém um barco pode aparecer alguma hora. — disse Poe. — É melhor termos alguém de vigia aqui. Duplas, em três turnos.
— Poe, não! — gritou Agatha. — Não quero ficar sozinha com alguém que possa ser o assassino.
— Trios, então. — sugeriu Van.
— Então podemos vir todos juntos. — disse Poe. — A única hora em que um barco passa por aqui é quando sai ou retorna ao porto, talvez ao amanhecer ou ao entardecer.
— Contudo há uma chance de que passem em outros horários. — disse Van.
— Talvez, no entanto, se me perguntar, a chance é muito pequena. O velho barqueiro nos disse isso quando chegamos aqui. Os pesqueiros desta área ficam mais ao sul, então os barcos quase nunca vêm para cá.
— Entretanto não há muito mais que possamos fazer. — disse Van. — Tem alguma coisa que possamos usar como lenha para acender uma fogueira de sinalização?
— Isto pode ser um problema. — Poe olhou para a floresta. — Só pinheiros. Não queimam bem quando estão frescos. Poderíamos juntar agulhas de pinheiro secas e caídas e queimá-las, todavia não há muitas, então não conseguiriam ver o fogo do continente. A única coisa que podemos fazer é esperar que um barco passe.
— O que vai acontecer com a gente? — Agatha parecia apavorada.
— Vamos ficar bem. De alguma forma.
Poe colocou a mão no ombro de Agatha e sorriu sem jeito por baixo da barba. Mas Agatha parecia não estar convencida.
— Você diz isso, porém, pelo que sei, você, ou talvez Van, pode ter sido quem matou Orczy.
Poe tirou um novo cigarro em silêncio.
— Ou Carr, ou Leroux, ou Ellery...
Agatha estava pálida como a morte e tremia visivelmente.
— Um de vocês matou Orczy. Matou e depois cortou sua mão.
— Você também é uma das suspeitas, Agatha. — disse Van com um olhar solene, incomum para ele.
— Não fui eu.
Agatha voltou-se para a floresta e enterrou o rosto nas mãos.
— Aah, não consigo acreditar. Isso é real? Van, Poe? Orczy está mesmo morta? Há um assassino entre nós?
— Sabe, Leroux, estou pensando em outra possibilidade.
— Outra?
— É óbvio. Pode haver alguém além de nós nesta ilha.
— O quê?
Ellery e Leroux primeiro foram até a enseada com o píer, depois para a área rochosa perto da Mansão Azul incendiada, e agora caminhavam pela pequena trilha no bosque. Os dois seguiam em direção aos penhascos do norte que davam para a Ilha do Gato.
Leroux parou de repente e perguntou outra vez.
— O que você quer dizer, Ellery?
— Existe a possibilidade de o assassinato ter sido cometido por alguém de fora. — Ellery sorriu. — Ou prefere pensar que um de nós é o assassino?
— N-Não faça piadas sobre isso. Quem poderia estar escondido na ilha?
— Ah, se me perguntar... — disse Ellery com indiferença. — Diria Nakamura Seiji.
— Oh!
— Por que tanta surpresa?
— Contudo Ellery, Nakamura Seiji foi assassinado no ano passado.
— É o que dizem, no entanto acho que houve um engano. Nunca considerou a possibilidade, Leroux? O corpo de Nakamura Seiji, encontrado há seis meses, era o exemplo clássico de um “cadáver sem cabeça”. E ainda tem aquele jardineiro que desapareceu na mesma época.
— Quer dizer que Seiji era o assassino e o corpo que se pensava ser o seu era, na verdade, do jardineiro?
— Exato. Uma simples troca.
— Então Seiji segue vivo e veio para a ilha.
— Uma possibilidade. Embora talvez realmente more na ilha.
— Está morando aqui?
— Lembra da história que o velho pescador nos contou há dois dias? Que às vezes as luzes da Casa Decagonal ficam acesas? Talvez tenha sido Seiji quem as acendeu.
— Não pode acreditar em todas essas histórias de fantasmas. A ilha estava repleta de policiais e jornalistas depois dos assassinatos. Onde acha que o Seiji ficou escondido naquela época, e onde estará escondido agora?
— É por essa razão que estamos explorando. Acabamos de dar uma olhada no pequeno galpão de barcos na enseada, e não havia nada suspeito lá. Claro que nossa prioridade é encontrar uma maneira de contatar o continente, todavia acho que também devemos procurar vestígios de alguém que more na ilha. É por esse motivo que disse que precisamos dar uma olhada na Ilha do Gato.
— Mesmo assim, não consigo acreditar que o Seiji seja o assassino.
— Sério? Não se lembra que a janela do quarto da Orczy não estava trancada? Não é razoável supor que se esqueceu de trancar a janela e que alguém entrou por fora?
— Então por que a porta também estava destrancada?
— O assassino a abriu por dentro depois do crime. Para entrar no corredor e colar a placa de plástico na porta.
— Isso não faz sentido. Como alguém de fora poderia saber que você colocou as placas na gaveta da cozinha?
— Quem deixou essas placas de plástico poderia ter sido alguém de fora, não é? A fechadura da porta da frente está quebrada, então qualquer um pode entrar e sair quando quiser. Ontem de manhã, Seiji poderia ter deixado essas placas na mesa, esperado até que nos levantássemos e nos observado pela janela da cozinha. Ou alguém entre nós pode estar trabalhando junto.
— Isso é impossível.
— Estou apenas discutindo teorias, Leroux. Para um grande fã de romances policiais, você não está demonstrando muita imaginação.
— Ellery, romances policiais e realidade são duas coisas diferentes. De qualquer forma, que motivo Nakamura Seiji teria para querer nos matar?
— Quem sabe?
Eles chegaram ao fim da trilha e saíram nos penhascos onde Carr estava sentado. Ao vê-los, Carr se levantou e olhou para o outro lado.
— Ei, é melhor não ficar andando sozinho o tempo todo.
Ellery estava falando com Carr, que não disse uma palavra. Este o ignorou e entrou no bosque.
— Cara difícil.
Ellery estalou a língua de leve.
— Todo mundo está tenso agora. Acho que também falei demais. Mas parece que ele guarda rancor de mim pessoalmente.
— Acho que sei o que o está incomodando. — disse Leroux, e olhou para onde Carr havia desaparecido. — Mesmo em momentos como este, você sempre permanece tão calmo, Ellery, como se estivesse nos observando, pessoas normais, de um lugar distante.
— É assim que eu pareço na sua perspectiva?
— Sim. Não sei se é um elogio, porém sinto uma certa admiração por você por isso. Carr é o oposto, e acho que tem inveja.
— Então é só isso?
Com um olhar desinteressado, Ellery caminhou em direção ao mar.
— Há muitos arbustos aqui. Não é um bom lugar para observar a ilha.
Estava falando da Ilha dos Gatos, que ficava à frente. Leroux parou ao lado de Ellery e disse, prestando atenção onde pisava.
— Parece que duas ou três pessoas poderiam se esconder ali. Contudo tem aquele penhasco.
— Pode ser que tenha um bote. Não é longe, um bote inflável deve servir. Saindo daquela área rochosa ali e então… Ei, olha, Leroux. — Ellery apontou.
— Aquela encosta na ilha, acha que dá para escalar?
— Sim, acho que sim.
Encarando a escura Ilha do Gato flutuando sobre as ondas brancas, Leroux tentava organizar os pensamentos confusos em sua mente.
É verdade que a possibilidade de haver outra pessoa na ilha não podia ser descartada por completo, como Ellery havia apontado. Alguém poderia estar lá fora, escondido, querendo matá-los. No entanto presumir que essa pessoa fosse Nakamura Seiji seria tirar conclusões precipitadas. Quais eram as chances de Nakamura Seiji seguir vivo? E mesmo que estivesse, por que os quereria mortos?
É simplesmente impossível.
Leroux balançou a cabeça.
É impossível, pensou.
Mas havia algo em sua memória que o incomodava. Havia algo que precisava lembrar.
As ondas que banhavam os penhascos a seus pés também banhavam sua mente. Cada vez que um fragmento de memória surgia, as ondas o levavam imediatamente embora.
Leroux desistiu de pensar e olhou para Ellery ao seu lado. Ellery não tinha mais nada a dizer e olhava friamente para o mar.
O vento trazia o aroma do crepúsculo.
Parte 4
— Devido à baixa pressão, o céu ficará nublado em uma grande região, a partir desta noite e durando até amanhã à noite, mas permanecerá seco. O tempo se recuperará a partir de depois de amanhã. E agora, a previsão do tempo para cada área de Kyushu...
Por fim, a voz que saía do toca-fitas de Leroux foi abafada por uma DJ feminina em alto volume.
— Já chega. Desligue isso, Leroux, não quero mais ouvir. — disse Agatha irritada. Leroux apressou-se em obedecer.
O jantar simples deles havia sido realizado em um silêncio pesado, iluminado pela lamparina a óleo. Os seis estavam sentados ao redor da mesa, todos evitando o lugar em frente à porta do quarto de Orczy. A placa com “A Primeira Vítima” seguia estando na porta. Parecia ter sido colado com uma cola forte, e não conseguiam removê-la.
Agatha disse com uma voz deliberadamente alegre.
— Ei, Ellery, mostre-nos outro dos seus truques de mágica.
— Hmm? Ah, claro.
Ellery, que estava brincando com as cartas em silêncio, embaralhou-as em rápidos movimentos, juntou as cartas em um estojo e guardou o baralho no bolso do casaco.
— Por que está as guardando agora que pedi para me mostrar um truque?
— Calma aí, Agatha. Eu as coloquei no bolso porque você quer ver um truque de mágica.
— Como assim?
— É assim que o truque começa.
Ellery tossiu baixinho e então olhou nos olhos de Agatha.
— Certo, pronta, Agatha? Pense em qualquer uma das cinquenta e duas cartas, qualquer uma que quiser, exceto o coringa.
— Só pensar nela?
— Sim. Não diga em voz alta... Pronto?
— Sim.
— Certo...
Ellery tirou o estojo do bolso do casaco outra vez e o colocou sobre a mesa. Era o baralho do ciclista.
— Agora, de uma boa olhada neste estojo. Depois, pense muito bem na carta que escolheu e repita o nome dela mentalmente.
— Certo! — disse Agatha. — Só pensar bem, certo?”
— Sim. Isso basta.
Ellery pegou o estojo com a mão esquerda.
— Agora, Agatha, em qual carta você pensou?
— Posso te dizer agora?
— Sim.
— A Dama de Ouros.
— Heh. Vamos dar uma olhada no estojo então.
Ellery abriu a tampa do estojo e tirou as cartas com a face para cima. Ele a abriu lentamente entre as mãos.
— Dama de Ouros, certo? Ah!
Ellery parou de abrir as cartas e direcionou a atenção de Agatha para uma delas com o olhar. Uma única carta estava virada para o lado oposto.
— Uma carta está virada para o lado oposto, veja só.
— Sim.
— Poderia tirá-la e nos mostrar o lado?
— Sim, mas não pode ser...
Com um olhar duvidoso, Agatha tirou a carta e a colocou sobre a mesa com a face para cima. Era, sem dúvida alguma, a Dama de Ouros.
— Inacreditável!
Agatha ficou surpresa.
— Um truque genial, não acha? — Ellery sorriu, guardou as cartas de volta no estojo e o estojo no bolso.
— Ellery, isso foi impressionante.
— Eu já não te mostrei ele antes, Leroux?
— É a primeira vez que vejo.
— Agatha não estava envolvida nisso, estava?
— Não estava, Leroux.
— Mesmo?
— Não houve nenhuma armação aqui. — insistiu Ellery. — E também vou te dizer que este não foi um truque de probabilidade, apostando na chance de 52 para 1 de Agatha escolher a Dama de Ouros.
Ellery acendeu um cigarro Salem e deu uma tragada lenta.
— Vamos fazer um pequeno enigma agora. Preciso anotar este.
Ele tirou um lápis e um pedaço de papel do bolso e escreveu: O QUE HÁ NO TOPO DE UMA ÁRVORE E NO FINAL DE UM POÇO? Então, ergueu a mensagem e a mostrou ao grupo.
— Por que não diz em voz alta? — perguntou Leroux, porém Ellery apenas ergueu uma sobrancelha em resposta.
— Entendi.
Agatha bateu palmas.
— Uma linha horizontal! Das letras T e L?
Temos uma vencedora! — exclamou Ellery.
— Ah, agora entendi. — disse Leroux. — A linha horizontal das letras T e L quando você escreve as palavras ‘topo’ e ‘final’ em maiúsculas.
— Exato. — confirmou Ellery. — Agora, aqui vai outro: como se le a combinação de letras THNQ?
O grupo ficou sentado em silêncio por alguns instantes.
— Oh! — disse Poe, enquanto guardava um novo maço de cigarros Lark em sua caixa de madeira de bétula. — Ouvi essa na universidade há um tempo. Não tem nenhum truque vocal, só tem de ler as letras como se pronunciam thenkyu.
Leroux gemeu.
— Que horror.
— Não vale! — concordou Agatha.
Ellery deu de ombros.
— É estranho. Admito.
— Você sempre tem que prestar atenção à formulação de um enigma. A linguagem é como um código secreto. — disse Poe.
— Falando em códigos... — interrompeu Ellery. — Sabia que o primeiro livro a apresentar um código secreto é o Antigo Testamento? Acho que foi o Livro de Daniel.
— Há tanto tempo assim? — perguntou Leroux.
— Sim, mesmo aqui no Japão usamos códigos secretos há bastante tempo, sabia? Tem aquele famoso poema de perguntas e respostas entre Yoshida Kenko e Ton’a no Shoku Soanshu. Você não aprendeu sobre no ensino médio?
— Não, que tipo de código é esse? — perguntou Agatha.
— O poema de Kenko para Ton’a dizia:
“A noite está fresca
Oh, as espigas de arroz colhidas quando eu acordo
Minha mão almofada
Até as minhas mangas, no outono
Balançam ao vento implacável.”
— Pegue as primeiras letras de cada linha do texto original e você verá yonetamahe, ou “Arroz, por favor”. Ele estava pedindo comida. E se pegar as últimas letras de cada linha e lê-las ao contrário, obtém zenimohoshi, ou “Também preciso de dinheiro”.
— Que história triste. — disse Agatha.
— E o monge budista Ton’a respondeu.
“A noite é deprimente
Meu caro amigo
Você não veio
Mas algo vai dar certo
Então apareça por um tempo.”
— Pegue as primeiras e últimas letras outra vez e obterá a mensagem yonewanashi, zenisukoshi: “Sem arroz, pouco dinheiro”.
— Eles devem ter gasto bastante tempo pensando nisso.
— Lembro que havia outro código secreto famoso em um poema de perguntas e respostas nos Ensaios sobre a Ociosidade. Qual era mesmo, Orczy?
Eles estavam relaxando enquanto conversavam, contudo ao ouvirem o nome, todos prenderam a respiração e congelaram.
— Eu... Sinto muito. Simplesmente escapou.
Até mesmo Ellery podia perder a cabeça. Um erro desses não era comum para ele.
Havia um entendimento tácito entre eles desde o jantar de que não mencionariam o que aconteceu com Orczy, todavia o deslize de Ellery os trouxe de volta à realidade inescapável. Um silêncio opressivo tomou conta da sala.
— Ellery, você não tem mais nenhuma história? — perguntou Leroux, tentando ajudar Ellery, que estava sem palavras.
— Ah, sim...
Interrompendo cruelmente Ellery, que se esforçava para esboçar seu sorriso habitual, Carr bateu na mesa.
— Agatha, que tal um café? — disse ele, lançando um olhar desdenhoso para Ellery.
Ellery começou a dizer algo, no entanto Agatha o interrompeu antes.
— Sim, boa ideia. Vou fazer um café. Tenho certeza de que todos vão querer.
Ela se levantou apressadamente e foi sozinha para a cozinha.
— Ei.
Carr lançou um olhar fulminante para os rostos dos quatro restantes.
— Vamos fazer um velório para o pobre Orczy hoje à noite, certo? Então parem de fingir que nada aconteceu e vamos ser gentis uns com os outros.
— Aqui está. Açúcar e leite também.
Agatha colocou a bandeja com seis xícaras verde-musgo sobre a mesa.
— Desculpe por pedirmos que você faça isso todas as vezes. — disse Ellery, pegando a xícara mais próxima. Os outros também estenderam a mão para pegar xícaras. Agatha pegou uma para si e empurrou a bandeja com a última xícara para Van, que estava sentado ao seu lado.
— Ah, obrigado.
Van colocou o cigarro Seven Stars meio fumado no cinzeiro e segurou a xícara nas mãos, aquecendo-se.
— Como está seu resfriado, Van?
— Ah, muito melhor, obrigado. Ellery, nós não conversamos muito sobre isso, mas realmente não há como contatar o continente?
— Parece que não.
Ellery tomou seu café puro.
— Há um farol no Cabo J, então pensei que poderíamos tentar acenar uma bandeira branca daqui. Porém suspeito que esteja desabitado.
— Sim, acho que tem razão.
— Então um de nós teria que arriscar a própria vida nadando até o continente, ou poderíamos construir algum tipo de jangada.
— Nenhum desses planos parece muito bom.
— Poderíamos fazer uma fogueira de sinalização. — disse Poe.
— Não acho que algumas agulhas de pinheiro em chamas seriam suficientes para atrair a atenção do mundo exterior. — rebateu Ellery.
— Poderíamos incendiar a Casa Decagonal, se necessário. — insistiu Poe.
— Acho que isso seria demais. — interrompeu Van.
— Seria estúpido e perigoso. Contudo você sabe, Leroux e eu não estávamos apenas procurando um meio de comunicação com o continente quando demos a volta na ilha mais cedo.
— O que mais vocês estavam procurando?
— Algo que não conseguimos encontrar, mesmo tendo vasculhado quase a ilha inteira... Não, espere.
— O quê?
— A Mansão Azul... Não vasculhamos as ruínas da Mansão Azul... — murmurou Ellery, tocando a testa com os dedos. — Pode haver uma sala subterrânea ali.
— Uma sala subterrânea?
Aconteceu naquele exato momento.
Interrompendo a conversa de Poe e Ellery, alguém caiu sobre a mesa, gemendo horrivelmente.
— O que foi? — gritou Agatha.
Todos se levantaram. A mesa tremeu. Um líquido marrom espirrou das xícaras meio vazias. Ele se debateu e chutou a cadeira para o chão enquanto suas pernas se contraíam como as de uma boneca mecânica quebrada. Seu tronco finalmente escorregou da mesa para o chão de azulejos azuis.
— Carr! — gritou Poe e correu para o seu lado.
Empurrado por Poe, Leroux tropeçou e derrubou a própria cadeira.
— O que aconteceu com o Carr? — exclamou Ellery.
Poe examinou os olhos de Carr e balançou a cabeça.
— Não sei. Alguém sabe se Carr tem algum problema de saúde?
Ninguém respondeu.
— Isso é ruim! — disse Poe.
Carr continuava a respirar com dificuldade, emitindo um chiado agudo. Poe passou seu braço grande em volta dos ombros de Carr.
— Me ajude, Ellery. Precisamos fazê-lo vomitar. Acho que é veneno.
O corpo de Carr se contraiu violentamente, empurrando o braço de Poe para longe. Apenas o branco de seus olhos era visível enquanto jazia no chão, encolhido como um camarão. Depois de um tempo, houve outra convulsão forte. Vômito marrom saiu da boca de Carr, acompanhado de um grito terrível.
— Ele vai sobreviver, não vai? — Agatha perguntou a Poe com um olhar aterrorizado.
— Eu não sei.
— Você não pode ajudá-lo?
— Não sei que veneno é. E ainda se soubesse, há pouco que posso fazer aqui. Só podemos esperar que não tenha sido uma dose fatal.
Na mesma noite, duas e meia da manhã.
Carr morreu deitado na cama em seu quarto.
Parte 5
Todos estavam exaustos demais para dizer qualquer coisa. Não era fadiga que os afligia, mas algo próximo à paralisia.
Era diferente do que acontecera com Orczy... Desta vez, alguém sofrera, desmaiara e morrera de forma horrível diante de seus olhos. O colapso visceral e brutal da vida cotidiana havia entorpecido seus sentidos.
Agatha e Leroux encaravam o vazio com a boca entreaberta, a mente em outro lugar. Van suspirava sem parar, a cabeça apoiada nas mãos. Poe, com os olhos fixos na janela, não tentou pegar sua carteira de cigarros. A expressão no rosto de Ellery permanecia inalterada, como uma máscara Noh de olhos fechados.
Nenhum luar entrava pela claraboia.
Ocasionalmente, o feixe de luz do farol iluminava a porção de céu escuro visível acima. A luz da lamparina a óleo tremeluzia como se estivesse viva. O ritmo monótono das ondas podia ser ouvido, indo e vindo, indo e vindo.
— Vamos acabar logo com isso! — disse Ellery. — Quero dormir.
Ele mal conseguia manter os olhos sonolentos abertos.
— Concordo! — respondeu Poe lentamente, o que pareceu despertar os outros três de seus torpores.
— A única coisa que posso dizer... — continuou Poe. — É que algum tipo de veneno foi usado. Não sei qual.
— Não consegue fazer um palpite? — perguntou Ellery.
— Bem, talvez. — Poe franziu a testa. — Com base na rapidez com que agiu, acho que é um veneno muito forte. Causou falta de ar e convulsões, então há uma boa chance de ser uma neurotoxina. Venenos comuns que se enquadram nessa categoria são cianeto de potássio, estricnina e atropina. Também pode ter sido nicotina, arsênico ou ácido arsenioso. Porém atropina e nicotina causariam dilatação das pupilas, e eu não vi isso. O cianeto teria causado um cheiro característico... Sabe, o chamado cheiro de amêndoa amarga. Contudo também não o detectei. Então, o mais provável seria estricnina, ou algum tipo de arsênico ou ácido arsenioso.
As seis xícaras meio vazias ainda estavam sobre a mesa. Agatha as encarava enquanto ouvia a explicação de Poe, no entanto agora, de repente, caiu na gargalhada.
— Então estava no café. Quer dizer que sou a principal suspeita.
— Sim, Agatha. — respondeu Ellery em um tom cortante. — Foi você mesmo?
— Você acreditaria se dissesse que não?
— Bem, não. Seria ilógico.
— Imaginei.
Os dois riram em silêncio. Estavam tão cientes quanto todos os outros do tom bizarro e anormal da conversa.
— Vocês dois podem parar? — repreendeu Poe em voz baixa e sombria, depois colocou um cigarro na boca e ofereceu seu estojo de madeira de bétula a Ellery.
— Precisamos pensar nisso com seriedade.
— Eu sei. Não estamos brincando à toa.
Ellery empurrou o estojo de cigarros de Poe de volta e tirou seu próprio maço de Salem do bolso da camisa. Tirou um cigarro e bateu o filtro na mesa para compactar o tabaco.
— Vamos começar repassando os fatos. — falou. — Foi o próprio Carr quem pediu café. Enquanto Agatha estava na cozinha, o resto de nós ficou aqui. Levou uns quinze minutos para Agatha ferver água, preparar o café e voltar com as xícaras na bandeja. Agatha colocou a bandeja sobre a mesa. Para ser preciso, a bandeja continha seis xícaras de café, o açucareiro, o pote de leite em pó e sete colheres dispostas em um pires, uma delas para o leite. Está correto, Agatha?
Ela assentiu timidamente.
— Quanto à ordem em que as xícaras foram servidas. — continuou Ellery. — Eu peguei a primeira xícara. Quem foi o próximo?
— Eu. — disse Leroux. — Peguei a minha quase ao mesmo tempo que Carr.
— Fui o seguinte depois dele, pelo que lembro. — disse Poe.
— E então peguei uma e coloquei a bandeja na frente de Van. — disse Agatha.
— Certo, Van?
— Sim, isso mesmo.
— Certo. Resumindo, a ordem foi: eu, Leroux e Carr, Poe, Agatha e, por fim, Van.
Ellery colocou o cigarro na boca e o acendeu.
— Vamos pensar em quem teve a chance de colocar o veneno na xícara de Carr. Primeiro, Agatha.
— Entretanto as xícaras eram todas idênticas... Eu mesma poderia ter pegado a xícara envenenada. Ainda que soubesse em qual xícara estava o veneno, não havia como ter feito com que Carr escolhesse justo aquela. — rebateu Agatha com voz fria. — Se fosse a assassina, teria distribuído as xícaras e não deixado escolherem.
— Agora que mencionou, você sempre nos entregou as xícaras antes. Por que não o fez desta vez?
— Só não estava com vontade de fazê-lo.
— Ah. Contudo permita-me te dizer uma coisa, Agatha: o assassino pode não ter tido Carr como alvo específico. O objetivo final do assassino é matar todos nós, no entanto não importa quem é a “Segunda Vítima”.
— Então acha que Carr só deu azar?
— Acho que essa é a abordagem mais lógica. Ninguém estava sentado ao lado do Carr, certo? Ninguém poderia ter colocado veneno no seu café depois que foi trazido para cá. Então só poderia ter sido você.
— Mas o veneno já poderia estar no açúcar ou no leite.
— Entretanto você mesma também tomou leite, lembra? Além do mais, Carr tomou o café puro, sem açúcar. Nem sequer usou uma colher para mexer.
— Espere, Ellery... — interrompeu Leroux. — Eu vi Agatha enquanto fazia café. As portas da cozinha estavam abertas e minha cadeira ficou bem em frente, então tive uma visão clara das mãos de Agatha. O balcão também estava bem iluminado por causa da vela em cima. Ela não fez nada suspeito.
— Que bom que nos contou isso, todavia receio que não constitua uma prova conclusiva. Considerando a distância entre esta mesa e o balcão da cozinha, é possível que tenha deixado passar algo. Não é como se estivesse focado em observá-la o tempo todo.
— D-Desculpe. — gaguejou Leroux.
— Não precisa se desculpar. Não tinha como saber o que ia acontecer.
— Não, quis dizer que estive de olho em Agatha o tempo todo.
— Leroux!
Os olhos de Agatha se arregalaram em surpresa. Leroux desviou o olhar e repetiu — Desculpe. — em voz tímida.
— Contudo era o mais óbvio. — continuou ele. — Um de nós matou Orczy esta manhã, e pode ter sido a Agatha. Até mesmo o nosso jantar de biscoitos, comida enlatada e suco foi um horror para mim. Aliás, acho que o seu comportamento foi o mais estranho, Ellery. Você foi o primeiro a provar a comida, devorando-a como se tudo estivesse perfeitamente normal.
— É mesmo? — um leve sorriso surgiu nos lábios de Ellery. — Nesse caso, Leroux, tem certeza absoluta de que Agatha não é a assassina.
— Bem, isso é...
— Carr está morto. Envenenado. Tenho certeza de que não acha que sua morte foi suicídio, certo?
— Não...
— No entanto, como disse antes, Ellery... — interrompeu Agatha. — Se eu fosse a assassina, como poderia ter evitado acabar com a xícara envenenada? Bebi o meu café.
Ellery piscou lentamente enquanto apagava seu cigarro Salem no cinzeiro em forma de decágono.
— Só havia seis xícaras. Poderia ter se lembrado da posição da xícara envenenada. Assim escolheu a sua e deu a última para Van. Se a xícara envenenada estivesse entre as duas últimas, poderia apenas tê-la passado para Van. Mesmo que tivesse ficado com a xícara envenenada, ainda poderia só não ter bebido.
— Estou dizendo, não fui eu.
Os longos cabelos de Agatha balançavam violentamente enquanto sacudia a cabeça. Suas mãos, segurando a borda da mesa, tremiam.
— Ellery... — disse Van debilmente. — Se Agatha fosse a assassina, ela teria mesmo escolhido matar Carr assim, de uma forma que a torna a principal suspeita? Ela não é estúpida. O que acha, Poe?
— Concordo com você. — disse Poe, e se virou para Ellery. — A única luz neste salão é a do abajur sobre a mesa. E não acho que nenhum de nós estivesse observando os outros enquanto pegávamos nossas xícaras de café da bandeja.
— O que quer dizer com isso, Poe? — perguntou Ellery.
— Você foi o primeiro a pegar uma xícara. Não teria tido nenhum problema em ter escondido algum veneno na mão e o colocado em uma das outras xícaras. E aí, mágico?
— Haha. Muito bem. — um sorriso amargo surgiu no rosto calmo de Ellery. — Tudo o que posso dizer é que não o fiz.
— E, claro, não podemos só acreditar na sua palavra. Como também existem outras possibilidades. O veneno poderia ter sido dado a Carr antes do café, por exemplo.
— Uma cápsula de dissolução lenta?
— Precisamente.
— Sim, entretanto independentemente de como o veneno foi administrado, é certo que a suspeita recai sobre a sua pessoa, doutor. Se pensar bem, nenhum amador conseguiria facilmente venenos como arsênico e estricnina... Talvez Van, da faculdade de ciências, ou Agatha, da faculdade de farmácia, mas Leroux e eu somos da área de humanas. Não temos nada a ver com laboratórios cheios de drogas perigosas e venenos fortes.
— Qualquer um poderia roubar veneno se quisesse. — objetou Poe. — A segurança dos laboratórios e salas de experimentos da nossa universidade é ridícula. É a mesma coisa nas faculdades de agronomia e engenharia. Se fingir que pertence a esse lugar, pode entrar sem problemas. Além disso, foi você mesmo, Ellery, quem disse uma vez que tinha parentes na Cidade O que administravam uma farmácia.
Ellery assobiou baixinho.
— Uma excelente memória.
— Resumindo, é inútil ficarmos aqui discutindo de onde veio o veneno.
Poe inclinou-se para a frente devagar.
— E ainda existe outra possibilidade de como o veneno foi administrado. Não acredito que não tenha pensado nessa possibilidade. Poderia ter sido espalhado em uma das xícaras antes. Aí qualquer um de nós poderia tê-lo feito.
— De fato.
Ellery jogou para trás uma mecha rebelde de cabelo e sorriu. Agatha olhou para ele, perplexa.
— Você pensou nisso, Ellery?
— Claro. Não pense que sou estúpido.
— E mesmo assim me acusou de ser a assassina.
— Também planejava ir atrás dos outros e provocá-los um pouco.
— Bem, eu acho você horrível.
— Não estamos em uma situação normal aqui, então não pode esperar que eu aja como de costume.
— Seu...
— A propósito, Agatha, tem algo que quero te perguntar.
— O quê?
— Diga, você lavou as xícaras antes de fazer o café?
— Não, não lavei.
— E quando elas foram lavadas pela última vez?
— Tomamos chá depois que voltamos de explorar a ilha, lembra? Elas foram lavadas então. Coloquei as xícaras lavadas no balcão.
— Junto com a sétima xícara, de Orczy?
— Não, guardei a xícara de Orczy no armário. Não conseguia mais olhar para ela.
— Hmm. Tudo bem. Isso torna mais plausível que a xícara tenha sido envenenada antes. Bastaria ir à cozinha à noite e passar um pouco de veneno em uma delas. Qualquer um poderia ter feito.
— Porém Ellery... — disse Leroux. — Como o assassino saberia qual das xícaras estava envenenada? Não houve ninguém aqui que não encostou os lábios na sua xícara.
— Deve ter havido algum tipo de marca.
— Uma marca?
— Sim. Uma lasca, um arranhão ou coisa do tipo. — disse Ellery, depois pegou a xícara verde-musgo de Carr e começou a examiná-la.
— Alguma coisa?
— Espere um segundo... Oh, que estranho.
Ellery inclinou a cabeça surpreso e passou a xícara para Leroux.
— De uma olhada. Não acho que seja diferente das outras.
— Sério?
— Nem mesmo uma pequena rachadura? — perguntou Agatha.
— Nada. Talvez encontre uma pequena rachadura no microscópio.
— Pare de brincar. Me de isso.
A xícara foi passada para Agatha.
— Tem razão. Não há nada aqui que possa servir como marca.
— Então significa que a xícara não foi envenenada antes? — Ellery passou a mão no cabelo com uma expressão de insatisfação no rosto. — Aqui estão as três teorias atuais: Agatha é a assassina, ou eu sou o assassino, ou alguém que fez Carr engolir uma cápsula envenenada é o assassino.
— Seja quem for, não conseguiremos determinar o método e a identidade do assassino aqui. — disse Poe.
Ellery estendeu a mão para a xícara de Carr, que Agatha havia colocado sobre a mesa, e a contemplou.
— Se fosse alguém de fora, não importaria se houvesse uma marca ou não.
— O que disse, Ellery? — perguntou Poe.
— Nada... — Ellery desviou o olhar. — O que me incomoda é o motivo. Acho que podemos presumir que a pessoa que matou Orczy e Carr e a pessoa que arrumou aquelas placas são a mesma. Significa que ele, ou ela, está falando sério sobre tirar a vida de pelo menos cinco de nós aqui na ilha. Cinco, supondo que “o Detetive” não acabe como “a Sexta Vítima” também.
— Contudo há um motivo para isso... — murmurou Leroux, balançando a cabeça em um débil gesto.
— Tem que haver um. — disse Ellery com firmeza. — Por mais estranho que seja.
— O assassino deve ser louco, insano! — gritou Agatha. — Como podemos entender os pensamentos de um louco?
— Insano... — repetiu Ellery, e ergueu a mão esquerda para olhar o relógio. — Já é quase manhã. O que devemos fazer?
— Precisamos dormir. Não chegaremos a nenhuma conclusão se continuarmos discutindo enquanto estivermos todos tão cansados.
— Concordo, Poe. Também não aguento mais.
Ellery esfregou os olhos, levantou-se cambaleante e foi para o quarto.
— Espere, Ellery. — Poe o deteve. — Não seria melhor se todos dormíssemos juntos aqui?
— Eu não quero! — Agatha olhou para todos com olhos assustados. — E se a pessoa ao seu lado for o assassino? Poderia só estender os braços e te estrangular. Só de pensar nisso já me dá medo.
— Duvido que o assassino faria algo tão estúpido quanto estrangular a pessoa ao seu lado. Seria pego imediatamente.
— Você tem certeza absoluta, Poe? E se nos matar enquanto dormimos?
Agatha quase caiu em prantos ao se levantar, derrubando a cadeira.
— Agatha, espere.
— Não! Não posso confiar em nenhum de vocês.
Ela fugiu para o quarto. Poe soltou um longo suspiro.
— Ela está em péssimo estado.
— É natural. — disse Ellery, dando de ombros. — Para ser sincero, me sinto da mesma forma que a Agatha. Vou dormir sozinho também.
— Eu também! — acrescentou Leroux. Os olhos por trás dos óculos estavam vermelhos. Van o seguiu também, deixando Poe, que passava as mãos pelos cabelos, sozinho.
— Tranquem bem as portas, pessoal.
— Claro que vamos! — disse Ellery, olhando por um momento para a entrada principal. — Até eu tenho medo de morrer.
Notas:
1. Livor mortis (ou lividez cadavérica) é o acúmulo de sangue nas partes mais baixas do corpo após a morte, devido à ação da gravidade, formando manchas arroxeadas ou avermelhadas na pele.
***
Link para o índice de capítulos: The Decagon House Murders
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