domingo, 26 de abril de 2026

The Decagon House Murders — Capítulo 09

Capítulo 09: O Quinto Dia na Ilha


Parte 1


Ele sentia como se tivesse tido um pesadelo atrás do outro na noite anterior. Não conseguia se lembrar do que eram os sonhos, mas sabia que havia gritado enquanto dormia.

Chutou o cobertor, que agora jazia ao lado da cama. Sua camisa estava amassada por causa do sono agitado. Não havia se despido antes de se deitar. Seu corpo estava coberto de suor, embora sua garganta estivesse completamente seca. Seus lábios estavam rachados e doloridos.

Leroux sentou-se ereto e, com os braços em volta do torso, balançou a cabeça aos poucos de um lado para o outro.

Sua dor de cabeça havia diminuído um pouco. Porém, em contrapartida, sua mente parecia ter parado de funcionar. Uma leve névoa parecia cobrir toda a sua consciência. A distância entre seu corpo e as faculdades que o comandavam parecia maior do que o normal. Nenhuma sensação de realidade.

A luz que vazava pela fresta entre as persianas indicava que a noite havia terminado.

Os braços pesados ​​de Leroux ergueram o cobertor e o colocaram em seu colo.

Uma tela quadrada surgiu em sua cabeça confusa. Os quatro cantos eram pretos, o centro branco, como um filme revelado. Na tela, havia closes de todos os amigos com quem havia chegado à ilha quatro dias atrás.

Ellery, Poe, Carr, Van, Agatha e Orczy. Todos os sete, incluindo ele próprio, estavam gostando da perspectiva dessa pequena aventura, cada um à sua maneira. Pelo menos, era assim que Leroux se sentia. Liberdade em uma ilha desabitada. Um caso arquivado para desvendar. Um pouco de emoção. Mesmo que tivessem alguns problemas na ilha, só aumentaria a diversão e faria a semana passar mais rápido, foi o que pensou. As coisas, no entanto, tomaram um rumo diferente.

Cabelo curto e fino. Olhos grandes e inquietos sob sobrancelhas finas, apesar de largas. Bochechas vermelhas com sardas. Seu rosto de repente inchou e ficou roxo, tremeu, se contorceu e, por fim, suas feições perderam a expressão. O cordão fino enrolado em seu pescoço se transformou em uma cobra negra venenosa e rastejante.

Oh, Orczy, Orczy, Orczy...

Leroux cerrou os punhos e bateu com a mão na própria cabeça. Não quero lembrar de mais nada.

Entretanto, como se outra pessoa estivesse no controle, o projetor começou a rodar outra vez. A tela não escurecia.

Uma risada sarcástica, os cantos da boca se contraíram em um sorriso. Um queixo mal barbeado. Olhos grandes e fundos. Carr foi o próximo. Seu corpo de ossatura larga se contorceu de dor. A mesa tremendo. Uma cadeira derrubada. As convulsões violentas, o vômito e, finalmente, tudo acabou.

— Por quê?

Ele sussurrou.

— Por que tudo isso aconteceu?

Ellery caindo na escuridão da sala subterrânea. A voz sinistra de Poe. O rosto pálido de Van. A histeria de Agatha.

E ainda havia um assassino entre os amigos sobreviventes. Ou será que alguém mais estava escondido na ilha?

Ellery havia sugerido que Nakamura Seiji poderia ainda estar vivo. Por que um homem que nunca conheceram, um homem cujo rosto nunca viram, começaria a matá-los?

Uma sombra negra apareceu na tela de sua mente. O contorno da figura era vago, ondulando como se estivesse debaixo d’água.

Nakamura Seiji... O homem que construiu a Casa Decagonal. O homem que se acreditava ter sido queimado na Mansão Azul em setembro do ano passado. Se seguisse com vida, seria ele o responsável pelos assassinatos agora.

Nakamura Seiji... Nakamura... Nakamura.

— Ah.

Um suspiro escapou de sua boca.

— Nakamura?

Pouco a pouco, a sombra negra começou a tomar forma. Ele procurou por um fio condutor ligado às suas memórias dentro do labirinto de sua mente turva e meio adormecida, e a sombra enfim se transformou em uma mulher pequena e de pele clara.

Não, não pode ser.

Será que ainda estava sonhando? Seria mesmo possível que Nakamura Chiori fosse filha de Nakamura Seiji?

Leroux se socou de novo.

A cidade à noite. A agitação. O vento frio. O bar da festa pós-balada. A luz refletida nos copos. O som do gelo. O cheiro de álcool. Brindes. Embriaguez. Cacofonia. Loucura. E então... Uma súbita mudança da comédia para o drama. Confusão. O som das sirenes. As luzes vermelhas giratórias.

— Não pode ser! — disse em voz mais alta.

Queria abafar o zumbido ameaçador que ficava cada vez mais alto em seus ouvidos.

Mas o zumbido não diminuiu, apenas aumentou de volume até se tornar um ruído furioso. Sua ansiedade e impaciência inquietas fizeram seu corpo inteiro suar. As luzes vermelhas piscavam e as sirenes uivavam, martelando pregos em seus nervos.

Leroux levou as mãos à cabeça. Não podia aguentar mais, queria gritar.

De repente, uma cena diferente foi projetada na tela. O ruído e a luz desapareceram.

O que é isso? Pensou Leroux, observando a cena de longe.

O que é isso? Onde é? É o mar. Podia ouvir o som. Perto. O cheiro da maré. A superfície ondulante. As ondas subindo nas rochas negras e recuando, deixando para trás uma linha branca. Isto é, isto é...

Aconteceu ontem.

Leroux empurrou o cobertor para o lado. Seu medo havia desaparecido, como se as pesadas cortinas que cobriam aquela parte de sua mente tivessem sido levantadas.

Eu vi isso ontem. Todos estavam de pé nos penhascos perto da Mansão Azul, procurando barcos. Era a área rochosa que vira então, abaixo dos penhascos. Também havia descido até lá com Ellery dois dias atrás. Se bem se lembrava, naquela época ele também...

Sentiu como se algo o tivesse possuído.

Sabia que ainda não estava completamente consciente. É perigoso ir sozinho, pensou por um segundo, porém esse pensamento foi engolido em seguida pela névoa em sua mente.

Aos poucos, Leroux saiu da cama.



Agatha abriu a porta com cuidado e espiou o corredor.

Não havia ninguém lá. Parecia que ninguém havia acordado ainda.

Ela tivera uma boa noite de sono, graças aos comprimidos para dormir de Poe, dormindo como uma pedra até acordar momentos atrás. Não se lembrava de ter sonhado. Tinha sido um sono satisfatório, quase inexplicável, considerando a situação perigosa em que se encontravam.

Seu corpo estava descansado. Seus nervos também haviam se acalmado.

Tenho de agradecer ao Poe.

Agatha entrou sem pressa na ponta dos pés no corredor.

Recostando-se à parede, dirigiu-se sem fazer nenhum som ao banheiro. Seus olhos examinaram o espaço com atenção minuciosa, seus ouvidos atentos a qualquer ruído.

Mesmo na luz da manhã, o corredor da Casa Decagonal parecia distorcido. Seus olhos foram atraídos pelas estranhas sombras que cobriam as paredes brancas, impedindo-a de observar bem o ambiente.

Parecia mesmo que ninguém estava acordado. Não conseguia ouvir nada além do ruído incessante das ondas.

Entrou no banheiro e deixou a porta entreaberta, sem se esquecer de verificar o vaso sanitário e a banheira ao fundo em busca de surpresas.

Parou em frente à penteadeira e olhou para o espelho. Na escuridão sombria, viu-se vestida com um vestido branco.

As olheiras sob seus olhos haviam diminuído. Contudo, desde que chegara à ilha, suas bochechas estavam visivelmente encovadas e parecia pálida. Somado ao cabelo sem brilho e seco, isso a fez duvidar se realmente estava se olhando no espelho.

Agatha suspirou enquanto penteava os cabelos. Lembrando-se não só dos assassinatos, como também de seu próprio comportamento inadequado na noite anterior, fazendo-a suspirar de novo.

Sempre quis ser bonita e digna. Sempre, não importava o que acontecesse, não importava onde estivesse. Sempre se orgulhou de ser essa mulher.

No entanto o rosto que acabara de lavar, encarando-a no espelho... Não era bonito. Tampouco tinha um pingo de dignidade.

Nada que a salvasse.

Devo usar uma maquiagem mais vibrante, pensou Agatha enquanto abria sua nécessaire. Assassinatos anormais, circunstâncias anormais, ideias anormais. Esse era o único consolo que tinha dentro dessa realidade enlouquecedora e anormal.

Hoje não usarei meu batom rosa, e sim o vermelho.

Não se importava mais com o que os outros pensavam a seu respeito. Tudo o que lhe passava pela cabeça era o que via no espelho.



Parte 2

Van foi acordado pelo alarme do seu relógio de pulso.

Dez da manhã? Preciso levantar.

Seus ombros estavam rígidos e suas articulações doíam. Não tinha dormido tanto quanto esperava. Levou os dedos às pálpebras dos olhos inchados. Sentiu náuseas.

Será que os outros ainda estão dormindo?

Ele sentou-se ereto e escutou qualquer ruído enquanto acendia um cigarro. Sentiu tontura quando a fumaça chegou aos seus pulmões. Sabia que tanto seu corpo quanto sua mente estavam exaustos.

Serei capaz de voltar para casa em segurança?

Seu olhar encarava fixo o nada enquanto refletia sobre o caso.

Para ser honesto, estava com medo. Um medo imenso. Se pudesse, teria começado a chorar como uma criança e fugido para casa.

Um tremor percorreu seu corpo, após o qual Van apagou o cigarro e se levantou.

Saindo para o corredor, notou que uma porta à sua esquerda, três cômodos adiante, estava entreaberta. Era o banheiro, uma porta antes da cozinha.

Alguém já acordou, pensou.

Mesmo assim, não ouço nada. Alguém deve ter ido ao banheiro e se esqueceu de fechar a porta.

A porta se abria para o lado oposto da cozinha. Van se aproximou da porta pela direita, contornando a mesa de centro. Não conseguia ouvir nada.

Sua mão esquerda pousou no encosto de cada uma das cadeiras azuis que rodeavam a mesa. Podia ouvir as batidas do seu coração ficarem mais fortes. À medida que se aproximava, conseguia ver mais do banheiro através da porta entreaberta. E então viu.

— Ah!

Van soltou um grito fraco, como se estivesse sendo estrangulado. Sentiu o corpo todo tremer. Estava paralisado.

Uma figura branca jazia além da porta do banheiro.

Um delicado vestido de renda. Um braço fino e sem vida estendido. Longos cabelos espalhados pelo chão. Era o corpo de Agatha, completamente sem vida.

— A... A...

Van ficou imóvel, com a mão direita na boca. No fundo da garganta, o impulso de gritar e a vontade de vomitar competiam. Sua voz não obedecia ao comando.

Colocou a mão em uma cadeira, curvando o corpo. Então, com as pernas trêmulas, dirigiu-se desesperado para o quarto de Poe.



As batidas violentas na porta fizeram Poe se sentar.

— O quê? O que houve?

Bastou um instante para espantar seu sono, empurrar o cobertor para o lado, rolar para fora da cama e correr até a porta.

— Quem é? O que aconteceu?

Não houve resposta.

As batidas na porta pararam e, em seu lugar, ouviu-se um gemido baixo. Poe destrancou a porta em seguida e girou a maçaneta. Contudo algo bloqueava a porta.

— Olá, quem está aí?

Seu corpo se apoiou na porta e a empurrou com os ombros. Conseguiu passar pelo vão que criou e entrar no corredor.

Era Van, encostado na porta. Ambas as mãos estavam pressionadas contra a boca e suas costas tremiam de forma lamentável.

— O que foi, Van? Você está bem?

Poe colocou a mão nas costas de Van. Com uma das mãos na boca, Van apontou com a outra para a porta do banheiro ao lado do quarto de Poe.

— Hmm?

A porta estava entreaberta. Não conseguia ver lá dentro de onde estava.

— O que foi?

— A-Agatha...

Van nem tinha terminado de falar quando Poe gritou, tirando a mão das costas de Van.

— Agatha? Mas Van, você está bem?

Van assentiu, ainda gemendo de dor. Poe chegou ao banheiro. Ele espiou pela porta entreaberta.

— Ellery! Leroux! Acordem! Levantem agora! — Poe berrou.



Ellery foi despertado pelas batidas violentas na porta de alguém.

Não era a sua porta. Imaginou que alguma coisa tivesse acontecido quando ouviu uma voz grave gritar.

É o Poe. Isso significa...

Ellery levantou-se rápido da cama e pegou seu cardigã. Seu tornozelo direito, enfaixado, já não doía tanto quanto antes.

Ainda conseguia ouvir Poe. Parecia que estava falando com Van. Então, ouviu-o gritar mais alto.

— Agatha?

Mesmo quando Ellery colocou a mão na maçaneta, ouviu Leroux e seu próprio nome sendo chamados.

— O que houve? — respondeu Ellery ao abrir a porta.

Van estava de quatro em frente ao quarto de Poe. A porta à direita, a do banheiro, justo em frente à de Ellery, estava toda aberta. Seria Agatha quem estava deitada ali de bruços? Poe estava ao lado dela, agachado sobre um joelho.

— Agatha foi assassinada?

— Parece que sim.

Poe se virou para Ellery.

— Van está se sentindo mal. Ajude-o a vomitar.

— Pode deixar.

Ellery foi até Van, ajudou-o a se levantar e o levou para a cozinha.

— Você não foi envenenado, foi?

— Não, só... Quando encontrei Agatha... — Van gemeu, com a cabeça sobre a pia. Ellery esfregou suas costas.

— Beba um pouco de água. Seu estômago está vazio agora. Não há nada para vomitar.

— E-Eu estou bem. Eu mesmo cuido disso. É melhor você ir ao banheiro.

— Certo.

Ellery se virou, saiu da cozinha e foi até Poe no banheiro.

— Ela está morta, Poe?

Poe fechou os olhos e assentiu.

— Veneno de novo. Acredito que seja ácido prússico.

Poe virou o corpo de Agatha de bruços. Seus olhos estavam bem abertos. A expressão congelada em sua boca entreaberta não era de dor, mas de surpresa.

Poe colocou as mãos sobre suas pálpebras e fechou seus olhos, o que deu ao seu rosto uma aparência improvavelmente pacífica. Parecia ter acabado de se maquiar. Suas bochechas coradas davam a ilusão de vida. Seus lábios vermelhos pareciam que iam começar a falar a qualquer momento. O leve cheiro amargo que pairava no ar foi o que levou Poe à sua suspeita.

— Ah...

Ellery franziu a testa.

— Então este é o infame cheiro de amêndoas.

— Sim. Enfim, vamos levá-la para o seu quarto.

Van saiu cambaleando da cozinha no momento em que Poe estendeu a mão para os ombros do corpo. Ele encostou as costas na parede e olhou para o outro lado do corredor com o rosto pálido.

— Ei, onde está Leroux?

— Leroux?

— Agora que mencionou...

Ellery e Poe notaram a porta do quarto de Leroux pela primeira vez e gritaram ao mesmo tempo.

Presa à porta, a placa com os caracteres vermelhos parecia estar zombando deles. “Terceira Vítima”!



Parte 3

— O quê? Então Agatha é a quarta vítima? Leroux! — Ellery correu até a porta do quarto de Leroux.

— Leroux, Leroux! Não adianta. A porta está trancada. Van, você não tem uma chave mestra ou algo assim?

— Isto não é um hotel, sabia?

— Então teremos de derrubá-la. Ellery, sai da frente!

— Espere.

Ellery parou Poe com um gesto de mão.

— A porta dá para o corredor. Não vai descer fácil, mesmo se a gente se jogar nela. É mais rápido sair e quebrar a janela.

— Tem razão. Vamos levar uma cadeira.

Poe se virou para Van.

— Você vem também.

— Olhem, vocês dois. — disse Ellery, que estava indo em direção à entrada principal. — A corda amarrada às portas foi desatada.

Seu dedo apontava para as portas duplas que davam para o salão de entrada. A corda que haviam amarrado às maçanetas na noite anterior havia sido desatada e estava pendurada.

— Alguém saiu! — disse Poe, pegando uma cadeira.

— Talvez tenha sido o Leroux. — sugeriu Van.

— Quem sabe o que está acontecendo? — perguntou Poe.

Ellery balançou a cabeça sombriamente.

— De qualquer forma, vamos. Não podemos fazer nada até darmos uma olhada no seu quarto.

Poe ergueu a cadeira e a balançou com toda a sua força. As venezianas pareciam resistentes, contudo depois de alguns golpes, conseguiram arrancá-las da parede, dobradiças e tudo, e então quebrar a janela de vidro. Depois, foi fácil colocar as mãos pelo buraco e soltar a trava. No entanto as maçanetas dentro do quarto também estavam amarradas com um cinto e tiveram que se esforçar para desamarrá-las.

A janela estava na altura do peito de Van, e ele tinha uma altura mediana. Poe, o mais alto dos três, subiu na cadeira quebrada e entrou no quarto com um mergulho ágil, surpreendente para alguém de sua compleição tão grande. Ellery foi o próximo. Van estava de pé debaixo da janela, com as duas mãos agarrando o estômago.

Entretanto Leroux não estava em seu quarto.

Ele havia saído e não voltado.



O ar estava úmido e abafado. Parecia ter chovido durante a noite. A grama aos seus pés estava úmida e macia.

Poe e Ellery pularam da janela, os ombros arfando de tanto esforço.

— Vamos nos separar e procurá-lo. Embora receio que não o encontremos vivo. — disse Ellery. Ele se agachou com um joelho no chão, dando tapinhas nas bandagens em volta do tornozelo direito.

— Mas o seu tornozelo... — Poe começou. Ele havia cortado o dorso da mão direita em alguns cacos de vidro quando quebrou a janela.

— Estou bem. Consigo até correr.

Ellery se levantou e olhou para Van. Van estava agachado na grama, tremendo.

— Van, fique aqui na entrada até te chamarmos. Você precisa se acalmar primeiro.

Ellery endireitou-se e deu as ordens calmamente.

— Poe, vá até a enseada. Vou procurar por aqui e na Mansão Azul.



Depois que Ellery e Poe saíram, Van se levantou aos poucos e caminhou até a entrada da Casa Decagonal. O gosto amargo e azedo do que acabara de vomitar ainda persistia em sua língua e não desaparecia. A vontade de vomitar havia passado, porém seguia sentindo algo preso no peito.

O céu estava cinza-chumbo. Não havia vento e não fazia frio, contudo o tremor em seu corpo, sob o suéter, não parava.

Os pés cansados ​​de Van enfim o levaram até a entrada principal. Ele se sentou nos degraus, que estavam molhados pela chuva, e se encolheu, abraçando os joelhos. Respirou fundo várias vezes. A sensação no peito finalmente passou, no entanto seu corpo continuava tremendo. Por um tempo, apenas contemplou a paisagem melancólica de pinheiros sombrios.

— Van! Poe!

Ele podia ouvir a voz de Ellery ao longe. Vinha da direita, da direção da Mansão Azul incendiada. Van se levantou e, embora suas pernas parecessem não responder aos seus comandos, conseguiu se forçar a correr um pouco. Viu Poe vindo correndo na direção da enseada. Os dois se encontraram na clareira entre os pinheiros que circundavam a área queimada.

— Poe, Van, por aqui.

Os dois atravessaram o arco de pinheiros e viram, perto do centro do jardim da frente, a figura de Ellery acenando, vestindo um cardigã por cima do pijama. Estava parado em um ponto quase escondido da vista da Casa Decagonal por algumas árvores.

Os dois se apressaram até Ellery, todavia ficaram sem fôlego ao verem o que jazia a seus pés.

— Está morto! — disse Ellery, balançando a cabeça.

Leroux estava deitado no chão. Estava vestido com uma camisa amarela, calça jeans e uma jaqueta jeans com as mangas arregaçadas. Ambos os braços estavam estendidos à sua frente, como se estivesse apontando para a Casa Decagonal. Seu rosto, deitado de lado, estava meio enterrado na lama negra. Perto de sua mão direita estendida, jaziam seus amados óculos redondos.

— Ele foi espancado até a morte. Talvez foi atingido na cabeça com uma das pedras ou tijolos que estão por aqui. — disse Ellery, apontando para a mancha vermelha e preta na nuca de Leroux.

Um “Ugh” escapou dos lábios de Van, que levou a mão à boca. Estava se esforçando para não vomitar de novo.

— Poe, você se importaria de examinar o corpo? Sei que é difícil, mas por favor.

— Claro.

Poe manteve a mão na testa, que estava coberta por mechas de cabelo, enquanto se inclinava para a frente ao lado do corpo. Levantou um pouco a cabeça coberta de lama e sangue e olhou para o rosto do cadáver. Os olhos redondos de Leroux estavam arregalados de surpresa. Sua língua estava para fora do canto da boca. Podia ser de medo ou dor, porém a expressão no rosto de Leroux era distorcida.

— Livor mortis. — disse Poe em voz baixa. — Só que as manchas somem quando eu pressiono. Rigor mortis... Hmm, bastante avançado. O endurecimento também é afetado pela temperatura externa, então não posso dizer com exatidão, contudo, sim, faz entre cinco e seis horas que ele morreu. Sendo assim... — seu olhar se voltou para o relógio de pulso.

— Deve ter sido morto entre cinco e seis da manhã.

— Então, ao amanhecer. — murmurou Ellery.

— Vamos levar Leroux de volta para a Casa do Decagonal primeiro. Não podemos só deixá-lo aqui desse jeito. — disse Poe, estendendo a mão para os ombros.

— Ellery, poderia carregar as suas pernas?

Entretanto Ellery não respondeu, mesmo depois de ser chamado. Apenas encarava o chão em silêncio, com as duas mãos nos bolsos do cardigã.

— Ei, Ellery.

Ellery olhou para cima.

— Pegadas... — murmurou, apontando para o chão.

Leroux estava deitado a cerca de dez metros dos pinheiros, na direção da Casa Decagonal, no meio do jardim da Mansão Azul. O solo naquele ponto, tal qual toda a área queimada, estava completamente preto devido às cinzas. Contudo a chuva da noite anterior havia amolecido bastante o solo coberto de cinzas, deixando pegadas por toda parte.

— Oh, esqueça.

Ellery se agachou e levantou as pernas do corpo.

— Vamos. Está frio.

Os dois viraram o corpo de Leroux e o levantaram. O som das ondas quebrando soava como um lamento fúnebre pela morte de Leroux.

Van pegou os óculos sujos de Leroux. Segurando-os contra o peito, seguiu Ellery e Poe no caminho de volta.



Parte 4

Ao chegarem à Casa Decagonal, primeiro levaram o corpo de Leroux para o seu quarto. Encontraram a chave no bolso do paletó. Embora suas roupas estivessem todas cobertas de lama, deitaram-no na cama.

Van colocou os óculos que havia pegado na mesa de cabeceira.

— Você poderia me trazer uma bacia com água? E uma toalha. Deveríamos pelo menos limpar o rosto dele. — disse Ellery a Van, enquanto cobria o corpo com um cobertor. Van assentiu em silêncio e saiu do quarto. Ainda andava cambaleando, mas parecia ter se recuperado do choque. Ellery e Poe foram então buscar o corpo de Agatha no banheiro. Eles a carregaram até a cama, juntaram suas mãos sobre o peito e ajeitaram seus cabelos e roupas despenteados.

— Então foi ácido prússico... — Ellery murmurou, enquanto olhava para Agatha, que havia entrado em um sono eterno. — Como dizem, cheiro de amêndoas.

— É provável que tenham passado umas três horas desde que ela morreu. Então, por volta das oito da manhã.

Van voltou assim que Poe deu sua estimativa.

— Isto estava em frente à pia. Deve ser da Agatha. — disse Van, entregando uma bolsinha preta.

— Uma bolsinha de maquiagem?

Ellery pegou a bolsinha nas mãos, pareceu se lembrar de algo e começou a examinar seu conteúdo.

— Van, esta bolsinha... Estava fechada quando você a encontrou?

— Não, estava aberta. Estava no chão junto com alguns dos itens.

— Você os colocou de volta? Ah, agora é tarde demais.

— Base. Blush. Escova de cabelo. Creme. Tônico.

— Entendi. — disse Ellery, tirando dois tubos de batom. Ele removeu as tampas de ambos e comparou as cores.

— Este aqui.

— Não chegue muito perto do nariz, é perigoso. — disse Poe, adivinhando o que se passava na cabeça de Ellery.

— Eu sei.

Um batom era vermelho, o outro rosa. Ellery cheirou com cuidado batom vermelho, assentiu e o passou para Poe.

— Tem razão, Ellery. Parece estar coberto de veneno.

— Maquiagem de funeral. Um vestido branco para o funeral, e então ela foi envenenada. Como uma princesa de conto de fadas.

Ellery lançou outro olhar triste para Agatha e sugeriu que todos saíssem do quarto. Ele fechou a porta silenciosamente ao sair.

— Durma bem, Branca de Neve.

Os três foram juntos para o quarto de Leroux.

Eles limparam seu rosto com a água e a toalha que Van havia trazido. Limparam também os óculos e os colocaram sobre o peito.

— Ele era tão determinado, nosso editor-chefe.

Com essas palavras, Ellery fechou a porta. A placa sinistra com os caracteres vermelhos ainda proclamava a “Terceira Vítima”.

E então restaram apenas os três vivos na Casa Decagonal: Ellery, Poe e Van.



Parte 5

Depois de voltar para o quarto e se vestir, Ellery sentou-se na beirada da cama e pegou seus cigarros Salem. Depois de apagar dois, saiu do quarto.

Os outros dois já estavam no corredor.

Poe examinava o curativo que havia colocado sobre o ferimento no dorso da mão direita, enquanto fumava outro cigarro. Van trouxera uma chaleira com água quente e servira um pouco de café.

— Eu também quero um pouco, Van. — disse Ellery.

Van balançou a cabeça e, cobrindo a xícara com as duas mãos, sentou-se em uma cadeira longe de Poe.

— Isso não é muito gentil. — disse Ellery, dando de ombros, e foi para a cozinha.

Lavou cuidadosamente uma xícara e uma colher. Também deu uma olhada na gaveta do armário. Os seis pratos que anunciavam os assassinatos seguiam estando lá.

— A “Última Vítima”, o “Detetive” e o “Assassino”. — murmurou Ellery enquanto voltava para o corredor e servia seu próprio café. Poe e Van permaneceram em silêncio. Ele olhou de um para o outro.

— Supondo que “o Assassino” esteja entre nós, acho que não vai admitir isso agora.

Poe franziu a testa e soltou uma nuvem de fumaça. Van virou o rosto e tomou um gole de café. Ellery sentou-se em uma cadeira longe dos dois, com as mãos em volta da xícara.

Havia um silêncio inquietante. Os três homens estavam sentados separados um do outro no corredor da Casa Decagonal e nem sequer tentavam disfarçar a desconfiança que sentiam um pelo outro.

— Você acredita? — disse Poe com uma voz estranha. — Um de nós aqui matou quatro amigos.

— Pode ter sido Nakamura Seiji. — respondeu Ellery.

Um Poe irritado balançou a cabeça.

— Não vou dizer que é absolutamente impossível, porém digo que está errado. Nem concordo com a sua ideia de que Nakamura esteja vivo. É inacreditável.

Ellery bufou.

— Então o assassino é um de nós?

— Foi o que falei.

Poe bateu na mesa com raiva. Ellery ignorou o gesto e jogou o cabelo para trás.

— Vamos examinar tudo desde o início, mais uma vez.

Ele recostou-se na cadeira e olhou para a claraboia. O céu estava tão escuro como sempre.

— Tudo começou com aquelas placas, não é? Alguém teve que prepará-las com antecedência e trazê-las para a ilha. Como não ocupam muito espaço, seria fácil trazê-las sem que ninguém percebesse. Portanto, qualquer um de nós poderia tê-lo feito. Estamos de acordo com isso?

— Contudo escute. Na manhã do terceiro dia, o assassino começou a cometer os atos anunciados pelas placas. A “Primeira Vítima” foi Orczy. O assassino entrou no quarto dela pela janela ou porta e a estrangulou. Poe, você disse que a arma do crime, um cordão, ainda estava enrolado em seu pescoço. É improvável que o cordão servirá como uma pista significativa. No entanto o primeiro problema que precisamos analisar é... Como o assassino entrou no quarto de Orczy?

— Quando encontramos o corpo, a porta e a janela não estavam trancadas. É possível que Orczy não as tivesse trancado, entretanto acho improvável. Principalmente a porta. Foi Orczy quem descobriu as placas primeiro, e parecia muito assustada e ansiosa.

— Então, o que nos resta? Há várias possibilidades, todavia acho que podemos reduzir a duas. Primeira: Orczy se esqueceu de trancar a janela e o assassino entrou por ali. Segunda: o assassino acordou Orczy e a fez abrir a porta.

— Se o assassino entrou pela janela, por que destrancou a porta? — perguntou Van.

— Ou para encontrar uma placa, ou para fixar uma placa que já havia trazido à porta. Mas se nos limitarmos à ideia do Poe de que o assassino é um de nós, então suponho que devemos nos concentrar na hipótese de que a própria Orczy abriu a porta para o assassino.

— Mesmo de manhã cedo, ainda que Orczy estivesse dormindo, entrar sorrateiramente no quarto pela janela teria feito barulho. Teria sido o fim se o assassino tivesse sido visto. Se o assassino é um de nós do Clube de Mistério, não teria corrido esse risco. Teria feito mais sentido apenas acordar Orczy com alguma desculpa e fazer com que o deixasse entrar no quarto. Orczy era assim. Poderia ter achado estranho, porém não teria dito não a um de nós.

— Contudo Orczy estava de pijama. — acrescentou Poe. — Ela teria deixado um homem entrar vestida assim?

— Talvez sim. Se ele tivesse dito que era urgente, não poderia só recusar, mesmo que quisesse. Exceto por Carr, depois da briga dos dois. Partindo dessa premissa...

Ellery lançou um olhar de soslaio para Poe.

— Você é o principal suspeito, Poe. Vocês eram amigos de infância, então Orczy não estaria tão na defensiva com você quanto comigo ou com Van.

— Bobagem. — Poe se inclinou para a frente. — Está dizendo que eu matei a Orczy? Isso não tem graça.

— Não é para ser engraçado. No entanto, pelo menos no que diz respeito ao assassinato da Orczy, a suspeita mais provável recai nos seus ombros. Se fosse você, o velho amigo dela, também acharia mais fácil entender a psicologia por trás do ato peculiar do assassino de arrumar o corpo da Orczy com tanto cuidado.

— E a sua mão? Por que iria querer cortar a mão dela e levá-la comigo?

— Fique calmo, Poe. Sei que essa não é a única resposta. Existem outras possibilidades. Poderia ter sido Van, poderia ter sido eu. Só digo que você é o principal suspeito.

— E quanto ao problema da mão, é óbvio que o assassino tinha em mente o incidente que aconteceu na Mansão Azul no ano passado, entretanto vou ser honesto e dizer que não tenho ideia de porque está fazendo alusão a isso. Van?

— Talvez para nos confundir?

— Hmm. Poe?

— Não acho que o assassino faria algo assim só para nos confundir. Cortar a mão sem fazer muito barulho deve ter sido difícil.

— Verdade. Nesse caso deve ter havido um motivo para cortar a mão de Orczy. Qual poderia ser esse motivo?

Ellery inclinou a cabeça e respirou fundo.

— Vamos deixar esse problema de lado por enquanto e continuar. O assassinato de Carr. Para começar pela conclusão, não acho que possamos chegar a uma resposta perfeita para este caso. Pela discussão que tivemos após o assassinato, podemos pelo menos concluir que nem Poe nem Van tiveram a chance de colocar veneno direto no café de Carr. Se a xícara em si já estivesse envenenada, então qualquer um teria a chance de fazê-lo, só que não havia como distinguir a xícara envenenada das outras.

— De qualquer forma, com Agatha agora morta, a pessoa restante mais capaz de colocar o veneno no café com a destreza de um mágico teria que ser, lamento dizer, eu mesmo. Todavia...

— Está prestes a sugerir que eu poderia ter dado a Carr uma cápsula de veneno de dissolução lenta, não é? — Poe interrompeu. Ellery sorriu.

— Precisamente. Não que ache que seria uma jogada inteligente. Suponha que tivesse conseguido dar a cápsula a Carr, como poderia saber que ficaria doente e morreria justo quando estivesse tomando café? Se o veneno tivesse começado a fazer efeito enquanto não estava comendo nem bebendo, então nosso médico residente seria o primeiro a ser suspeito. Não acho que seja tão tolo.

— Observação perspicaz.

— Mas há outra possibilidade.

— Hmph, e qual seria?

— Poe é uma estrela da nossa faculdade de medicina e sua família é dona de um dos hospitais particulares mais importantes da Cidade O. Pode ser que Carr não estivesse se sentindo bem há algum tempo e que estivesse pedindo conselhos a Poe. Ou talvez tenha visitado o hospital de Poe. De qualquer forma, vamos supor que Poe estivesse familiarizado com os detalhes dos problemas de saúde de Carr.

— Naquela noite fatídica, Carr teve algum tipo de ataque. Uma convulsão epiléptica ou coisa do tipo. Poe correu em seguida para o lado de Carr e fingiu ajudá-lo, porém, em vez disso, aproveitou a confusão para colocar arsênico ou estricnina na boca de Carr.

— Você parece achar que fui eu, contudo sua história é muito inverossímil. Nem um pouco realista.

— Não me leve tão a sério. Estou apenas discutindo possibilidades. No entanto, se afirmar que essa teoria é muito inverossímil, posso dizer o mesmo da sua teoria de truque de mágica. Talvez eu devesse encarar como um elogio, só que acho que está superestimando minhas habilidades mágicas. Esconder veneno na minha mão e colocá-lo em outra xícara assim que estendo a mão para pegar a minha não é tão fácil quanto parece. Se eu fosse o assassino, teria evitado um método tão perigoso. Seria muito mais fácil e seguro passar um pouco de veneno em uma das xícaras e marcá-la de alguma forma.

— Todavia a xícara em si não tinha nenhuma marca ou sinal.

— Exato. É isto que está me incomodando. Será que de fato não havia nenhuma marca naquela xícara?

Ellery inclinou a cabeça enquanto olhava para a xícara em suas próprias mãos.

— Não há lasca. Nenhuma rachadura. Igual às outras, um decágono verde-musgo... Não, espere.

— O que foi?

— Talvez tenhamos deixado passar algo. Algo incrível. — Ellery se levantou da cadeira.

— Poe, nós deixamos a xícara de Carr de lado exatamente como estava, não é?

— Sim. Está no canto da bancada da cozinha.

— Vamos dar outra olhada...

Ellery já estava a caminho da cozinha antes mesmo de terminar a frase e ordenou que os outros o seguissem.

— Venham vocês dois também.

A xícara estava sobre a mesa, coberta por uma toalha branca. Ellery puxou a toalha suavemente. Ainda havia um pouco do café de dois dias na xícara.

— Eu estava certo.

Ellery olhou fixamente para a xícara e estalou a língua, irritado.

— Fomos enganados. É um mistério como não percebemos antes.

— Como assim?

Van inclinou a cabeça. Poe também tinha uma expressão confusa no rosto.

— Para mim, parece igual às outras.

— Só que não é. — disse Ellery em um tom solene. — Um prédio decagonal com um salão decagonal, uma mesa decagonal, uma claraboia decagonal, cinzeiros decagonais e xícaras decagonais... Distraídos por essa grandiosa coleção de decágonos ao nosso redor, nossos olhos pararam de funcionar.

— O quê?

— Como assim?

— Há algo que diferencia esta xícara. Há algo que a torna diferente das outras. Vocês ainda não viram?

Depois de um tempo, Poe e Van gritaram ao mesmo tempo.

— Viram?

Ellery assentiu, satisfeito.

— O tema decagonal neste prédio foi uma grande manobra de desinformação. Esta xícara não tem dez lados, e sim onze.



Parte 6

— Então, voltando ao início.

De volta à mesa no salão principal, Ellery olhou mais uma vez para os outros dois.

— Agora que descobrimos que a xícara era diferente, qualquer um de vocês, ou, claro, eu mesmo, teria a mesma oportunidade de envenenar Carr. Uma xícara com onze lados entre as xícaras decagonais. O assassino espalhou veneno naquela xícara e, se tivesse sido passada para ele, apenas não teria bebido seu café.

— Por que aquela xícara estava lá, afinal? — perguntou Van.

— Talvez uma das piadas de Nakamura Seiji. — disse Ellery, um sorriso aparecendo em seus lábios delicados. — Esconder um único objeto de onze lados em uma casa de decágonos. Uma piada fantástica, não é?

— Será que é só isso mesmo?

— Acredito que sim. Pode ter outro significado também, embora não importe. O assassino por acaso descobriu aquela taça de onze lados e decidiu usá-la. Não acredito que tenha sido algo que preparou com antecedência. Não se consegue um objeto assim a menos que seja feito sob encomenda. O assassino apenas notou a taça depois de chegar à ilha. E nós três tivemos a oportunidade de fazer o mesmo.

Ellery apoiou os cotovelos na mesa e juntou os dedos na altura dos olhos.

— O assassino esperou até que todos fossem dormir e entrou sorrateiramente no quarto onde o corpo de Carr estava. Depois, teve todo o trabalho de cortar a mão esquerda do cadáver, assim como fez com Orczy, e jogá-la na banheira. Não faço ideia do porquê de tê-lo feito.

— Agatha disse que ouviu alguma coisa. Deve ter sido isso.

— Sim, Poe. Todos estavam um pouco tensos naquela altura. O assassino se comprometeu com um trabalho bastante arriscado. O que significa que havia um motivo importante para cortar as mãos. Porém continua sendo um mistério para mim.

Ellery franziu a testa e continuou.

— De qualquer forma, como falei, nós três tivemos a mesma oportunidade de matar Carr. Vamos para o próximo.

— O próximo é Agatha... Não, Leroux primeiro? — disse Van.

Ellery balançou a cabeça negativamente.

— Não, primeiro houve a tentativa de assassinato contra mim. Eu, Ellery. Ontem, no quarto subterrâneo. Na noite anterior, acho que foi pouco antes de Carr desmaiar, mencionei a possibilidade de haver um quarto subterrâneo na Mansão Azul. Suponho que, ao ouvir o que falei, o assassino... Talvez depois de cortar a mão de Carr e colar a placa na porta... Saiu escondido e armou a armadilha. Todos estavam lá quando mencionei a possibilidade de um quarto subterrâneo, então qualquer um poderia ter preparado a armadilha. Já que quase me tornei uma das vítimas do assassinato, devo ser descartado como suspeito, não é?

Ellery observou as reações dos outros dois. Van e Poe se entreolharam e demonstraram desaprovação.

— Contudo admito que não há nada que prove que não foi um ato individual. Nem me machuquei de forma séria. E agora, o assassinato de Leroux esta manhã.

Ellery refletiu um pouco.

— Havia algumas peculiaridades nesse assassinato. Foi cometido ao ar livre e a vítima foi espancada até a morte. Ao contrário dos dois assassinatos anteriores, não houve decepações de mãos. Este assassinato foi diferente.

— Concordo. Mesmo assim, qualquer um de nós três poderia ter sido o assassino. — disse Poe.

Ellery esfregou o queixo magro.

— É verdade. Vamos deixar a análise do assassinato de Leroux para depois, então. Preciso de mais tempo para pensar a respeito.

— Por último, o assassinato de Agatha. Como acabamos de descobrir, cianeto de potássio ou cianeto de sódio, ou alguma coisa parecida, foi aplicado em seu batom. O único problema é quando e como o veneno foi colocado lá?

— Além do momento em que ela o aplicava, o batom esteve em seu quarto o tempo todo desde que chegou à ilha, dentro de sua nécessaire de maquiagem. Desde anteontem, após os assassinatos de Orczy e Carr, Agatha tornou-se extremamente cautelosa e sempre mantinha a porta trancada. O assassino não teria conseguido entrar sorrateiramente em seu quarto. Por outro lado, Agatha usava batom todos os dias. Sua morte ocorreu esta manhã, o que significa que seu batom foi envenenado entre a tarde de ontem e a noite passada.

— Ellery, só uma coisa.

— Sim, Van?

— Acho que a cor do batom que Agatha usou hoje é diferente da de ontem.

— O quê?

— A cor que usou esta manhã era bastante vibrante. Nem consegui acreditar que estivesse morta. — Van continuou. — Agatha estava usando um tom diferente ontem e anteontem. Rosa-claro, se não me engano.

— Aha.

Ellery bateu na borda da mesa com os dedos.

— Agora que mencionou, Agatha tinha dois tubos na bolsa, um deles rosa. Então, suponho que o veneno foi colocado no vermelho antes. Foi colocado lá no primeiro ou segundo dia, quando Agatha ainda não estava em alerta e o assassino poderia entrar escondido sem problema em seu quarto. Mas ela não usou aquele batom até esta manhã.

— Uma bomba-relógio. — disse Poe, acariciando a barba. — E, de novo, qualquer um de nós três tinha a oportunidade de ser o responsável.

— É nisso que se resume. Porém Poe, se acreditamos que o assassino é um de nós, não adianta ficar dizendo que qualquer um de nós poderia ter feito todas as vezes.

— Nesse caso, o que propõe?

— Uma votação. — disse Ellery com uma expressão calma, antes de abrir um sorriso. — Estou brincando, é claro, contudo vamos ouvir o que cada um de nós tem a dizer. Van, quem você acha que é o mais suspeito?

— Poe! — respondeu Van surpreendentemente com facilidade.

— O quê?

O rosto de Poe empalideceu e ele apagou o cigarro que acabara de acender no cinzeiro.

— Droga, não fui eu. Mas acho que dizer isso não vai adiantar em nada.

— Não podemos só acreditar de forma cega na sua palavra, é claro. Compartilho da mesma opinião que Van: dos três, você é o mais suspeito. — disse Ellery categoricamente.

Era evidente como Poe ficou perturbado e perguntou com raiva.

— Por quê? Por que sou suspeito?

— Motivo.

— Motivo? Motivo, sério? Por que eu iria querer matar quatro dos meus amigos? Diga-me, Ellery.

— Ouvi dizer que sua mãe está sendo tratada em um hospital psiquiátrico. — respondeu Ellery friamente. Poe engasgou com a resposta e cerrou os punhos até que os nós dos dedos ficassem brancos e começassem a tremer.

— Aconteceu há alguns anos. Sua mãe foi pega tentando matar um paciente no seu hospital. Ouvi dizer que ela já estava mentalmente desequilibrada.

— Isso é verdade, Ellery? — os olhos de Van estavam arregalados de surpresa. — Eu não sabia disso.

— Seu pai abafou o caso. Porque prejudicaria a reputação do hospital. O paciente que foi atacado deve ter sido subornado. O advogado que os representou é amigo do meu pai, foi assim que fiquei sabendo.

A esposa de um médico deve estar sob bastante estresse mental. Pode ser demais para uma mulher com a mente frágil. Ela pode até imaginar que um paciente estava roubando seu marido...

— Cale a boca! — Poe gritou com raiva. — Não fale da minha mãe!

Ellery assobiou uma vez e depois ficou quieto. Poe seguia olhando para baixo, com os punhos cerrados, por fim uma risadinha escapou de seus lábios.

— Então está dizendo que posso estar louco? Uma tentativa bastante simplista de encontrar um motivo.

Então seu rosto escureceu e ele olhou com raiva para Ellery e Van.

— Deixe-me dizer uma coisa primeiro: vocês dois também têm motivos.

— Oh, é verdade? — falou Ellery. — Por favor, conte-nos quais são.

— Primeiro, Van. Seus pais foram assassinados por ladrões quando você estava no ensino fundamental. Sua irmãzinha também. Então pode ter um problema com a gente, um grupo de estudantes que escreve alegremente sobre pessoas sendo mortas.

Van empalideceu enquanto Poe falava, todavia mesmo assim conseguiu responder.

— O que aconteceu com a minha família é passado. E se tivesse rancor de escritores de mistério, por que teria entrado para um clube de literatura policial na faculdade? — Van falou em voz baixa. — Além do mais, não acredito nem por um momento que a literatura policial elogie o assassinato. É por esse motivo que estou no clube há tanto tempo e até concordei em vir aqui com vocês.

—Quem sabe por que você entrou para o clube, talvez para se vingar de nós? — Poe mudou de alvo.

— E o próximo é Ellery.

— Sim. Qual seria o meu motivo?

— Você alegou que não se importava, mas talvez estivesse farto das alfinetadas do Carr.

— Só isso? Estava farto do Carr? — Ellery pareceu surpreso. — Ah, e suponho que os outros três assassinatos foram camuflagem. Quão ridículo. É uma pena, porém Carr nem sequer era um incômodo para mim. Não me importo com o que os outros pensam de mim. Deveria saber disso. Acha mesmo que eu odiava Carr o suficiente para querer matá-lo?

— Não precisaria de muito motivo. Seria como matar uma mosca.

— Quer dizer que acha que sou uma pessoa tão fria assim?

— “Fria” não descreve com exatidão, penso que a sua pessoa carece de algo humano. Acho que é um homem que poderia matar alguém por um mero capricho. Não concorda, Van?

— Talvez. — Van assentiu com os olhos inexpressivos. Uma expressão preocupada apareceu no rosto de Ellery por um breve momento, contudo logo se transformou em um sorriso irônico e deu de ombros.

— Bom, talvez deva me comportar melhor.

E então os três ficaram em silêncio.

A atmosfera escura e sinistra do salão parecia congelar suas mentes, impedindo-os de se libertar. As dez paredes brancas ao redor pareciam mais distorcidas do que nunca.

Os três permaneceram assim por um longo tempo.

Podiam ouvir o murmúrio do vento nas árvores. O ruído era um prenúncio de um som de batida leve no telhado do prédio.

— Ah, está chovendo! — murmurou Ellery, olhando para as gotas de água que começavam a se acumular no vidro da claraboia.

O barulho aumentou à medida que a chuva se tornava mais forte, mais violenta, como se quisesse isolar ainda mais os três homens que já estavam presos na ilha.

Então Ellery murmurou algo e se levantou, seus olhos fixos na claraboia.

— O que foi? — perguntou Poe, desconfiado.

— Ah, não, espere...

Ellery não havia terminado a frase quando, de repente, empurrou a cadeira para trás, virou-se e correu para a entrada.

— As pegadas!



Parte 7

Estava chovendo torrencialmente. O som da chuva se misturava com as ondas e reverberava por toda a ilha, como uma melodia sobrenatural.

Ellery correu pela chuva, sem se importar em se empapar.

Não pegou o caminho mais longo pelo arco de pinheiros, contudo seguiu direto para as ruínas da Mansão Azul. Precisaria atravessar as árvores.

Ele parou uma vez para olhar para trás. Certificando-se de que Poe e Van o seguiam, gritou.

— Rápido! A chuva vai destruir as pegadas! — e deu outro impulso.

Seus pés ficaram presos na vegetação rasteira algumas vezes, no entanto conseguiu atravessar as árvores sem cair. Ao chegar ao jardim da frente da Mansão Azul, viu que as pegadas ao redor do local onde Leroux havia se deitado seguiam estando intactas.

Poe e Van chegaram logo depois. Ellery apontou para as pegadas enquanto recuperava o fôlego.

— Memorizem tudo aqui como se suas vidas dependessem disso.

Os três ficaram ali, seguindo com os olhos as linhas de pegadas deixadas no chão, enquanto a chuva fria os castigava. Tentavam ao máximo memorizar a cena à sua frente, enquanto poças começavam a se formar e filetes de água começavam a erodir as pegadas.

Depois de um tempo, Ellery se virou, afastando as mechas de cabelo molhadas da testa.

— Vamos voltar. Vamos pegar um resfriado.



Depois de trocarem de roupa, os três se reuniram outra vez em volta da mesa no corredor.

— Vocês dois se importariam de chegar um pouco mais perto? É importante. — disse Ellery, abrindo um caderno que havia trazido do quarto e pegando uma caneta. Poe e Van hesitaram, todavia se levantaram das cadeiras e foram até Ellery.

— Vamos desenhar a planta enquanto está fresca na nossa memória, ok?

Ellery desenhou um retângulo vertical que preenchia a página do caderno.

— Isto representa os jardins da Mansão Azul.

Ellery desenhou um retângulo horizontal menor perto do topo da página.

— Estas são as ruínas do edifício... A pilha de tijolos. E esta é a escadaria que desce para a área rochosa sob os penhascos.

Ele marcou um ponto a meio caminho do lado esquerdo do retângulo maior.

— A Casa Decagonal fica no canto inferior direito. A linha inferior aqui é a fileira de árvores. E Leroux estava deitado no jardim da frente, por aqui.

Um pouco à direita e abaixo do centro, Ellery desenhou uma figura humana, representando o cadáver. Ellery então olhou para os outros dois.

— E agora as pegadas. Onde estavam?

— Primeiro, havia uma linha de pegadas que ia da entrada do terreno, o arco de pinheiros, até a escadaria nos penhascos. — respondeu Poe, coçando a barba inquieto.

— E depois, três linhas desordenadas de pegadas que iam da entrada até o corpo de Leroux e voltavam.

— Exato. Assim, certo, Van?

— Sim. Acho que foi assim.

— Certo, pronto.

Após terminar o desenho do diagrama, Ellery colocou o caderno onde os três pudessem vê-lo claramente.


— Descobri o rastro de Leroux assim que atravessei o arco de pinheiros e cheguei aos jardins da Mansão Azul. Vocês dois chegaram logo depois e corremos direto para o corpo. Poe e eu pegamos o corpo e, com Van atrás de nós, voltamos para a Casa Decagonal pelo mesmo caminho. Portanto, os três conjuntos caóticos de pegadas que iam até o corpo e voltavam foram feitos por nós três, é claro. Logo, se removermos esses conjuntos da nossa investigação... — Ellery fez uma pausa e jogou o cabelo molhado para trás.

— Vocês não veem nada de estranho?

— Estranho? Sobre essas pegadas? — perguntou Poe, franzindo a testa.

— Sim. As únicas pessoas que entraram na cena do crime foram nós três, e claro, o assassino. Levando Leroux em consideração, deveriam haver cinco conjuntos de pegadas levando ao seu corpo. E de fato, há cinco conjuntos. No entanto...

— Ellery, espere... — disse Poe, encarando o diagrama. — Se ignorarmos os conjuntos de pegadas que fizemos quando descobrimos o corpo de Leroux, resta um conjunto que vai da entrada até a escada, dois conjuntos que vão da escada até o corpo e um conjunto que vai do corpo até a escada.

— Então viu o nosso problema?

— Sim.

— Acho que podemos assumir com segurança que as pegadas da entrada até a escada são de Leroux. Um dos conjuntos que vai da escada até o corpo pertence naturalmente ao próprio Leroux. O que significa que as duas linhas restantes foram feitas pelo assassino indo até Leroux e voltando. Só que, de onde veio o assassino?

— Da escada.

— Exato. Entretanto lá embaixo só tem mar. Você se lembra? Havia apenas penhascos íngremes dos dois lados da área rochosa abaixo da escadaria. A única maneira de chegar a esta ilha é por aquela escadaria ou pelos degraus da enseada com o píer. Então, como o assassino chegou àquela área rochosa? E para onde foi de lá? Teria que contornar todo aquele penhasco saliente se quisesse voltar para a enseada. A água também é profunda. Precisaria nadar com esse tempo. Imagino qual será a temperatura da água.

Poe pegou sua carteira de cigarros e gemeu baixinho. Os olhos de Van estavam fixos no caderno sobre a mesa.

— E? — Poe insistiu.

— Então, o problema é: por que o assassino fez isso? Bem?

Ellery era o único que estava gostando desses enigmas sob as circunstâncias tensas.

Van permaneceu em silêncio, enfiando as duas mãos dentro de sua jaqueta de plumas.

— Hum. — Poe pigarreou e falou. — O assassino é um de nós três aqui nesta casa. Então, por que desceria até a área rochosa para nadar de volta até aqui? Caminhar teria sido mais fácil. Poderia só ter pisoteado as próprias pegadas para disfarçar o tamanho e a forma delas. Não é como se tivéssemos um perito forense por aqui. Então, o fato de não o ter feito significa que tinha um motivo importante para voltar pelo mar.

— Exatamente. E o motivo é óbvio, acredito. — Ellery assentiu com satisfação e se levantou. — Portanto vamos comer alguma coisa agora. Já são três horas.

— Comer?

Van pareceu desconfiado.

— Como podemos comer agora, Ellery? Por que o assassino...

— Mais tarde, mais tarde. Não precisa ficar tão preocupado com a questão agora. Não comemos desde de manhã.

Ellery se virou e foi para a cozinha.



Parte 8

Após terminar seu almoço de rações de emergência e uma xícara de café, Ellery começou.

— Certo, vamos retomar. Nossos estômagos estão cheios, assim podemos terminar com esse nosso problema. Certo?

— Claro. Pare de fazer drama! — respondeu Poe. Van assentiu sem dizer uma palavra.

O comportamento de Ellery vinha confundindo os outros dois desde que começara a falar sobre as pegadas. Os dois o observaram durante a refeição, porém ele permaneceu calmo o tempo todo e eles até conseguiram vislumbrar seu sorriso característico de vez em quando.

— Certo.

Ellery afastou a xícara e o prato e abriu o caderno de novo. Os outros dois se aproximaram, mantendo distância um do outro.

— Primeiro, uma revisão dos pontos principais.

Ellery olhou para o desenho das pegadas e começou sua análise.

— Concluímos que as únicas pegadas deixadas pelo assassino foram as duas linhas entre o corpo e a escada. Isto significa que o assassino veio e foi embora pelo mar. Supondo que o assassino seja um de nós, vamos tentar traçar a rota que percorreu.

— Ele teria saído da Casa Decagonal, descido até a enseada, entrado no mar, nadado até a área rochosa e subido a escada para chegar à Mansão Azul. Depois teria voltado pelo mesmo caminho depois do assassinato. Poe acabou de falar sobre um motivo importante para voltar para casa pelo mar, contudo seria de fato esse o caso? Por mais que pense a respeito, me parece um absurdo. Não há necessidade alguma de fazer tal coisa. Não há o menor vislumbre de realidade em toda essa ideia.

— No entanto isso significaria que o assassino é alguém além de nós. — disse Poe.

— Alguém do mar... Alguém de fora da ilha.

— E por que não seria esse o caso? — Ellery fechou o caderno.

— A conclusão mais lógica a que podemos chegar, dadas as circunstâncias, é que o assassino é alguém além de nós. Podemos não conseguir sair da ilha, todavia há muitas maneiras de alguém de fora chegar à ilha. Dessa forma, também não há necessidade de sugerir ideias absurdas como alguém nadando no mar. O assassino usou um barco.

— Um barco. — murmurou Poe.

— Por que Orczy e Leroux foram mortos de madrugada? Porque a melhor hora para chegar à ilha sem ser notado é no meio da noite ou de madrugada. O que acha?

Ellery tirou seu maço de cigarros Salem enquanto observava as expressões dos outros dois. Percebendo que o maço estava vazio, jogou-o sobre a mesa.

— Quer um? — disse Poe, e deslizou sua carteira de cigarros em direção a Ellery.

— Poe parece concordar comigo.

Ellery colocou um cigarro na boca e acendeu um fósforo.

— E Van?

— Acho que tem razão, Ellery. Poe, posso pegar um também?

— Claro.

Ellery passou a carteira de cigarros de Poe para Van.

— Mas Ellery, se você está certo e o assassino não é um de nós, por que fizeram aquelas placas? — perguntou Poe.

— Quer dizer por que havia uma placa com o nome “O Assassino”, além das placas com os nomes “O Detetive” e as vítimas? Porque o verdadeiro propósito delas era servir de distração.

Ellery, com os olhos semicerrados, soltou uma nuvem de fumaça.

— Primeiro, isso nos fez acreditar que “O Assassino” era um de nós sete. Assim, ficaríamos menos desconfiados do mundo exterior.

— E segundo?

— Diria pressão psicológica. Conforme o grupo diminuísse, os sobreviventes restantes começariam a suspeitar uns dos outros e poderiam se matar. O assassino deve ter esperado que fosse o desfecho final. Mais corpos sem ter que sujar as próprias mãos. De qualquer forma, o objetivo final do assassino é muito provavelmente matar todos nós sete.

— Isso é cruel! — murmurou Van enquanto acendia seu cigarro.

— Mais uma coisa que me intriga. — disse Poe, pressionando o polegar grosso contra a têmpora. — Por que o assassino voltou direto para o mar depois de matar Leroux?

— Como assim, por quê? — perguntou Van, devolvendo a cigarreira de Poe.

— O assassino estava tentando fazer parecer que os assassinatos foram cometidos por um de nós. Então, não faria mais sentido deixar mais pegadas, por exemplo, entre a entrada e a escada? Seria fácil.

— Pode nem ter percebido que deixou pegadas.

— E voltou para o continente imediatamente? Quando foi que colou aquela placa com a “Terceira Vítima” na porta?

— Err...

Vendo que Van não conseguia responder, Poe se virou para Ellery.

— Qual a sua opinião sobre, Ellery?

— Acho que foi assim... — disse Ellery, colocando o cigarro no cinzeiro. — Pode ser, como disse Van, que o assassino não tenha percebido o problema das pegadas. Entretanto supondo que tivesse percebido, é provável que teria considerado deixar um conjunto extra de pegadas entre a entrada e a escada. O fato de não o ter feito significa que a situação não lhe permitiu fazê-lo. Acho que posso explicar isso levando em conta as circunstâncias particulares do assassinato de Leroux.

— Leroux foi espancado até a morte. A julgar pelas pegadas irregulares que levavam dos degraus até o seu corpo, acho que podemos deduzir que estava sendo perseguido pelo assassino. Meu palpite é que Leroux viu o assassino e o barco na área rochosa, talvez justo quando o assassino se preparava para deixar a ilha.

— Leroux percebeu o que estava acontecendo e fugiu. O assassino viu Leroux e o perseguiu. Leroux deve ter gritado por socorro, então, depois de alcançá-lo e espancá-lo até a morte, o assassino entrou em pânico. Alguém poderia ter sido acordado pelos gritos de socorro e poderia chegar a qualquer momento. Poderia até ter se escondido nas proximidades, mas não podia se dar ao luxo de ter seu barco descoberto.

— Portanto, o assassino deixou as pegadas como estavam, voltou para a área rochosa e remou o barco até a enseada, para ver se conseguia nos ouvir chegando à procura de Leroux. Para sua sorte, nada disso parecia estar acontecendo. Então foi até a Casa Decagonal e, depois de olhar pela janela da cozinha para verificar se todos pareciam estar dormindo, entrou sorrateiramente e colou a placa na porta de Leroux. Ele desistiu das pegadas e deixou a ilha. Teria sido muito perigoso, considerando também a hora do dia, voltar à Mansão Azul mais uma vez.

— Hmm. Nesse caso o assassino esteve aqui na ilha a noite toda? — perguntou Poe.

— Acho que esteve aqui todas as noites. Ele chega à ilha à noite para observar nossos movimentos.

— Escondido debaixo da janela da cozinha?

— Provavelmente algo assim.

— E deixa o barco na enseada ou na área rochosa?

— O mais provável é que o esconda. Um pequeno bote inflável pode ser dobrado sem dificuldade. Poderia carregá-lo até o bosque ou escondê-lo debaixo d’água com um peso em cima.

— Um bote inflável? — Poe franziu a testa. — Dá para chegar ao continente com algo assim?

— Não precisa ir até o continente. Tem um esconderijo perfeito bem ali na esquina.

— Ilha do Gato?

— Bingo, Ilha do Gato. Acho que o assassino está acampado lá. Dá para remar até aqui com facilidade a partir daquela ilha.

— Verdade, não é longe.

— Vamos reconsiderar o que o assassino fez mais uma vez.

Ellery fechou o caderno e o colocou de lado. Do nada, tirou seu baralho de cartas, colocou-o sobre a mesa e começou a jogar enquanto continuava sua história.

— O assassino veio aqui ontem à noite da Ilha do Gato. E nos observou, esperando uma oportunidade para cometer seu próximo assassinato, porém não encontrou nada e, por isso, esta manhã, retornou à área rochosa. Acho que ainda estava chovendo na hora. É por esse motivo que o assassino não deixou pegadas da entrada das ruínas até a escadaria.

— A chuva parou enquanto preparava o barco na área rochosa. A partir daquele momento, as pegadas permaneceriam intactas no chão. Foi nesse instante que Leroux apareceu, embora eu não saiba o que ele estava fazendo ali.

Leroux viu o barco e o assassino. Em pânico, o assassino agarrou uma das pedras que estavam por perto, perseguiu Leroux e o silenciou. Temendo que alguém viesse correndo por causa dos gritos, moveu seu barco para a enseada. Esperou um pouco para ver se alguém estava acordado e então entrou sorrateiramente aqui para pendurar a placa. Algo assim.

O polegar de Poe não havia saído de sua têmpora nem por um instante. Com um cotovelo apoiado na mesa, perguntou com raiva.

— Contudo Ellery, quem é esse assassino escondido na Ilha do Gato?

— Nakamura Seiji, é claro. — declarou Ellery sem hesitar. — Venho dizendo isso desde o começo. Não estava falando sério quando disse que achava que você era um suspeito agora há pouco.

— Suponhamos que aceito a possibilidade de Nakamura Seiji seguir vivo, só para argumentar. Não sei quanto aos outros, no entanto não consigo imaginar que motivo esse Seiji poderia ter para querer nos matar. Não consigo pensar em nada. Ou está só dizendo que ele é louco?

— Um motivo? Claro que tem um. Um motivo forte.

— O quê? O que você quer dizer? — Poe e Van exclamaram simultaneamente, inclinando-se para a frente.

Ellery habilmente recolheu as cartas que havia espalhado sobre a mesa.

— Conversamos sobre os motivos um do outro agora mesmo, todavia o de Nakamura Seiji é muito mais óbvio. Eu mesmo só percebi ontem à noite, depois de voltar para o meu quarto.

— Sério?

— Qual é, Ellery?

— Nakamura Chiori. Lembra dela?

O silêncio reinava no salão sombrio, exceto pelo som distante das ondas. A chuva havia diminuído para uma garoa silenciosa.

— Nakamura Chiori. Quer dizer... — a voz de Van estava fraca.

— Sim, nossa integrante júnior, que morreu por nossa negligência em janeiro do ano passado. Aquela Nakamura Chiori.

— Nakamura... Nakamura Seiji, Nakamura Chiori.

Poe murmurou as palavras como se estivesse entoando um feitiço.

— Mas não pode ser.

— Pode ser, e é. É a única explicação que consigo imaginar. Nakamura Chiori era filha de Nakamura Seiji.

— Então é isto.

Poe franziu a testa, tirou um cigarro Lark da sua carteira e o colocou direto na boca. Van fechou os olhos, com as mãos na nuca. Ellery recolheu as cartas, colocou-as em cima da carteira e continuou.

— Foi Nakamura Seiji quem cometeu os assassinatos que aconteceram aqui nesta ilha há seis meses. Ele queimou alguém para servir de sósia, seja o jardineiro desaparecido ou alguém de idade, porte físico e tipo sanguíneo semelhantes. Nakamura Seiji ainda está vivo e agora está se vingando pela morte da filha...

Nesse momento, Ellery foi interrompido.

— Uuurgh!

Um som estranho escapou da garganta de Poe.

— O que foi?

— Poe?

Sua cadeira rangeu no chão, e então o corpo grande de Poe tombou para a frente e caiu.

— Poe!

Ellery e Van correram até ele, tentando ajudá-lo a se levantar. Poe, curvado de dor, afastou as mãos dos dois. Então, finalmente, tudo acabou.

Com uma última convulsão violenta, seus quatro membros se estenderam rigidamente no ar e ele caiu de costas no chão. Esse foi o fim de Poe.

O cigarro Lark que Poe jogara fora depois de apenas uma tragada estava no chão de azulejos azuis, com fumaça saindo. Ellery e Van só conseguiam olhar em choque para a agora imóvel “Última Vítima”.



Parte 9

Era quase crepúsculo e o céu seguia coberto de nuvens cinzentas, porém não parecia que fosse chover. O vento parou de sacudir as árvores e o ruído das ondas revoltas também se transformou em uma melodia melancólica.

O corpo de Poe foi levado para seu quarto pelos dois sobreviventes. No chão estava o quebra-cabeça, que mal havia sido tocado desde a última vez que Van o vira. Os rostinhos fofos dos filhotes de raposa pareciam tristes.

Ellery e Van tomaram cuidado para não perturbar o enigma e colocaram o grande corpo de Poe na cama. Van o cobriu com um cobertor e Ellery fechou os olhos de Poe. De sua boca contorcida em dor, surgiu um leve odor de amêndoas.

Após um momento de oração silenciosa, os dois saíram do quarto sem dizer uma palavra.

— Outra bomba-relógio. Droga.

A voz de Ellery tremia de fúria enquanto pisava no cigarro de Poe, que havia virado cinzas no chão.

— Um dos cigarros de Poe estava envenenado com ácido prússico. Ele deve ter entrado escondido no quarto de Poe e injetou um deles com uma seringa.

— Nakamura Seiji?

— Quem mais?

— Poderia ter sido um de nós.

Van se jogou em uma cadeira. Ellery caminhou até a mesa e acendeu o abajur. Na luz bruxuleante, sombras misteriosas começaram a dançar nas paredes brancas.

— Nakamura Seiji... — murmurou Ellery enquanto seus olhos se fixavam na chama. — Pensando bem, Van, Nakamura Seiji era o antigo dono desta casa. Sem dúvida deve conhecer a geografia da ilha e a planta dos prédios, e aposto que também tem chaves reservas de todos os cômodos.

— Chaves reservas?

— Uma chave mestra, talvez. E a levou consigo depois de incendiar a Mansão Azul e se esconder. Agora pode entrar em qualquer cômodo quando quiser. Foi a coisa mais fácil do mundo envenenar o batom da Agatha ou matar Orczy. O mesmo vale para os cigarros do Poe. Ele se certificava de ficar fora de vista e se movia por este prédio como uma sombra. Nós somos apenas os pobres insetos que caíram na armadilha chamada Casa Decagonal.

— Lembro de ter lido em algum lugar que Seiji era arquiteto.

— Eu também li isso. Pode até ter sido o próprio quem projetou este lugar. Com certeza foi o responsável por construir esse lugar... Talvez... Espere um segundo!

Ellery dirigiu um olhar atento ao redor do corredor.

— O que foi, Ellery?

— Estava pensando na xícara que foi usada para envenenar Carr.

— A de onze lados?

— Agora sabemos que ela não foi usada para marcar o café envenenado, contudo você se lembra, Van? Você perguntou. Por que aquela xícara estava lá, afinal?

— Ah, sim, perguntei.

— Respondi que era só uma piada do Seiji. No entanto acrescentei que também poderia ter outro significado. Esconder um único objeto de onze lados em uma casa de decágonos. Isso não sugere algo?

— Algo de onze lados dentro de um decágono? — murmurou Van, antes de seus olhos se arregalarem de repente em surpresa. — Pode significar que há onze cômodos aqui.

— Exato. — Ellery assentiu sombriamente. — Tive a mesma ideia. Além deste salão central, o edifício consiste em dez cômodos trapezoidais de igual tamanho. O banheiro, o lavabo e a pia formam um cômodo, a cozinha, o salão de entrada e os sete quartos de hóspedes somam outros nove. Se houver mais um cômodo escondido em algum lugar aqui, além desses dez...

— Quer dizer que Seiji não estava nos observando da janela da cozinha, e sim daquele cômodo secreto?

— Sim!

— Mas onde será que fica?

— Considerando a planta deste prédio, acho que só pode ser subterrâneo. E tenho uma suspeita... — um sorriso surgiu nos lábios de Ellery. — De que a xícara de onze lados seja a chave para o cômodo secreto.



Eles a encontraram dentro do depósito sob o piso da cozinha.

Não havia nada de estranho no próprio depósito. Uma parte quadrada do piso, com cerca de oitenta centímetros de cada lado, podia ser levantada com facilidade puxando uma alça.

O buraco tinha cerca de cinquenta centímetros de profundidade. Placas brancas revestiam o fundo e as quatro laterais. Não havia nada dentro.

— É aqui, Van. — Ellery apontou.

— Imaginei que, se o cômodo de fato existisse, estaria na cozinha, junto com a xícara. E pronto!

Os dois iluminaram o fundo do espaço com uma lanterna. Havia um pequeno buraco ali, com apenas alguns centímetros de largura, quase invisível a menos que o procurasse. Um sulco circundava o buraco.

— Van, me de a xícara.

— E o café dentro?

— Isso é importante, então jogue fora.

Ellery pegou a xícara e rastejou pelo chão. Ele esticou o braço direito para dentro do compartimento e deslizou a xícara para dentro do buraco no meio.

— Consegui. Encaixe perfeito.

A fechadura de onze lados e a chave se encaixaram.

— Vou girar a chave.

Como esperava, o buraco girou seguindo o sulco circular. Depois de um tempo, sentiu algo deslizar para o lugar.

— Ok, vou abrir.

Ellery puxou cuidadosamente a xícara para fora do buraco. Ao fazer isso, todo o fundo branco do compartimento começou a inclinar-se para baixo sem emitir nenhum som.

— Aparelho fantástico! — disse Ellery. — Há um mecanismo com engrenagens ou algo do tipo que impede que faça barulho quando a base se inclina para baixo.

Não demorou muito para que uma escada que levava a uma sala subterrânea secreta fosse revelada.

— Vamos, Van.

— Será que devemos? — Van estava com medo. — E se ele estiver lá embaixo nos esperando?

— Não se preocupe. O sol acabou de se pôr. Seiji ainda não deve ter chegado. Mesmo que chegue, somos dois contra um. Temos a vantagem ao nosso favor.

— Mas...

— Se está com medo, fique aqui. Vou ir sozinho.

— Ah, espere, Ellery.



Um cheiro úmido e acre chegou aos seus narizes.

Com o caminho iluminado apenas pela lanterna de Ellery, os dois desceram para o buraco escuro.

Era uma escada robusta, apesar da idade. Se pisassem com cuidado, nem rangia. Ellery foi na frente e, certificando-se de não repetir o erro tolo que cometera no dia anterior, avançou com muita cautela.

Após nem dez degraus descendo a escada, chegaram à sala relativamente grande que já haviam vislumbrado. Ela começava logo abaixo da cozinha e se estendia na direção do salão central.

O chão e as paredes eram de concreto nu. Não havia móveis. O teto era um pouco mais alto que Ellery e perfurado com pequenos buracos. Finos raios de luz brilhavam através deles.

— A luz da lâmpada. — sussurrou Ellery. — Estamos embaixo do corredor. Tudo o que dissemos poderia ser ouvido claramente daqui.

— Então Seiji esteve mesmo aqui?

— Sim. Deve ter escutado cada movimento nosso. E aposto que também fez um caminho deste cômodo que leva para fora do prédio.

Ellery iluminou as paredes ao redor. Concreto sujo com manchas pretas. Aqui e ali, algumas rachaduras e sinais de reparo.

— Ali! — disse Ellery, e parou de mover a luz. À direita deles, no fundo, havia uma velha porta de madeira.

A dupla se aproximou.

Ellery estendeu a mão para tocar a maçaneta enferrujada. Em voz baixa, Van perguntou.

— Para onde levará?

— Estou curioso também.

Ellery girou a maçaneta. A porta rangeu alto. Ellery prendeu a respiração e puxou com mais força. A porta se abriu.

De repente, ambos gemeram e taparam o nariz.

— O quê?

— Que cheiro horrível.

Um odor insuportável preenchia a escuridão. Era tão repulsivo que lhes dava vontade de vomitar.

Eles adivinharam imediatamente a origem do cheiro e estremeceram de nojo.

Era o cheiro de carne podre.

A mão de Ellery não parava de tremer, mas apertou a lanterna com força mais uma vez e apontou o feixe de luz para a escuridão além da porta.

Era uma escuridão profunda. Como suspeitavam, aquilo parecia ser um caminho para algum lugar lá fora.

Dirigiu o feixe de luz para baixo. Ao percorrer o chão de concreto sujo, a luz incidiu sobre...

— Aah!

— Urgh!

Gritaram ao mesmo tempo.

Havia encontrado a origem do cheiro horrível.

Um pedaço de carne de cor nauseante, cuja forma original era irreconhecível. Ossos amarelo-esbranquiçados à mostra. Órbitas oculares escuras e vazias.

Era inquestionavelmente o cadáver semidecomposto de um ser humano.



Parte 10

Já passava da meia-noite.

Não havia mais ninguém no salão decagonal. A lâmpada havia se apagado e restava apenas a escuridão.

O estrondo distante das ondas tocava uma melodia de outra dimensão. As estrelas espreitavam através da claraboia decagonal, assemelhando-se a uma boca aberta na escuridão.

E, de repente, um ruído agudo veio de algum lugar dentro do edifício.

Foi seguido por um som diferente, o som de um ser vivo suspirando. O suspiro transformou-se em um gemido, o gemido em um rugido que envolveu tudo.

A Casa Decagonal estava em chamas.

O edifício branco estava envolto em uma luz carmesim. A fumaça subia em nuvens densas. Um rugido ecoou pelo céu noturno. O incêndio gigantesco queimava furioso, como se tentasse chamuscar as nuvens que passavam.

A luz extraordinária era visível até mesmo na Cidade S, do outro lado do mar.

***

Link para o índice de capítulos: The Decagon House Murders

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